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Título original

Flickan som lekte med elden

Traduzido da edição francesa (La filie qui rêvait d’un bidon d’essence et d’une allumette)

Capa Retina_78

Preparação

Maria Cecília Caropreso

Revisão Marise Leal Carmen S. da Costa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Larsson, Stieg, 1954-2004

A menina que brincava com fogo / Stieg Larsson; tradução Dorothée de Bruchard. — São Paulo : Companhia das Letras, 2009. — (Millennium; 2)

Título original : Flickan som lekte med elden, ISBN 978-85-359-1422-1

1. Ficção policiai e de mistério (Literatura sueca) 2. Romance sueco II. Titulo.

09-01234 CDD-839.737

Índice para catálogo sistemático:

1. Romance : Literatura sueca   839.737

[2009]

Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 - São Paulo - SP

Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501

www.companhiadasletras.com.br

PRÓLOGO

Estava amarrada numa cama estreita de estrutura de aço. Correias de couro a prendiam e um arreio tolhia sua caixa torácica. Estava deitada de costas. Tinha as mãos atadas com tiras de couro de um lado e outro da cama.

Já havia muito abandonara qualquer tentativa de se soltar. Estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. Quando os abria, achava-se no escuro, e a única fonte de claridade visível era um fino clarão acima da porta. Tinha um gosto ruim na boca e sentia uma necessidade imperiosa de escovar os dentes.

Parte de sua consciência espreitava o barulho de passos avisando que ele estava vindo. Sabia que já anoitecera, mas não tinha a menor idéia de que horas eram, só sentia que estava ficando muito tarde para uma de suas visitas. Sentiu uma súbita vibração na cama e abriu os olhos. Parecia que algum tipo de máquina começara a funcionar em algum lugar do prédio. Segundos depois, já não saberia dizer se estava imaginando ou se o barulho era real.

Assinalou mentalmente mais um dia.

Era o seu quadragésimo terceiro dia de cativeiro.

Sentiu coceira no nariz e virou a cabeça para esfregá-lo no travesseiro. Estava suando. O ar da sala era quente e abafado. Vestia uma camisola simples de tecido liso, embolada debaixo de seu corpo. Deslocando o quadril o pouco que dava, conseguiu segurar o tecido entre o indicador e o dedo médio e puxar a camisola para o lado, centímetro por centímetro. Tentou com a outra mão. Mas a camisola continuava formando pregas sob suas costas. O colchão era cheio de calombos e desconfortável. O absoluto isolamento a que estava submetida aumentava tremendamente as mínimas sensações, que numa situação normal ela teria ignorado. O arreio, embora apertado, estava folgado o suficiente para que ela pudesse mudar de posição e se deitar de lado, mas então era obrigada a ficar com uma mão nas costas, e o braço logo entorpecia.

Se havia um sentimento dominando sua mente, era talvez o da raiva acumulada.

Por outro lado, era torturada por seus próprios pensamentos, que, apesar de todas as suas tentativas em contrário, transformavam-se em desagradáveis fantasias sobre o que iria acontecer com ela. Detestava aquele estado de vulnerabilidade forçada. Por mais que tentasse se concentrar em algum tema que a ajudasse a passar o tempo e abstrair aquela situação, a angústia escorria assim mesmo e pairava em volta dela feito uma nuvem tóxica, ameaçando penetrar seus poros e envenenar sua existência. Descobrira que o melhor jeito de manter a angústia afastada era fantasiar sobre uma coisa mais forte que seus pensamentos.

Quando fechava os olhos, mentalizava o cheiro de gasolina. Ele estava sentado num carro com o vidro lateral abaixado. Ela corria para o carro, jogava a gasolina pelo vidro aberto e riscava um fósforo. Era questão de um segundo. As chamas surgiam instantaneamente. Ele se contorcia de dor e ela ouvia seus gritos de terror e aflição. Podia sentir o cheiro de carne queimada e aquele, mais cáustico, do plástico e do revestimento do banco se carbonizando.

Devia ter caído no sono, pois não o escutou chegar, mas despertou completamente quando a porta se abriu. A claridade da abertura a cegou. Então ele veio mesmo.

Era alto. Não sabia qual era a sua idade, mas era adulto. Tinha um cabelo ruivo e volumoso e usava óculos de armação preta e um cavanhaque ralo. Cheirava a loção pós-barba.

Detestava o seu cheiro.

Ele ficou em silêncio ao pé da cama e contemplou-a demoradamente. Detestava o seu silêncio.

Seu rosto não recebia a claridade e ela só o percebia como uma silhueta na contraluz. De repente, ele falou. Sua voz era grave e clara e ele acentuava cada palavra com afetação.

Detestava a sua voz.

Ele disse que queria lhe dar os parabéns, já que era o dia do seu aniversário. A voz não era nem desagradável nem irônica. Era neutra. Ela percebeu que ele sorria.

Ela o detestava.

Ele se aproximou e contornou a cama até ficar junto de sua cabeça, pôs as costas da mão úmida em sua testa e deslizou os dedos pela raiz dos cabelos, num gesto que decerto pretendia ser amigável. Era o seu presente de aniversário.

Ela detestava que ele a tocasse.

Estava falando com ela. Ela viu sua boca se mexer mas não deixou entrar o som da voz dele. Não queria ouvir. Não queria responder. Ouviu quando ele ergueu a voz. Uma ponta de irritação, causada por sua recusa em responder, se introduzira nas palavras. Ele falava em confiança mútua. Ao fim de vários minutos, calou-se. Ela ignorou seu olhar. Então ele deu de ombros, contornou a cama pela cabeceira e ajustou as correias de couro. Apertou o arreio e inclinou-se sobre ela.

Ela se virou de repente para o lado esquerdo, afastando-se dele o quanto pôde e tanto quanto as correias permitiam. Dobrou uma perna e desfechou-lhe um violento pontapé. Mirou no pomo-de-adão e atingiu-o com a ponta do dedão em algum lugar debaixo do queixo, mas ele esperava por isso e se esquivou. O golpe foi bem leve, apenas perceptível. Ela fez uma nova tentativa, só que ele já estava fora de alcance.

Ela deixou cair as pernas sobre a cama.

O lençol tinha escorregado e se amontoara no chão. Ela sentiu que a camisola subira bem acima dos quadris. Não gostava disso. Não podia cobrir sua nudez.

Ele ficou um bom tempo parado sem dizer nada. Depois, contornou a cama e colocou a tira dos pés. Ela tentou encolher as pernas, mas ele agarrou seu tornozelo e com a outra mão empurrou com força o joelho, prendendo seu pé com a correia de couro. Foi para o outro lado da cama e amarrou o outro pé.

Ela agora estava totalmente à sua mercê.

Ele juntou o lençol e a cobriu. Contemplou-a em silêncio por uns dois minutos. No escuro, ela podia sentir sua excitação, embora ele a dissimulasse ou, pelo menos, tentasse. Sabia que ele estava tendo uma ereção. Sabia que ele queria estender a mão e tocá-la.

Depois ele deu meia-volta, saiu e fechou a porta atrás de si. Ela escutou quando ele deu a volta na chave, gesto um tanto exagerado já que ela não tinha a menor possibilidade de se soltar da cama.

Permaneceu imóvel vários minutos e olhou para o fino raio de luz acima da porta. Então se mexeu e tentou sentir se as correias estavam mesmo apertadas. Podia erguer um pouco os joelhos, mas o arreio se esticou em seguida. Relaxou. Permaneceu deitada, completamente imóvel, olhos fixos no nada.

Ela esperava.

Sonhava com um galão de gasolina e um fósforo. Ela o via, encharcado de gasolina. Podia sentir fisicamente a caixa de fósforos na sua mão. Chacoalhava a caixa de fósforos, que fazia um barulhinho. Ela a abria e escolhia um fósforo. Ouvia-o dizer alguma coisa, mas tapava os ouvidos e não escutava as palavras. Via a expressão no rosto dele enquanto riscava o fósforo. Escutava o roçar do enxofre no riscador. Parecia um trovão demorado. Via a ponta do fósforo se inflamar.