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Por quê? Havia apenas uma frase enigmática. Com base nos acontecimentos de 12/3/1991, a Comissão de Assuntos Sociais decidiu... Em seguida, outra referência ao número do dossiê da misteriosa investigação policial mantida sob sigilo. Mas desta vez havia mais um detalhe - o nome do policial que conduzira a investigação.

O Dr. Nils Bjurman leu o nome com espanto. Era um nome que ele conhecia bem. Bem até demais.

Isso alterava radicalmente a situação.

Precisou de mais dois meses para, por outro viés, ter a investigação em mãos — uma investigação policial de quarenta e sete páginas numa pasta A4, assim como atualizações em forma de notas somando pouco mais de sessenta páginas, acrescentadas ao longo de seis anos.

De início ele não entendeu o contexto.

Depois achou as fotos tiradas pelo médico-legista e conferiu o nome mais uma vez.

Meu Deus... não é possível!

Então entendeu por que o caso havia sido arquivado como segredo de Estado. O Dr. Nils Bjurman acabava de tirar a sorte grande. Bjurman não estava sozinho.

Ele tinha um aliado. O aliado mais improvável que poderia imaginar. Devagar, começou a arquitetar um plano.

Foi arrancado de suas reflexões pela sombra que se abateu sobre sua mesa no café Hedon. Ergueu os olhos e viu um homem loiro, um gigante, pensaria mais tarde. Por um décimo de segundo, Nils Erik Bjurman recuou, então se recompôs e ergueu uma sobrancelha inquisitiva.

O homem que olhava para ele media mais de dois metros e tinha uma compleição sólida. Excepcionalmente sólida, aliás. Um bodybuilder, sem dúvida nenhuma. Bjurman não detectou o menor vestígio de gordura ou flacidez muscular. A impressão geral era de uma força assustadora.

O homem era loiro, cabelos cortados rente nas têmporas, com uma franja curta sobre a testa. O rosto era oval, estranhamente efeminado, quase infantil. Usava uma jaqueta curta de couro preto, camisa azul, gravata preta e calça preta. O que o Dr. Bjurman notou em seguida foram as mãos. O homem era incontestavelmente grande, mas suas mãos eram enormes.

—Doutor Bjurman?

O homem falava com um sotaque estrangeiro carregado, mas a voz era tão estranhamente fina que Bjurman por pouco não esboçou um sorriso. Meneou a cabeça.

—A gente recebeu a sua carta.

—A gente quem? Era para eu me encontrar com...

O homem de mãos enormes ignorou a pergunta, interrompeu Bjurman e sentou-se à sua frente.

—Está se encontrando comigo. Diga o que quer de nós.

O Dr. Nils Erik Bjurman teve um segundo de hesitação. Detestava a idéia de se abrir com um estrangeiro. Mas era preciso. Lembrou-se de que não era o único que odiava Lisbeth Salander. Precisava encontrar aliados. Em voz baixa, começou a explicar o que queria.

3 - SEXTA-FEIRA 17 DE DEZEMBRO - SÁBADO 18 DE DEZEMBRO

Lisbeth Salander acordou às sete da manhã, tomou um banho e desceu para falar com Freddy McBain na recepção. Perguntou se havia um beach buggy disponível para alugar por um dia. Dez minutos depois, já tinha pago a caução, ajustado o banco e o retrovisor, verificado a ignição e conferido o combustível. Passou no bar para pedir um caffè latte e um sanduíche de queijo para o café da manhã, e uma garrafa de água mineral para levar. Durante o café da manhã, rabiscou uns números no guardanapo e refletiu sobre o (x3 + y3 = z3) de Pierre de Fermat.

Pouco depois das oito, o Dr. Forbes desceu até o bar. Estava bem barbeado e vestia um terno escuro, camisa branca e gravata azul. Pediu ovos, torradas, suco de laranja e café preto. Às oito e meia, levantou-se e foi para o táxi que o aguardava.

Lisbeth o seguiu a uma distância razoável. Forbes desceu do táxi no Seascape, bem no início do Carenage, e ficou passeando à beira d’água. Ela o ultrapassou, estacionou na metade do calçadão do porto e esperou pacientemente que ele passasse por ela antes de segui-lo a pé.

A uma da tarde, Lisbeth Salander estava encharcada de suor e com os pés em frangalhos. Caminhara quatro horas a fio, subindo e descendo as ruas de São Jorge. O ritmo tinha sido tranqüilo, mas sem pausas, e as inúmeras subidas começavam a pôr seus músculos à prova. A energia do homem a deixava pasma. Tomou os últimos goles da água mineral e estava começando a cogitar abandonar o caso quando ele subitamente se encaminhou para o Turtleback. Ela esperou dez minutos antes de também entrar no restaurante e ir sentar-se na esplanada. Ocuparam os mesmos lugares do dia anterior e, como no dia anterior, ele tomou uma Coca-Cola contemplando as águas do porto.

Forbes era uma das raríssimas pessoas em Granada que usavam terno e gravata. Ela se espantava de ver como o calor parecia deixá-lo indiferente.

Às três horas, ele interrompeu o fio dos pensamentos de Lisbeth ao pagar a conta de repente e sair do restaurante. Andou pelo Carenage e fez sinal a um micro-ônibus que ia para Angra Grande. Lisbeth estacionou em frente ao Keys Hotel cinco minutos antes de o ônibus chegar e ele descer. Foi até o quarto, preparou um banho e mergulhou na banheira. Estava com dor nos pés. Sua testa exibia vincos fundos.

Os exercícios daquele dia tinham sido reveladores. O Dr. Forbes saía todas as manhãs do hotel, bem barbeado e vestido com rigor, munido de sua pasta. Passava o dia sem fazer absolutamente nada que não fosse matar o tempo. O que quer que estivesse fazendo em Granada, o certo é que não estava se dedicando ao projeto de construção de uma nova escola, mas, por alguma razão, queria dar a entender que estava na ilha a negócios. Por que a encenação?

A única pessoa de quem ele até poderia ter razões para esconder uma coisa desse gênero era sua mulher, e nesse caso precisava fazê-la acreditar que estava tremendamente ocupado durante o dia. Mas por quê? Os negócios tinham desandado e ele era orgulhoso demais para admiti-lo? Sua visita a Granada tinha um objetivo bem diverso? Estaria esperando alguém ou alguma coisa?

Ao olhar seu correio eletrônico, Lisbeth Salander encontrou quatro mensagens. A primeira era de Praga, que respondera uma hora depois de receber o e-mail de Lisbeth. A mensagem estava criptografada e continha uma pergunta lacônica: “Você ainda está viva?”. Nunca fora o estilo de Praga escrever e-mails longos, carregados de emoção. Aliás, também não era o estilo de Lisbeth.

Os dois e-mails seguintes tinham sido enviados por volta das duas horas. Um deles continha informações criptografadas mandadas por Praga, dizendo que um conhecido da rede, que assinava Bilbo e morava justamente no Texas, respondera ao seu pedido. Praga informava o endereço de Bilbo e sua chave PGP. Minutos depois, o tal Bilbo lhe enviara um e-mail, de um endereço hotmail. A mensagem era breve e avisava que Bilbo acreditava estar em condições de fornecer informações sobre o Dr. Forbes dentro de vinte e quatro horas.

O quarto e-mail, também assinado Bilbo, fora enviado no final da tarde. Continha o número criptografado de uma conta bancária e um endereço ftp. Lisbeth digitou o endereço e deparou com um arquivo ZIP de 390 kb, que ela baixou para o seu computador. O dossiê continha quatro fotos em baixa resolução e cinco documentos Word.

As quatro fotos estavam em formato jpg. Duas eram retratos do Dr. Forbes, outra tinha sido tirada na estreia de uma peça de teatro e mostrava Forbes na companhia da mulher. A quarta foto mostrava Forbes no púlpito de uma igreja.

O primeiro documento tinha onze páginas de texto — era o relatório de Bilbo. O segundo, oitenta e quatro páginas de textos baixados da internet. Os dois documentos seguintes eram cópias escaneadas de recortes do jornal local Austin-American Statesman, e o último documento um panorama da congregação do Dr. Forbes, a Presbyterian Church of Austin South.