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Na manhã da véspera de Natal, Mikael foi a Arsta se encontrar com a ex-mulher e a filha Pernilla para a troca de presentes. Pernilla recebeu o computador que estava no topo da sua lista e que Mikael e Monika haviam comprado juntos. Mikael ganhou uma gravata de Monika e, da filha, um romance policial de Ake Edwardson. Diferentemente do Natal anterior, todos estavam excitados com a atenção que a Millennium despertava na imprensa.

Almoçaram juntos. Mikael olhava Pernilla com o rabo do olho. Não via a filha desde que ela passara por Hedestad. Deu-se conta de que não havia conversado com Monika sobre a atração de Pernilla por aquela seita tradicionalista em Skelleftea. Tampouco podia contar que foram os conhecimentos bíblicos dela que o puseram finalmente na pista certa sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. Não havia falado com a filha desde então e sentia uma ponta de remorso.

Ele não era um bom pai.

Depois do almoço, despediu-se da filha com um beijo e foi se encontrar com Lisbeth Salander no Slussen, para irem juntos a Sandhamn. Pouco haviam se visto desde que a Millennium soltara a bomba. Chegaram lá tarde da noite e ficaram até depois do Natal.

Como sempre, Mikael era uma companhia divertida, mas Lisbeth Salander teve a desagradável sensação de que ele a olhou de um modo particularmente estranho quando ela devolveu, com um cheque de cento e vinte mil coroas, o dinheiro que ele lhe emprestara. Mikael se absteve, porém, de qualquer comentário.

Fizeram um passeio até Trovill (o que Lisbeth considerou uma perda de tempo) e na volta compartilharam a ceia de Natal no albergue. Depois recolheram-se à cabana de Mikael, acenderam o aquecedor a lenha, puseram um disco de Elvis e se entregaram a brincadeiras sexuais tranquilas. De tempo em tempo, quando Lisbeth voltava à tona, ela tentava compreender o que estava sentindo.

Ela não tinha nenhum problema com Mikael como amante. Eles se divertiam na cama, era um entendimento físico muito espontâneo. E ele nunca tentava se impor.

O problema é que ela não entendia o que sentia por ele. Desde a puberdade, nunca baixara a guarda desse modo, deixando outra pessoa se aproximar tanto. Mikael Blomkvist tinha uma capacidade impressionante de transpor seus mecanismos de defesa e de levá-la, mais de uma vez, a falar de assuntos e sentimentos pessoais. Mesmo tendo o bom senso de ignorar a maior parte das perguntas dele, ela falava de si mesma como não podia imaginar que o faria com alguém, nem se ameaçada de morte. Isso a inquietava e a fazia se sentir nua e entregue à vontade dele.

Ao mesmo tempo — quando o olhava adormecido e escutava os seus roncos —, sentia que nunca confiara tão incondicionalmente em alguém. Sabia com uma certeza absoluta que Mikael Blomkvist jamais se aproveitaria do que sabia dela para feri-la. Não fazia parte da natureza dele.

A única coisa de que não falavam era da relação deles. Lisbeth não ousava falar e Mikael nunca tocava no assunto.

Na manhã seguinte à noite de Natal, tudo lhe pareceu de uma clareza assustadora. Ignorava como isso havia acontecido e tampouco não sabia o que iria fazer. Estava apaixonada pela primeira vez na vida.

Pouco importava que ele tivesse quase o dobro da sua idade. Nem que ele fosse, no momento, uma das pessoas mais badaladas da Suécia, que tinha inclusive sido capa da Newsweek — tudo não passava de blablablá. Mikael Blomkvist, porém, não era nem uma fantasia erótica nem um sonho acordado. Aquilo teria um fim e não poderia dar certo. Que necessidade ele tinha dela? A rigor, ela era apenas um passatempo enquanto ele aguardava a chegada de alguém cuja vida não fosse um maldito ninho de ratos.

De repente ela percebeu que o amor era o instante em que o coração fica a ponto de explodir.

Quando Mikael acordou, quase no final da manhã, ela já havia preparado o café e posto a mesa para o desjejum. Ele a acompanhou à mesa e logo percebeu que alguma coisa mudara na atitude dela — ela estava um pouco mais reservada. Quando ele perguntou o que havia, ela o olhou com uma expressão indefinida, como quem não está entendendo.

Depois do Natal, Mikael Blomkvist tomou o trem para Hedestad. Estava bem agasalhado e com verdadeiros calçados de inverno quando Dirch Frode foi buscá-lo na estação e o felicitou em voz baixa por seu sucesso jornalístico. Desde agosto não vinha a Hedestad e fazia quase uni ano que aparecera ali pela primeira vez. Os dois trocaram um aperto de mão, trataram-se cortesmente, mas havia entre eles muitas coisas não ditas, e Mikael sentia-se pouco à vontade.

Tudo fora preparado e a transação na casa de Dirch Frode durou apenas alguns minutos. Frode propôs que o dinheiro fosse depositado numa conta no exterior, mas Mikael quis que o pagamento fosse feito como honorários comuns.

— Não disponho de meios para receber o pagamento de outra forma — respondeu, seco, quando Frode insistiu.

Não era uma visita de natureza meramente econômica. Mikael tinha deixado roupas, livros e alguns objetos pessoais na casa dos convidados, quando ele e Lisbeth saíram às pressas de Hedeby.

Henrik Vanger continuava frágil desde o infarto, mas deixara o hospital de Hedestad e estava de volta à sua casa. Era constantemente acompanhado por uma enfermeira particular que o proibia de fazer longas caminhadas, subir escadas c discutir qualquer coisa que pudesse lhe causar fortes emoções. Bem naqueles dias ele pegara um resfriado e tinha ordens de não sair da cama.

— Além de tudo, ela custa caro — queixou-se Henrik Vanger. Mikael Blomkvist não ficou especialmente comovido; achou que o velho tinha condições de pagar, considerando o número de coroas que sonegara na vida. Henrik Vanger olhou para ele, contrariado, mas logo começou a rir.

— Dane-se! Você valeu todo esse dinheiro. Eu sabia.

— Para falar a verdade, não achei que pudesse resolver o mistério.

— Não pretendo te agradecer — disse Henrik.

— E eu nem esperava por isso — respondeu Mikael.

— Você foi regiamente pago.

— Não me queixo.

— Fez um trabalho para mim e o salário deveria bastar como agradecimento.

— Vim apenas para dizer que considero o trabalho encerrado. Henrik Vanger fez um trejeito de fingida contrariedade.

— Você ainda não terminou o trabalho — disse.

— Eu sei.

— Não escreveu a crônica da família Vanger, como está no nosso acordo.

— Eu sei. E não vou escrever.

Refletiram em silêncio sobre essa quebra de contrato. Depois Mikael continuou:

— Não posso escrever essa história. Não posso falar da família Vanger e deixar deliberadamente de lado os acontecimentos essenciais das últimas décadas: Harriet, seu pai, seu irmão e os assassinatos. Como poderia escrever um capítulo sobre o empresário Martin Vanger e fazer de conta que não sei o que havia no porão da casa dele? E tampouco posso escrever a história sem destruir mais uma vez a vida de Harriet.

— Entendo seu dilema e agradeço a escolha que fez.

— Portanto vou jogar essa história no lixo. Henrik Vanger assentiu com a cabeça.

— Parabéns — disse Mikael. —Você conseguiu me corromper. Vou destruir todas as minhas anotações e os registros das nossas conversas.

— Não acho que tenha sido corrompido — disse Henrik.

— E como estou me sentindo. E acho que é isso mesmo.

— Precisou escolher entre seu trabalho como jornalista e seu trabalho como ser humano. Eu não teria conseguido comprar seu silêncio. Tenho certeza de que teria escolhido seu papel de jornalista e nos exposto à degradação pública, se Harriet estivesse de algum modo implicada no caso ou se você me considerasse uma pessoa baixa.

Mikael não disse nada. Henrik olhava para ele.