Ergueu os olhos quando, de súbito, o homem do quarto 32 se levantou e dirigiu-se para a saída. Consultou o relógio e reparou que o homem ficara sentado sem se mexer por duas horas e dez minutos. Franziu o cenho e, pensativa, ficou olhando enquanto ele se afastava.
Ella Carmichael pôs o copo sobre o balcão diante de Lisbeth Salander, concluindo que os drinques cor-de-rosa com sombrinhas ridículas definitivamente não eram a praia daquela garota. Lisbeth Salander sempre pedia a mesma coisa - uma cuba-libre. Certa noite, Salander exagerara um pouco na cerveja e Ella precisou pedir a um funcionário que a levasse para o quarto. Afora esta única vez, seu consumo normal se resumia a caffè latte, algumas cubas-libres e a Carib local. Como de costume, ela se sentou sozinha na ponta direita do bar e abriu um livro cheio de estranhas fórmulas matemáticas, o que, na opinião de Ella Carmichael, era uma curiosa escolha literária para uma moça solteira da idade dela.
Constatou também que Lisbeth Salander não parecia nem um pouco interessada em paquerar. Os poucos caras que tinham feito uma tentativa foram gentil, mas firmemente repelidos, um deles sofrendo algumas perdas e danos. O tal Chris MacAllen que Lisbeth mandara às favas com aspereza era, diga-se, um vagabundo da região que merecia se dar mal. Ella Carmichael não ficara muito surpresa ao vê-lo tropeçar inexplicavelmente e cair na piscina depois de ter tentado cantar Lisbeth Salander a noite inteira. Em favor de MacAllen, era preciso dizer que ele não era rancoroso. Voltara na noite seguinte, sóbrio, e oferecera a Salander uma cerveja que ela aceitara depois de uma breve hesitação. Desde então, cumprimentavam-se educadamente quando se cruzavam no bar.
—Está tudo bem? - perguntou Ella.
Lisbeth Salander assentiu com a cabeça e pegou o copo.
—Novidades sobre o Mathilda? - ela perguntou.
—Continua vindo em nossa direção. Pode ser que a gente tenha um fim de semana movimentado.
—Quando vamos saber?
—Na verdade, só depois que ele passar. Pode vir direto sobre Granada e resolver bifurcar para o norte na última hora. Os ciclones são assim, vão e vêm. No mais das vezes, passam ao largo - felizmente, senão não haveria mais ilha. Mas não se preocupe.
—Não estou preocupada.
Súbito, ouviram uma risada meio forçada e voltaram-se para a mulher do quarto 32, aparentemente encantada com alguma coisa que o marido lhe contava.
—Quem é?
—O doutor Forbes? São uns americanos de Austin, no Texas.
Ella Carmichael pronunciou a palavra “americanos” com evidente desgosto.
—Eu sei que eles são americanos. O que estão fazendo aqui? Ele é médico?
—Não, não esse tipo de doutor. Está aqui por causa da Fundação Santa Maria.
—O que é isso?
—Eles financiam os estudos de crianças superdotadas. Um homem bacana, esse doutor. Está em negociações com o Ministério da Educação para a construção de um novo colégio em São Jorge.
—Um homem bacana, mas que bate na mulher - disse Lisbeth Salander.
Ella Carmichael não respondeu e lançou um olhar atento a Lisbeth. Depois meneou a cabeça e foi até o outro lado do bar servir umas Carib a alguns clientes locais.
Lisbeth ficou cerca de dez minutos no bar, o nariz enfiado no Dimensions. Antes mesmo de chegar à adolescência, compreendera que era dotada de memória fotográfica e era consequentemente, diferente de seus colegas de sala. Nunca revelara essa singularidade a ninguém - a não ser a Mikael Blomkvist, num momento de fraqueza. Já sabia de cor o texto do Dimensions e continuava levando o livro a toda parte principalmente porque constituía um vínculo visual com Fermat, como se o livro tivesse virado um talismã.
Mas naquela noite não conseguia focar os pensamentos nem em Fermat nem em seu teorema. Vinha-lhe o tempo todo à cabeça a imagem do Dr. Forbes imóvel, o olhar fixo num ponto da baía de Carenage.
Não sabia explicar por que aquilo a incomodava tanto.
Por fim, fechou o livro, subiu até seu quarto e ligou o Powerbook. Nem pensar em navegar na internet. O hotel não dispunha de ADSL, mas Lisbeth tinha um modem interno que podia ser ligado ao celular, o que lhe permitia mandar e receber e-mails. Redigiu uma mensagem breve endereçada a praga_xyz_666@hotmail.com:
[Sem ADSL. Preciso informações sobre um tal dr. Forbes da Fundação Santa Maria, e a mulher dele, domiciliados em Austin, Texas. 500 dólares a quem fizer a research pra mim. Wasp.]
Anexou sua chave PGP oficial, criptografou o e-mail com a chave PGP de Praga e clicou em Enviar. Então viu as horas e constatou que passava um pouco das sete e meia.
Desligou o computador, trancou a porta do quarto a chave, percorreu quatrocentos metros até a praia, atravessou a estrada de São Jorge e foi bater na porta do galpão atrás do Coconut. George Bland tinha dezesseis anos, estudava em São Jorge. Queria ser médico ou advogado, ou quem sabe astronauta, e era mais ou menos tão magrela quanto Lisbeth Salander e não muito mais alto que ela.
Lisbeth conhecera George Bland na praia, na sua primeira semana em Granada e um dia depois de chegar a Angra Grande. Dera um longo passeio na praia e estava sentada à sombra de umas palmeiras, olhando as crianças que jogavam futebol à beira d’água. Abrira o Dimensions e estava mergulhada na leitura, quando ele viera sentar-se poucos metros à sua frente, aparentemente sem reparar em sua presença. Ela o observou em silêncio. Um jovem negro de sandálias, calça preta e camisa branca.
Como ela, estava com um livro aberto, mergulhado na leitura. Como ela, estudava um livro de matemática - Basics 4. Aparentemente concentrado no assunto, começou a rabiscar as páginas de um caderno. Só ao cabo de cinco minutos, quando ela deu uma tossidinha, ele reparou na sua presença e sobressaltou-se, assustado. Desculpou-se por estar incomodando e estava para ir embora quando ela perguntou se ele achava matemática difícil.
Algebra. Em poucos segundos, ela sublinhou um erro fundamental no cálculo dele. Meia hora depois, eles tinham terminado a tarefa. Uma hora depois, tinham percorrido o capítulo seguinte e ela lhe explicara com muita pedagogia as artimanhas das operações. Ele a contemplara com veneração. Duas horas depois, ele contara que sua mãe morava no Canadá, em Toronto, que seu pai morava em Grenville, do outro lado da ilha, e que ele próprio vivia num galpão atrás do Coconut, mais adiante na praia. Era o caçula da família, com três irmãs mais velhas.
Lisbeth Salander achou a companhia dele surpreendentemente relaxante. A situação era inusitada. Ela raras vezes, para não dizer nunca, entabulava conversa com outras pessoas para um simples bate-papo. Não se tratava de timidez. Para ela, as conversas tinham uma função prática: onde é que eu posso encontrar uma farmácia ou quanto custa o quarto? A função de uma conversa também tinha a ver com trabalho. Quando trabalhava para Dragan Armanskij como investigadora na Milton Security, não tivera o menor problema em manter conversas delirantes a fim de obter informações.
Em contrapartida, detestava conversas pessoais que sempre desandavam numa averiguação em regra do que ela julgava pertencer ao âmbito do privado.
—Que idade você tem?
—Adivinha.
—Você acha a Britney Spears legal?
—Quem é essa?
—Você gosta dos desenhos de Carl Larsson?
—Nunca parei para pensar no assunto
—Você é lésbica?