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—Vá se catar!

George Bland era desajeitado e ao mesmo tempo seguro de si, e como era também educado tentou manter uma conversa inteligente sem entrar em competição com ela nem investigar sua vida privada. Como ela, parecia sozinho. Dava a impressão de simplesmente aceitar o fato de uma deusa da matemática ter surgido na praia de Angra Grande, e parecia satisfeito que ela se dignasse a fazer-lhe companhia. Depois de muitas horas na praia, quando o sol se aproximava do horizonte, levantaram-se para ir embora. Ele a acompanhou até o hotel, e no caminho mostrou o barraco que lhe fazia às vezes de quarto de estudante, perguntando se podia lhe oferecer um chá. Ela aceitou o que pareceu surpreendê-lo.

Sua habitação era das mais simples: um galpão com uma mesa em mau estado, dois caixotes, uma cama e um guarda-roupa. A iluminação consistia numa pequena luminária de mesa ligada a um fio puxado do Coconut. O fogão era um fogareiro de camping. Ele ofereceu arroz com legumes, que serviu em pratos plásticos de camping. Também a convidou a fumar uma substância ilegal da região, e ela aceitou.

Não era nada difícil para Lisbeth perceber que sua presença o perturbava e que ele não sabia como se comportar. Num impulso, decidiu deixar que ele a seduzisse, o que se revelou um processo penoso e complicado. Ele captara os sinais, mas não tinha a mais vaga idéia de que atitude devia tomar. Ficou enrolando, com uma frustração evidente, até que ela perdeu a paciência, derrubou-o na cama com determinação e tirou a regata.

Era a primeira vez que ela se mostrava nua para alguém desde a cirurgia. Quando saíra da clínica com seus seios novos, a sensação tinha a ver com pânico, e precisara de algum tempo até perceber que ninguém estava olhando para ela. A Lisbeth Salander que normalmente não estava nem aí para o que os outros pensavam a seu respeito parecia um tanto acanhada naquele dia.

Consciente de que cedo ou tarde teria de dar aquele passo, acolhera George Bland como uma estreia perfeita, mesmo sendo ele de uma timidez alarmante. Depois de conseguir tirar seu sutiã (não sem uma certa dose de incentivo), apagara a lâmpada junto da cama antes de tirar a roupa. Lisbeth tornou a acendê-la. Observara atentamente as suas reações enquanto ele a tocava sem jeito. Só muito depois conseguiu relaxar e constatar que ele considerava seus seios absolutamente naturais. Embora ele talvez não tivesse visto muitos seios de mulher.

Ela não tivera nenhuma intenção de encontrar um amante adolescente em Granada. Acontecera num impulso e, quando ela o deixou, tarde da noite, não cogitava revê-lo. Mas já no dia seguinte cruzou novamente com ele na praia e se deu conta de que aquele jovem noviço era uma companhia agradável. Nessas sete semanas que passara em Granada, George Bland se tornara se não um elemento estável, pelo menos um elemento da sua existência. Constatou que, quando passeavam juntos, deviam parecer dois adolescentes. Sweet sixteen.

Ele provavelmente devia achar que a vida se tornara mais interessante. Tinha encontrado uma mulher que lhe dava aulas de matemática e erotismo. Ele abriu a porta e dirigiu-lhe um sorriso maravilhado. —Quer companhia? - ela perguntou.

Lisbeth Salander deixou um George Bland bobo de satisfação pouco depois das duas da manhã. Ela própria experimentava uma sensação de calor no corpo e preferiu seguir pela praia, em vez de pela estrada, para voltar ao Keys Hotel. Caminhava sozinha no escuro, sabendo muito bem que George Bland a seguia uns cem metros mais atrás.

Ele sempre fazia isso. Ela nunca ficara para dormir na casa dele. George protestava com veemência à mera idéia de uma mulher andar sozinha à noite para voltar ao hotel. Ele insistia que seu dever era acompanhá-la até lá. Principalmente porque, muitas vezes, já era tarde da noite. Lisbeth Salander escutava com atenção seus argumentos antes de interromper a conversa com um simples não. Vou aonde eu quiser e quando eu quiser. End of discussion. E não, não quero ser escoltada. Na primeira vez que percebeu que ele a seguia, ficou tremendamente irritada, até compreender que aquilo fazia parte do caráter de George Bland. Agora até via um certo charme nesse instinto protetor e fingia ignorar sua presença logo atrás dela, sabendo que ele só voltaria para casa depois de vê-la entrar no hotel.

Perguntava-se o que ele faria se ela fosse atacada de repente.

Quanto a ela, pretendia usar o martelo que comprara no departamento de ferragens da MacIntyre e que carregava no bolso externo da sacola. Segundo Lisbeth Salander, eram poucas as situações de perigo que um bom e velho martelo não pudesse resolver.

Apesar de uma lua crescente muito brilhante, o céu resplandecia de estrelas. Ela ergueu os olhos e reconheceu Régulus, da constelação de Leão. Estava quase chegando ao hotel quando estacou de súbito. Acabava de avistar um vulto na praia, à beira d’água, pertinho do hotel. Era a primeira vez que via alguém na praia depois do anoitecer. Uns cem metros os separavam, mas Lisbeth reconheceu facilmente o indivíduo.

Era o distinto Dr. Forbes, do quarto 32.

Recuou rapidamente alguns passos e se escondeu entre algumas árvores. Quando se virou para conferir, percebeu que George Bland também se escondera. O homem à beira d’água andava para lá e para cá devagarinho. Fumava um cigarro. Detinha-se regularmente e se inclinava à frente como que examinando a areia. Aquela pantomima prosseguiu durante uns vinte minutos, quando de repente ele deu meia-volta, retornou à porta do hotel que dava para a praia, e entrou.

Lisbeth esperou um minuto, cenho franzido, antes de ir até o local onde o homem do quarto 32 estivera. Devagar, descreveu um semicírculo e observou o solo. Só o que viu foi areia, alguns pedregulhos e conchas. Ao fim de dois minutos, interrompeu sua inspeção, perplexa, e subiu em direção ao hotel.

Saiu para a sacada de seu quarto, debruçou-se na balaustrada e observou a sacada dos vizinhos. Tudo calmo e tranqüilo. Aparentemente, a briga daquela noite já terminara. Instantes depois foi buscar sua sacola, pegou papel e enrolou um baseado com a provisão que George Bland lhe fornecera. Sentou-se numa cadeira da sacada e contemplou a água escura do mar do Caribe, fumando e refletindo.

E de repente teve a impressão de abrigar dentro de si um sistema de alerta cujas luzes vermelhas estavam piscando.

         2 - SEXTA-FEIRA 17 DE DEZEMBRO

Nils Erik Bjurman, advogado, cinquenta e cinco anos, largou a xícara e café e contemplou a multidão que passava em frente ao café Hedon, na Praça de Stureplan. Seus olhos acompanhavam o fluxo dos transeuntes sem observar ninguém em particular.

Estava pensando em Lisbeth Salander. Pensava frequentemente em Lisbeth Salander.

Pensar nela punha seu sangue em ebulição.

Ele a odiava com a intensidade máxima do seu registro emocional. Lisbeth Salander o aniquilara. Ele jamais esqueceria aquele momento. Ela assumira as rédeas e o humilhara. Ela o maltratara de tal forma que subsistiam em seu corpo marcas indeléveis. Mais especificamente, elas ocupavam vinte centímetros quadrados de sua barriga até logo acima dos órgãos sexuais. Ela o amarrara em sua própria cama, o torturara e tatuara uma mensagem sobre cujo sentido ninguém poderia ter nenhuma dúvida e que seria muito difícil de apagar:

SOU UM PORCO SÁDICO, UM CANALHA ESTUPRADOR

Que o conteúdo da mensagem fosse absolutamente verídico, não contava. O ódio de Bjurman não era racional.

Lisbeth Salander fora declarada juridicamente irresponsável pelo tribunal de primeira instância de Estocolmo. Bjurman fora designado seu tutor, o que a deixava em situação de total dependência em relação a ele. Desde a primeira vez que encontrara Lisbeth Salander, começara a tecer fantasias com ela. Não sabia explicar o porquê, mas ela lhe suscitava esse tipo de comportamento. Ele se aproveitara de sua posição para violentá-la.