—Na praia, perto do portão - respondeu Lisbeth. —A gente praticamente tropeçou nela.
Fergusson tomou nota.
Ela disse alguma coisa? Lisbeth negou com a cabeça.
Ela estava desmaiada?
Lisbeth meneou a cabeça com ar entendido.
Ela estava com um ferimento feio na cabeça. Lisbeth meneou mais uma vez a cabeça.
Sabe o que causou esse ferimento?
Lisbeth balançou a cabeça. Fergusson parecia meio irritado com a falta de respostas.
—Havia um monte de destroços voando pra tudo quanto era lado disse ela, cooperativa. —Por pouco não levei uma tábua na cabeça. Fergusson meneou a cabeça, sério.
—A senhorita machucou a perna?
Fergusson apontou para o curativo de Lisbeth. Ela assentiu com a cabeça.
O que houve?
Não sei. Só vi o ferimento quando cheguei ao porão.
A senhorita estava com um rapaz. Lisbeth meneou a cabeça.
Qual o nome dele?
George Bland.
Onde ele mora?
—No galpão atrás do Coconut, na estrada que vai para o aeroporto. Quer dizer, se é que ainda existe galpão.
Lisbeth se absteve de mencionar que, no momento, George Bland dormia em sua cama no andar de cima.
—A senhorita viu o marido dela, o Richard Forbes? Lisbeth balançou a cabeça. O agente Fergusson aparentemente não tinha mais nada a perguntar e fechou seu bloco de anotações.
Obrigado, senhorita Salander. Tenho que ir registrar o óbito.
Ela morreu?
—A senhora Forbes? Não, está no hospital de São Jorge. Ela sem dúvida deve agradecer à senhorita e ao seu amigo por estar viva. Mas o marido morreu. Foi encontrado no estacionamento do aeroporto duas horas atrás.
Mais de seiscentos metros ao sul!
Estava bem machucado - explicou Fergusson.
Coitado - disse Lisbeth Salander, sem dar mostras de estar muito chocada.
Depois que McBain e Fergusson foram embora, Ella Carmichael apareceu e sentou-se à mesa de Lisbeth. Trazia dois copinhos de rum. Lisbeth interrogou-a com os olhos.
—Depois de uma noite dessas, a gente precisa de um revigorante. A rodada é por minha conta. Também estou pagando o seu café da manhã.
As duas mulheres se olharam. Então, ergueram os copos e brindaram.
Mathilda ainda seria por muito tempo objeto de estudos científicos e nos institutos meteorológicos das Antilhas e dos Estados Unidos. Tornados da envergadura do Mathilda eram quase desconhecidos na região. Era até mesmo considerado impossível que se formassem no mar. Por fim, os especialistas chegaram a um consenso e declararam que uma configuração articularmente estranha de frentes meteorológicas havia criado um pseudotornado - de fato, não se tratava de um legítimo tornado, só parecia ser um. Alguns opositores aventaram teorias envolvendo o efeito estufa e um desequilíbrio ecológico.
Lisbeth Salander não prestou atenção à discussão teórica. Ela sabia o que tinha visto e resolveu tentar evitar para todo o sempre ficar no caminho de alguma irmã de Mathilda.
Várias pessoas tinham saído feridas naquela noite. Por milagre, só havia uma morte a lamentar.
Ninguém conseguia entender o que levara Richard Forbes a sair em meio ao furacão, a não ser, eventualmente, a imprudência que sempre parecia estar associada aos turistas americanos. Geraldine Forbes não tinha nenhuma explicação a oferecer. Estava com um grave traumatismo craniano e só guardava imagens fragmentadas do que acontecera naquela noite. Em compensação, estava inconsolável por se encontrar viúva.
II – DA RÚSSIA COM AMOR 10 DE JANEIRO A 23 DE MARÇO
Uma equação contém em geral uma ou várias incógnitas, muitas vezes designadas por x, y, z etc. Diz-se que os valores dessas incógnitas, que garantem a igualdade efetiva dos dois membros da equação, satisfazem a equação ou constituem sua solução.
Exemplo: 3x + 4 = 6x - 2 (x = 2)
4 - SEGUNDA-FEIRA 10 DE JANEIRO – TERÇA-FEIRA 11 DE JANEIRO
Lisbeth Salander aterrissou no aeroporto de Estocolmo às seis e meia da manhã. Viajara vinte e seis horas, nove das quais passadas no aeroporto Grantly Adams de Barbados, onde a British Airways negara-se a autorizar a decolagem do avião sem antes neutralizar uma ameaça terrorista e isolar um passageiro de aparência árabe suspeita, a fim de interrogá-lo. Em Londres, perdera a conexão do último voo para a Suécia e tivera de esperar durante horas até que encontrassem um lugar para ela no primeiro voo da manhã.
Lisbeth se sentia um saco de bananas esquecido ao sol uma tarde inteira. Só levava uma bagagem de mão, com seu Powerbook, o Dimensions e algumas roupas bem compactadas. Passou pela porta verde da alfândega sem que lhe perguntassem nada. No ponto de ônibus, foi recebida pela lama da neve e uma temperatura próxima de zero.
Hesitou um instante. A vida inteira, por causa de suas evidentes limitações materiais, sempre optara pela alternativa mais barata, e ainda era difícil para ela se habituar à idéia de que dispunha de perto de três bilhões de coroas que roubara astuciosamente, utilizando a internet e um bom velho golpe à antiga. Um minuto foi suficiente para ela deixar para lá a regra geral e acenar Para um táxi. Deu seu endereço na Lundagatan e adormeceu quase imediatamente no banco traseiro.
Quando o táxi parou na Lundagatan e o motorista a acordou, percebeu que tinha dado o endereço errado. Corrigiu-se e pediu que ele fosse até a Gõtgatsbacken. Pagou em dólares americanos, deixando uma generosa gorjeta, e soltou um palavrão ao pisar numa poça d’água na sarjeta. Vestia calça jeans, camiseta e uma jaqueta leve. Nos pés, usava sandálias e meias finas. Foi, vacilante, até o supermercado da esquina, onde comprou xampu, pasta de dentes, sabonete, coalhada, queijo, ovos, pão, pãezinhos de canela congelados, café, chá em saquinhos, pepinos em conserva, maçãs, um pacote gigante de Billys Pan Pizza e um maço de Marlboro light. Pagou com cartão Visa.
Ao voltar para a rua, ficou em dúvida quanto ao caminho a seguir. Podia escolher a Svartensgatan, onde já estava, ou a Hõkensgatan, mais para baixo na direção de Slussen. A desvantagem da Hõkensgatan é que teria de passar bem em frente à redação da Millennium, onde sempre corria o risco de cruzar com Mikael Blomkvist. Acabou decidindo que não ia ficar dando voltas só para evitar Mikael. Tomou, portanto, a direção de Slussen, embora na verdade se tratasse de um pequeno desvio, e virou à direita pela Hõkensgatan até a praça de Mosebacke. Passou pela estátua das Irmãs na frente do Sôdra Teatern e chegou à Fiskaregatan pela escadaria. Lá, parou e contemplou pensativamente um edifício. Não conseguia sentir que era de fato “a sua casa”.
Olhou ao redor. Em todos os sentidos do termo, tratava-se de um recanto isolado em pleno Södermalm. Nenhuma grande artéria de tráfego, o que lhe convinha muito bem. Dali também se identificava rapidamente quem quer que passasse pelas redondezas. Talvez fosse um lugar de passeio apreciado no verão, mas no inverno só passava gente com algum motivo para estar naquele bairro. Não havia absolutamente ninguém à vista — principalmente ninguém que ela conhecesse e que, por conseguinte também poderia reconhecê-la. Teve de colocar o saco do supermercado na lama da neve para pegar a chave. Foi de elevador até o último andar e abriu a porta em que estava escrito o nome V. Kulla.
Uma das primeiras medidas que havia tomado no ano anterior, quando de uma hora para a outra se vira de posse de uma quantia confortável, tornando-se assim economicamente independente pelo resto da vida (ou, pelo menos, pelo tempo que imaginava poder viver com quase três bilhões de coroas), fora sair para procurar outro apartamento. As transações imobiliárias eram para ela uma experiência nova. Nunca na vida tinha investido dinheiro em algo mais importante que objetos utilitários que podia pagar em dinheiro ou mediante um crédito razoável. Os dois maiores débitos da sua contabilidade tinham sido o equipamento de informática e sua Kawasaki de baixa cilindrada, adquirida por sete mil coroas, uma oportunidade inesperada. Comprara peças avulsas por mais ou menos a mesma quantia e passara ela própria vários meses desmontando e ajeitando a moto. Teria preferido um carro, mas hesitara em comprar um sem saber como iria financiá-lo.