No bar, dirigiu-se tranqüilamente para o seu lugar habitual e observou Ella Carmichael mandando os funcionários encherem as garrafas térmicas com bebidas quentes. Um instante depois veio ter com Lisbeth.
—Olá. Você parece que acabou de acordar.
—Eu estava dormindo. O que vai acontecer agora?
—Vamos esperar. A tempestade está ao largo e recebemos de Trinidad um alerta de ciclone. Se piorar e se o Mathilda vier na nossa direção, vamos para o porão. Você podia dar uma mãozinha para a gente?
—O que quer que eu faça?
—Temos na recepção sessenta cobertores que precisam ser levados para o porão. E mais um monte de coisas para pôr ao abrigo.
Lisbeth passou a hora seguinte ajudando a carregar cobertores para o porão e a juntar vasos, mesas, espreguiçadeiras e outros objetos que estavam em volta da piscina. Satisfeita, Ella a dispensou agradecendo, então Lisbeth dirigiu-se até a abertura do muro que dava para a praia e andou uns passos no escuro. O mar rugia perigosamente e rajadas de vento a açoitaram com tamanha força que ela foi obrigada a se inclinar para conseguir ficar em pé. As palmeiras batiam a cadência ao longo do muro.
Voltou ao bar, pediu um caffè latte e sentou-se ao balcão. Era cerca de meia-noite. Um evidente clima de preocupação reinava entre hóspedes e funcionários. Nas mesas, as conversas seguiam em voz baixa entre pessoas que espiavam regularmente o céu. Ao todo, havia no Keys Hotel trinta e dois clientes e uma equipe de uns dez funcionários. De repente, Lisbeth notou Geraldine Forbes sentada a uma mesa bem ao fundo, para o lado da recepção. Seu semblante estava tenso e ela tinha um drinque na mão. Seu marido não estava por perto.
Lisbeth estava tomando seu café e começava a refletir sobre o teorema de Fermat quando Freddy McBain saiu do escritório e parou no meio do hall de entrada.
—Atenção, por favor. Acabo de receber a confirmação de que uma forte tempestade do tipo furacão atingiu a Pequena Martinica. Vou então pedir a todos que desçam até o porão.
Freddy McBain cortou qualquer tentativa de questionamento e conversa e conduziu os hóspedes para a escada de acesso ao porão, atrás da recepção. A Pequena Martinica era uma ilhota do arquipélago das Granadinas, situada a poucas milhas náuticas da ilha principal. Lisbeth olhou discretamente para Ella Carmichael e esticou o ouvido quando ela se aproximou de Freddy McBain.
—Está ficando ruim a esse ponto? - perguntou Ella.
—Não sei. O telefone parou de funcionar - respondeu McBain em voz baixa.
Lisbeth desceu para o porão e colocou sua sacola em cima de um cobertor a um canto. Refletiu alguns instantes e então subiu de volta, na contracorrente, até a recepção. Deteve Ella Carmichael e perguntou se podia ajudar em alguma coisa. Ella meneou a cabeça com ar compenetrado.
—Vamos ver o que acontece. Essa Mathilda é uma sacana.
Lisbeth reparou num grupo de cinco adultos e uma dúzia de crianças se engolfando na porta de entrada. Freddy McBain os acolheu e os encaminhou para a escada do porão.
Uma preocupação repentina tomou conta de Lisbeth.
—Imagino que a esta hora todo mundo esteja se escondendo no porão - ela disse em voz baixa.
Ella Carmichael olhou para a família em frente à escada.
—Infelizmente, o nosso é um dos raros porões de Angra Grande. Na certa, outras pessoas virão procurar abrigo aqui.
Lisbeth olhou atentamente para Ella.
—E os outros, fazem o quê?
—Os que não têm porão? — Ela riu com um riso amargo. - Se escondem dentro de casa ou se protegem do jeito que der. Entregam nas mãos de Deus.
Lisbeth deu meia-volta, atravessou correndo o hall de entrada e saiu pela porta.
George Bland.
Ouviu o chamado de Ella, mas não parou para explicar.
Ele mora numa casinha furreca que vai desabar na primeira rajada.
Assim que pôs os pés na estrada para São Jorge, o vento a apanhou e ela perdeu o equilíbrio. Apressou o passo com determinação. O vento vinha em sentido contrário e rajadas fortíssimas a faziam cambalear. Precisou de quase dez minutos para percorrer os quatrocentos metros que a separavam da casa de George Bland. Não avistou vivalma em todo o trajeto.
A chuva surgiu de repente do nada, feito uma ducha glacial lançada por uma mangueira, no exato momento em que Lisbeth bifurcava em direção ao galpão de George Bland e avistava a luz do lampião por uma fresta entre as tábuas. Num instante, ficou encharcada até os ossos e a visibilidade se reduziu a poucos metros. Tamborilou na porta. George Bland abriu e arregalou os olhos.
—O que está fazendo aqui? - ele berrou, para encobrir o vento.
—Vem. Você tem que vir para o hotel. Lá tem um porão.
George Bland parecia surpreso. Súbito, o vento bateu a porta e ele levou vários segundos até conseguir abri-la. Lisbeth agarrou-o pela camiseta e o puxou para fora. Enxugou a água que lhe escorria pelo rosto, pegou na mão dele e se pôs a correr. Ele a seguiu.
Optaram pelo caminho da praia, cem metros mais curto que a estrada, que fazia uma curva pelo interior. Na metade do trajeto, Lisbeth percebeu que fora provavelmente um erro. Na praia, não tinham nenhuma proteção. O vento e a chuva caíam sobre eles com tanta força que foram obrigados a parar. Areia e galhos de árvores voavam pelo ar. O barulho era de apavorar. Depois do que lhe pareceu ser uma eternidade, Lisbeth finalmente avistou o muro do hotel se materializando e apressou o passo. No instante em que se achavam em frente à porta, promessa de segurança, ela deu uma olhada por cirna do ombro na direção da praia. Estacou de súbito.
Em meio a uma rajada, avistou dois vultos claros a uns cinquenta metros dali, na praia. George Bland puxou-a pelo braço para que ela atravessasse o portão. Ela rechaçou sua mão e se encostou no muro, tentando enxergar melhor. Por um momento, perdeu os vultos de vista através da chuva, até que um relâmpago iluminou o céu.
Ela já sabia que se tratava de Richard e Geraldine Forbes. Eles estavam mais ou menos no lugar em que ela observara as idas e vindas de Richard Forbes na noite anterior.
Quando o raio seguinte explodiu, viu que Richard Forbes parecia estar puxando a mulher e que ela resistia.
De repente, as peças do quebra-cabeça se encaixaram. A dependência econômica. As acusações de irregularidades financeiras em Austin. A errância inquieta dele e sua imóvel matutação no Turtleback.
Ele pretende assassiná-la. Quarenta milhões estão em jogo. O furacão vai servir de camuflagem. É agora ou nunca.
Lisbeth Salander empurrou George Bland portão adentro, olhou ao redor e viu a cadeira bamba do guarda-noturno, que, com a tempestade, tinham esquecido de guardar. Pegou a cadeira, quebrou-a com toda a força de encontro ao muro e armou-se de um de seus pés. Atônito, George Bland ficou gritando às suas costas enquanto ela disparava em direção à praia.
Cada rajada por pouco não a derrubava, mas ela cerrou os dentes e avançou, passo a passo. Estava quase chegando à altura do casal quando um raio iluminou a praia. Viu Geraldine Forbes de joelhos na beira d’água e Richard Forbes inclinado sobre ela, o braço erguido para bater nela. Ele empunhava alguma coisa parecida com um cano de metal. Viu o seu braço descrever um arco na direção da cabeça da mulher, que parou de se mexer.
Richard Forbes não viu Lisbeth Salander.
Só sentiu uma dor fulgurante quando ela bateu com o pé da cadeira em sua nuca. Ele caiu de bruços.
Lisbeth Salander se inclinou e agarrou Geraldine Forbes. Enquanto a chuva as açoitava, virou o corpo. Suas mãos ficaram cobertas de sangue. Geraldine Forbes estava com um ferimento grande na cabeça. Pesava toneladas e Lisbeth lançou um olhar desesperado em volta, perguntando-se como conseguiria carregar o corpo até o muro do hotel. No segundo seguinte, George Bland se materializou a seu lado. Gritou alguma coisa que Lisbeth não chegou a ouvir por causa da tempestade.