Já um apartamento, ela percebeu, era um negócio de dimensões bem diferentes. Começara lendo anúncios de apartamentos à venda na edição on-line do Dagens Nyheter. Uma legítima ciência à parte, como ela não demorou a se dar conta.
Apto qto sl + s. jant. boa local. prox. estação. P: 2,7 U. Condom. 5510/mês.
Apto 2 dorm, vista p/ parque, Högalid. 2,9 U
Apto qto sl, 47m2, banh. reform, encanam, novo 1998. Gotlandsgatan. 1,8 V. Condom: 2200.
Ela coçara a cabeça e tentara ligar para alguns anúncios ao acaso, mas não sabia o que deveria perguntar e logo se sentiu tão ridícula que interrompeu o exercício. Depois, no primeiro domingo de janeiro, se aventurara a visitar alguns apartamentos à venda. Um deles situava-se no Vindragarvägen sobre o Reimersholme, e o outro na Heleneborgsgatan, perto de Horntull. O de Reimersholme era um três dormitórios claro e espaçoso com vista para Lângholmen e Essingen. Teve a impressão de que poderia se sentir bem ali. O apartamento da Heleneborgsgatan era um reduto sórdido com vista para o prédio da frente.
O problema é que ela não sabia como queria morar, que cara deveria ter a sua casa e o que ela deveria exigir do seu domicílio enquanto moradora. Nunca imaginara que poderia ter mais do que os quarenta e nove metros quadrados da Lundagatan, onde passara a infância e cujo usufruto lhe cabia desde a maioridade graças a seu tutor Holger Palmgren. Então se acomodara no sofá embolotado da sua sala-escritório integrada para refletir.
O apartamento da Lundagatan ficava no fundo de um pátio interno, era exíguo e pouco confortável. Da janela do quarto avistava a parede cega do prédio vizinho. A janela da cozinha dava para os fundos do edifício principal e para uma entrada de porão. Da sala, avistava-se um poste de iluminação e uns galhos de bétula.
A primeira exigência era que seu novo apartamento tivesse uma vista bonita.
Ela gostava de sacadas e sempre invejara seus vizinhos mais favorecidos dos andares superiores do prédio, que passavam os dias quentes de verão na sacada, à sombra de um toldo e com uma cerveja fresca. A segunda exigência era que sua nova moradia tivesse uma sacada.
Como deveria ser esse apartamento? Pensou no apartamento de Mikael Blomkvist — um único cômodo de sessenta e cinco metros quadrados num loft da Bellmansgatan com vista para a prefeitura e Slussen. Sentira-se bem na casa dele. Queria um apartamento agradável, fácil de mobiliar e de manter. Esse foi o terceiro ponto da sua lista de exigências.
Fazia anos que vivia apertada. Na sua cozinha de dez metros quadrados, mal dava para acomodar uma mesinha e duas cadeiras. A sala tinha vinte metros quadrados, o quarto doze. Sua quarta exigência era que a nova moradia fosse espaçosa e provida de vários armários. Queria uma verdadeira sala de trabalho e um quarto grande onde pudesse se esparramar.
Seu atual banheiro era um reduto sem janela, com lajotas de cimento cinza no piso, uma banheira de assento antiga com um revestimento de plástico que continuava encardido mesmo depois de esfregado horas a fio. Ela agora queria cerâmica e uma banheira grande. Queria ter sua própria lavadora de roupas no apartamento e não ter mais que usar a máquina comunitária dos inquilinos num porão úmido. Queria seu banheiro com um cheiro bom, e poder arejá-lo.
Então entrou na internet para procurar imobiliárias. No dia seguinte, levantou cedo e foi até a Nobel, que tinha fama de ser a melhor imobiliária de Estocolmo. Vestia sua calça jeans preta surrada, botinas e uma jaqueta de couro preta. Foi até o balcão e olhou distraidamente para uma mulher loira de uns trinta anos que estava ocupada atualizando o site da imobiliária e carregando fotos de apartamentos. Por fim, um homem rechonchudo de uns quarenta anos, cabelos ruivos e finos, veio atendê-la. Lisbeth perguntou que apartamentos eles tinham para oferecer, e por alguns instantes ele olhou para ela estupefato, antes de adotar um tom paternal e zombeteiro.
—Então senhorita, seus pais sabem que está pretendendo abandonar o ninho?
Lisbeth Salander o fitou em silêncio com seus olhos imensos até que a risadinha dele cessasse.
—Preciso de um apartamento - ela especificou.
Ele deu uma tossidinha e olhou de relance para a colega.
—Entendo. E o que a senhorita tem em mente?
—Quero um apartamento no Söder. Tem que ter uma sacada e vista para a água, pelo menos três dormitórios, e um banheiro com janela e espaço para uma máquina de lavar roupa. E precisaria ter um lugar com chave para eu guardar a minha moto.
A mulher ao computador interrompeu seu trabalho e virou-se para encarar Lisbeth, curiosa.
—Moto? - perguntou o homem de cabelos finos. Calmamente, Lisbeth assentiu com a cabeça.
—Posso perguntar... hã, qual o seu nome?
Lisbeth Salander se apresentou. Fez por sua vez a mesma pergunta e o homem se apresentou como Joakim Persson.
—Bem, quer dizer... um apartamento aqui em Estocolmo custa relativamente caro...
Lisbeth olhou para ele em paciente silêncio. Perguntou que apartamentos ele tinha para oferecer e disse que não se preocupava muito com o preço.
—A senhorita trabalha em que ramo?
Lisbeth refletiu por um instante. Formalmente, ela era sua própria chefe. Na prática, só trabalhara para Dragan Armanskij na Milton Security, mas isso fora de maneira irregular durante o ano anterior, e nos últimos três meses não assumira nenhuma missão.
—No momento, não estou fazendo nada em especial - respondeu com franqueza.
—Entendo... estudante, imagino.
—Não, não sou estudante.
Joakim Persson viera até o lado de cá do balcão e, delicadamente, pusera um braço em volta dos ombros de Lisbeth. Deu uma risadinha enquanto a conduzia com gentileza até a porta.
—Pois é, senhorita, será muito bem-vinda daqui a alguns anos, mas terá que trazer um pouco mais do que o dinheiro do seu cofrinho. Aqui a sua mesada não chega a ser suficiente, sabe. - Deu-lhe um beliscão paternal na bochecha. - Mas não hesite em nos procurar, vamos tentar achar algo simpático para a senhorita.
Lisbeth Salander ficou plantada na calçada em frente à imobiliária Nobel durante uns bons minutos. Perguntava-se o que Joakim Persson iria achar se ela jogasse um coquetel Molotov na vitrine. Então, voltou para casa e ligou o Powerbook.
Levou dez minutos para piratear a rede interna da Nobel graças aos códigos de acesso que ela observara distraidamente quando a mulher de trás do balcão se conectara para baixar as fotos. Levou mais três minutos para perceber que o computador da mulher era também o servidor da empresa - será possível ser tão burro? -- e outros três para ter acesso aos catorze computadores que compunham a rede. Em pouco mais de duas horas, esmiuçou a contabilidade de Joakim Persson e constatou que ele sonegara ao fisco perto de setecentos e cinquenta mil coroas nos últimos dois anos.
Baixou todos os arquivos indispensáveis e os reuniu num pacote coerente, que enviou por e-mail para o Tesouro Público usando o endereço anônimo de um fornecedor de acesso americano. Feito isso, expulsou Joakim Persson do pensamento.
Dedicou o restante do dia a percorrer as ofertas de apartamentos interessantes da Imobiliária Nobel. O imóvel mais caro era um pequeno castelo próximo a Mariefred, onde ela não tinha a menor vontade de se instalar. Só para perturbar, escolheu o segundo imóvel mais caro entre as ofertas da Nobel, um apartamento grandioso na Fiskaregatan, perto de Mosebacke Torg.