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Na primeira semana, ela naturalmente continuou acompanhando o caso - já que era, a bem dizer, a única repórter que tinha se aprofundado no assunto - mas, às vésperas do Natal, Mikael se deu conta de que todos os comentários e novos pontos de vista tinham sido transferidos para seus colegas homens. Por volta do ano-novo, Mikael descobriu por vias indiretas que haviam simplesmente afastado a moça sob o argumento de que o maior acontecimento midiático do ano tinha de ser tratado por jornalistas de economia sérios, e não por uma menina originária da Ilha de Gotland, ou sabe-se lá de onde. Isso irritou Mikael, e quando, mais tarde, a TV4 lhe pediu uma declaração, ele retrucou de cara que só falaria com a Moça, o que resultou em alguns dias de silêncio carrancudo antes de os sujeitos capitularem e ela reassumir seu lugar.

O interesse decrescente de Mikael pelo caso Wennerström coincidia também com o desaparecimento de Lisbeth Salander. Ele continuava sem entender o que havia acontecido.

Haviam se despedido um dia depois do Natal, e nos dias seguintes não tinham se visto. Na véspera do réveillon, Mikael ligou para ela bem tarde da noite. Ela não atendera. No dia do réveillon, passara duas vezes na casa dela e tocara a campainha. Na primeira, viu luz no apartamento, mas ela não abrira a porta. Na segunda, estava tudo escuro. No dia do ano-novo, tentara ligar mais uma vez, porém a única resposta que obteve foi a mensagem gravada dizendo que o número estava indisponível no momento.

Nos dias que se seguiram, encontrou-a duas vezes. Preocupado, ainda sem conseguir falar com Lisbeth, foi até seu apartamento no início de janeiro e sentou-se num degrau da escada em frente à porta. Tinha levado um livro e esperou persistentemente por quatro horas até ela chegar, pouco antes das onze da noite. Carregava uma caixa de papelão e parou de repente quando o avistou.

—Oi, Lisbeth - disse ele, fechando o livro.

Lisbeth contemplou-o sem a menor expressão no olhar, sem calor nem amizade. Depois passou por ele e enfiou a chave na fechadura.

—Me oferece um café? -perguntou Mikael. Ela virou-se para ele e falou em voz baixa.

—Vá embora. Não quero mais te ver.

Então fechou a porta na cara de um perplexo Mikael Blomkvist, que ficou escutando ela girar a chave na fechadura.

Três dias depois, encontrou-a uma segunda vez. Ele pegara o metrô de Slussen na Centralen, e quando o trem parou na Gamla Stan, ao olhar pela janela, avistou-a na plataforma, a menos de dois metros de distância. Avistou-a no exato momento em que as portas se fechavam. Por cinco segundos, ela olhou bem dentro de seus olhos, mas como se ele fosse transparente, antes de dar meia-volta e se afastar de seu campo de visão enquanto o trem se punha em marcha.

A mensagem era clara. Lisbeth Salander não queria nada com Mikael Blomkvist. Riscara-o de sua vida com a mesma eficiência com que apagava um arquivo do seu computador, sem explicação ou negociação. Mudara o número do celular e não respondia aos e-mails.

Mikael suspirou, desligou a tevê, aproximou-se da janela e contemplou o prédio da prefeitura.

Perguntou-se se não estaria errado, insistindo em passar assim regularmente em frente ao apartamento de Lisbeth. Até então, a atitude de Mikael, se uma mulher sinalizasse de forma tão clara que não queria mais ouvir falar nele, era ir embora. Para ele, não respeitar uma mensagem dessas equivalia a não respeitar a mulher em questão.

Na época do caso, tinham estado juntos na cama. Acontecera por iniciativa de Lisbeth, e a relação havia durado seis meses. Se era decisão dela terminar aquela história do mesmo modo surpreendente como começara, a Mikael só restava aceitar. Cabia a ela romper. Mikael não via dificuldades no papel de ex-namorado - se era assim que ele agora tinha de se considerar -, mas estava perplexo com a forma como Lisbeth Salander o deixara.

O único problema é que Mikael gostava imensamente de Lisbeth Salander. Não estava nem um pouco apaixonado por ela - combinavam tão pouco quanto duas pessoas podem combinar -, mas gostava dela e sentia mesmo falta daquela mulherzinha danada de complicada. Imaginara que a amizade deles fosse recíproca. Em suma, sentia-se um idiota.

Depois de passar um longo tempo diante da janela, sua decisão estava tomada.

Se Lisbeth Salander o detestava a ponto de não conseguir sequer cumprimentá-lo quando se encontravam no metrô, a amizade entre eles provavelmente acabara e o dano era irreversível. A partir de agora, não passaria mais pelo seu apartamento nem faria o menor gesto para retomar o contato com ela.

Lisbeth Salander consultou seu relógio e constatou que, mesmo ficando comportadamente à sombra, estava encharcada de suor. Eram dez e meia. Memorizou uma fórmula matemática de três linhas e fechou o Dimensíons in Mathematics, depois pegou a chave do quarto e seu maço de cigarros em cima da mesa.

Seu quarto era no primeiro andar, o último andar do hotel. Tirou a roupa e entrou no chuveiro.

Um lagarto verde de uns vinte centímetros a espreitava da parede, logo abaixo do teto. Lisbeth, por sua vez, olhou-o de soslaio, mas não fez nenhum gesto para expulsá-lo. Concluíra que o lagarto era hóspede ali havia muito mais tempo que ela e provavelmente ainda seria muito tempo depois de ela ter ido embora de Granada. Havia lagartos por toda a ilha, eles se esgueiravam no quarto pelas persianas das janelas abertas, por baixo da porta ou pela ventilação do banheiro. Gostava da companhia deles, de modo geral não a perturbavam e pareciam mais inteligentes que certos humanos que ela conhecia. A água estava fria, mas não gelada, e ela ficou debaixo do chuveiro uns cinco minutos para se refrescar.

Ao voltar para o quarto, deteve-se nua diante do espelho do armário e examinou seu corpo, maravilhada. Ainda pesava quarenta e dois quilos e media quase um metro e cinquenta. Não havia muito que fazer. Tinha membros finos como os de uma boneca, mãos pequenas e quadris acanhados.

Mas tinha seios.

A vida inteira ela fora ridiculamente reta, como se ainda não tivesse entrado na puberdade. Seus mamilos eram pequenos, mas muito normais. O problema é que estavam situados sobre o que poderia ser descrito, quando muito, como esboços de saliência. Tinham um aspecto absolutamente ridículo e ela sempre achara desagradável se mostrar nua.

E então, de repente, lá estava ela com seios. Não se tratava de melões (o que ela não desejava, e teria ficado ainda mais ridículo no seu corpo miúdo), mas de dois seios redondos e firmes do tamanho de, pelo menos, uma tangerina. A mudança acontecera gradualmente e as proporções eram plausíveis. Uma diferença radical, tanto para o seu aspecto físico como para o seu bem-estar pessoal.

Lisbeth passara cinco semanas numa clínica próxima a Gênova, na Itália, para fazer os implantes que constituíam a base dos seus seios novinhos. Escolhera a clínica e os médicos de melhor reputação na Europa, que normalmente praticavam intervenções por razões clínicas mais do que estéticas. Sua médica, uma mulher de fibra encantadora chamada Alessandra Perrini, concluíra que seus seios eram subdesenvolvidos e que havia justificativas médicas para aceitá-la como paciente.

A cirurgia não tinha sido indolor, mas os seios pareciam naturais, ao olhar e ao toque. Os mamilos estavam tão sensíveis como antes da intervenção, e as cicatrizes, quase invisíveis. Em momento algum se arrependera de sua decisão. Estava satisfeita. Seis meses depois, ainda não conseguia passar nua na frente de um espelho sem se sobressaltar e começar a apalpar os seios. Sentia-os como um aporte à sua qualidade de vida.

Aproveitando sua estada na clínica de Gênova, mandara remover uma de suas nove tatuagens - um marimbondo de dois centímetros no lado direito do pescoço. Gostava de suas tatuagens, principalmente do enorme dragão que se estendia da escápula até a nádega, mas ainda assim decidira livrar-se do marimbondo, ponderando que uma marca tão visível e ostensiva a tornava fácil de identificar e lembrar. Lisbeth Salander não queria ser nem identificada nem lembrada. A tatuagem fora removida a laser e, quando passava o dedo indicador pelo pescoço, podia sentir uma leve cicatriz. Uma inspeção mais aprofundada mostraria que sua pele bronzeada era um tantinho mais clara no local da tatuagem, mas uma olhada rápida nada revelava. Ao todo, sua estada em Gênova lhe custara o equivalente a cento e noventa mil coroas. Era algo que ela podia se permitir.