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Tirando o fato de que sabia o Levítico de cor — no ano anterior, fora levada a se interessar por castigos bíblicos — os conhecimentos de Lisbeth Salander em história das religiões eram modestos. Tinha uma vaga noção da diferença entre as religiões judia, presbiteriana e católica, e sabia que a igreja judia se chamava sinagoga. Por um breve instante, receou ter de assimilar detalhes teológicos, depois refletiu que não estava nem aí para o tipo de congregação a que Forbes pertencia.

O Dr. Richard Forbes, também conhecido como reverendo Richard Forbes segundo o recorte anexado tinha quarenta e dois anos. A tela de apresentação do site da Church of Austin South informava que a Igreja tinha sete funcionários, com o reverendo Duncan Clegg encabeçando a lista, o que dava a entender que era ele a figura teológica emblemática. Uma foto mostrava um homem robusto, com abundantes cabelos grisalhos e uma barba grisalha bem-cuidada.

Richard Forbes aparecia em terceiro lugar, como responsável pelas questões de educação. Associada a seu nome, estava a Holy Water Foundation, entre parênteses.

Lisbeth leu a introdução da mensagem da Igreja.

Através da oração e das ações de graça, queremos servir o povo de Austin South oferecendo-lhe a estabilidade, a teologia e a ideologia repleta de esperança defendida pela Igreja Presbiteriana da América. Enquanto servos de Cristo, oferecemos refúgio às pessoas desesperadas e uma promessa de redenção através da oração e da bênção batista. Alegremo-nos no amor de Deus. Nosso dever é derrubar os muros existentes entre os homens e afastar as barreiras que prejudicam a compreensão da mensagem do amor de Deus.

Logo abaixo, vinha o número da conta-corrente da Igreja e a exortação a uma demonstração concreta de amor a Deus.

A biografia fornecida por Bilbo era breve e perfeita. Lisbeth descobriu que Richard Forbes nascera em Cedar’s Bluff, em Nevada. Tinha sido agricultor, homem de negócios, guarda de escola, correspondente local de um jornal do Novo México e empresário de um grupo de rock cristão antes de aderir à Church of Austin South aos trinta e um anos de idade. Era formado em contabilidade e também estudara arqueologia. Bilbo não encontrara, no entanto, nenhum diploma de doutor.

Na congregação, Forbes conhecera Geraldine Knight, única filha do fazendeiro William F. Knight, também ele membro fundador de Austin South. Richard e Geraldine se casaram em 1997, após o que a carreira de Richard Forbes decolara no seio da congregação. Ele se tornara chefe da Fundação Santa Maria, cuja missão era “investir o dinheiro de Deus em projetos educacionais para os necessitados”.

Forbes tinha sido preso em duas ocasiões. Aos vinte e cinco anos, em 1987, fora acusado de lesões corporais graves por ocasião de um acidente de carro. Foi absolvido no processo. Até onde Lisbeth pôde avaliar pela leitura dos recortes, ele era de fato inocente. Em 1995, fora acusado de desvio de dinheiro pelo grupo de rock do qual era empresário. Também dessa vez foi absolvido.

Em Austin, tornou-se uma figura conhecida, membro da Comissão de Educação do município. Era filiado ao Partido Democrata, participava assiduamente das festas beneficentes e angariava fundos para financiar a educação de crianças pobres. A Church of Austin South concentrava boa parte de suas atividades em famílias hispanoparlantes.

Em 2001, Forbes fora acusado de irregularidades nas contas da Fundação Santa Maria. O artigo de um jornal insinuava que ele aplicara em fundos de investimento uma quantia mais alta do que estipulava o estatuto. As acusações foram refutadas pela congregação, e o pastor Clegg apoiou firmemente Forbes na polêmica que se seguiu. Não houve nenhuma ação na Justiça, e uma investigação na contabilidade nada revelou.

Lisbeth dedicou um interesse reflexivo ao relatório sobre as contas pessoais de Forbes. Ele desfrutava de uma renda anual de sessenta mil dólares, o que era considerado um salário pertinente, mas não possuía bens pessoais. Quem respondia pela estabilidade econômica da família era Geraldine Forbes. Em 2002 falecera seu pai, o fazendeiro William Knight. A filha era a única herdeira de uma fortuna de mais de quarenta milhões de dólares. O casal não tinha filhos.

Richard Forbes dependia, portanto, da boa vontade da esposa. Lisbeth franziu o cenho. Não era a situação ideal para bater na mulher.

Lisbeth se conectou e mandou uma lacônica mensagem criptografada a Bilbo, agradecendo o relatório. Também transferiu quinhentos dólares para a conta corrente que ele indicara.

Foi até a sacada e debruçou-se na balaustrada. O sol estava se pondo. Súbito, notou que um vento crescente sacudia as folhas das palmeiras junto ao muro que dava para a praia. Granada estava no limiar da rota do Mathilda. Lisbeth seguiu o conselho de Ella Carmichael e enfiou na sacola de náilon o computador, Dimensions in Mathemathics, alguns objetos pessoais e uma muda de roupa, deixando-a depois em cima da cama. Em seguida, desceu para o bar e pediu um prato de peixe e uma garrafa de Carib.

O único fato digno de interesse que observou foi Forbes, no balcão do bar, inquirindo avidamente Ella Carmichael sobre as tribulações do Mathilda. Não parecia preocupado. Tinha mudado de roupa, usava sapatos esportivos, camisa polo clara e bermuda, uma corrente com crucifixo no pescoço, e estava superatraente.

Lisbeth Salander sentia-se exausta depois de ter passado o dia inteiro andando a esmo por toda São Jorge. Fez um rápido passeio depois do jantar, mas o vento soprava com força e a temperatura baixara sensivelmente. Resolveu ir para o quarto e se deitou às nove da noite. Escutou o barulho do vento rente à janela. Tinha pensado em ler um pouco, mas pegou no sono quase em seguida.

Acordou sobressaltada com uma enorme barulheira. Olhou o relógio: 23hl5. Fez um esforço para sair da cama, abriu a porta da sacada e, sem querer, deu um passo atrás, surpreendida pelas rajadas de vento que se atiravam em cima dela. Apoiou-se no vão da porta, deu um passo cauteloso pela sacada e olhou ao redor.

Lâmpadas suspensas em volta da piscina, balançadas pelo vento, criavam no pátio um impressionante jogo de sombras. Avistou vários clientes do hotel enfileirados diante da abertura praticada no muro, olhando para a praia. Outros mantinham-se próximos do bar. Ao norte, avistavam-se as luzes de São Jorge. O céu estava encoberto, mas não chovia. Por causa da escuridão, não conseguia enxergar o mar, embora o som das ondas estivesse muito mais forte que de costume. Não fazia frio, mas, pela primeira vez desde que chegara às Antilhas Menores, Lisbeth estremeceu de repente.

Estava ali parada quando alguém bateu com insistência à porta. Ela se enrolou num lençol e foi abrir. Freddy McBain parecia preocupado.

—Desculpe incomodar, mas a tempestade parece estar chegando.

—Mathilda.

—Mathilda - confirmou McBain. —Passou lá pelos lados de Tobago no final da tarde e estão falando em prejuízos consideráveis.

Lisbeth visualizou o mapa das Antilhas, Trinidad-Tobago situava-se a cerca de duzentos quilômetros a sudoeste de Granada. Fez uns cálculos de cabeça: um ciclone tropical podia sem problema nenhum se estender por um raio de cem quilômetros e seu olho podia se deslocar a uma velocidade de trinta a quarenta quilômetros por hora. O que queria dizer que Mathilda podia estar, naquele exato momento, prestes a bater às portas de Granada. Tudo dependia da direção que ele iria tomar.

—Não há perigo iminente - continuou McBain. —Mas não vamos correr nenhum risco. Queria que você pusesse seus objetos de valor numa sacola e fosse até a recepção. O hotel está oferecendo café e sanduíches.

Lisbeth seguiu seu conselho. Passou a cabeça debaixo da torneira para acordar direito, enfiou uma calça jeans, sapatos e uma camisa de flanela e jogou a sacola no ombro. Antes de sair do quarto, abriu a porta do banheiro e acendeu a luz. Nenhum lagarto verde à vista, ele já tinha se enfiado em algum buraco por aí. Nada bobo, o bichinho.