Fazia um frio de rachar. Ela vestia uma velha calça jeans gasta com um rasgo debaixo do bolso de trás, que deixava ver sua calcinha azul. Enfiara uma camiseta e uma blusa de gola alta cuja costura estava soltando no pescoço. Tirara da caixa sua velha jaqueta de couro surrado, com rebites nos ombros. Concluiu que teria sido melhor deixá-la num costureiro para ele arrumar o forro rasgado e quase inexistente dos bolsos. Estava com meias grossas e sapatos fortes. No geral, sentia calor.
Pegou a Sankt Paulsgatan para ir até o bairro de Zinkensdamm e ao seu antigo endereço na Lundagatan. Primeiro, conferiu se a sua Kawasaki ainda estava em seu lugar no porão. Para abrir a porta do antigo apartamento, precisou empurrar uma pilha imensa de folhetos publicitários.
Antes de sair da Suécia, um ano antes, hesitara sobre o que fazer com aquele apartamento, e a solução mais simples fora o sistema de débito automático para pagar todas as despesas fixas. Ainda restavam alguns móveis, juntados a muito custo em diversos caminhões de lixo seco, canecos rachados, dois computadores velhos e uma considerável papelada. Mas nada de valor.
Pegou na cozinha um saco de lixo preto e levou cinco minutos separando a correspondência da publicidade. A maior parte da pilha foi direto para o lixo. Tinha recebido cartas pessoais do gênero extrato bancário, declaração de rendimentos da Milton Security para o Imposto de Renda ou publicidade disfarçada. Uma vantagem da tutela é que ela nunca precisara tratar da papelada dos impostos - que brilhava pela ausência. Afora isso, durante aquele ano inteiro só recebera três cartas em seu nome.
A primeira era de uma advogada Greta Molander, que tinha sido a administradora ad hoc legal de sua mãe. A carta comunicava sucintamente que o inventário de sua mãe estava concluído e que Lisbeth Salander e sua irmã Camilla Salander eram herdeiras de 9312 coroas cada uma. Essa quantia fora depositada na conta da Srta. Salander. Ela poderia, por gentileza, confirmar o recebimento? Lisbeth guardou a carta no bolso interno da jaqueta.
A segunda carta era da Sra. Mikaelsson, diretora da casa de saúde de Appelviken, gentilmente comunicando que ainda estava lá uma caixa com os pertences de sua mãe — ela poderia ter a delicadeza de entrar em contato com Appelviken para dar instruções a respeito? A diretora concluía informando que se não tivessem notícias de Lisbeth ou de sua irmã (cujo endereço desconheciam) antes do final do ano, jogariam fora os pertences. Verificou o cabeçalho da carta, datada do mês de junho, e pegou o celular. Precisou esperar até que lhe passassem a pessoa certa, e então descobriu que a caixa ainda não havia sido jogada fora. Desculpou-se por não ter dado notícias mais cedo e prometeu aparecer no dia seguinte para apanhar as coisas.
A terceira carta pessoal era de Mikael Blomkvist. Ela pensou um pouco, mas concluiu que ler a carta ainda seria muito doído e jogou-a no lixo.
Acomodou numa caixa alguns objetos e quinquilharias que queria guardar e pegou um táxi para a Fiskaregatan. Subiu rapidamente ao apartamento para se maquiar, pôr óculos, uma peruca loira semilonga, e enfiar na bolsa um passaporte norueguês em nome de Irene Nesser. Olhou-se no espelho e constatou que, embora Irene Nesser fosse um pouco parecida com Lisbeth Salander, tratava-se de uma mulher muito diferente.
Depois de almoçar rapidamente uma baguete com queijo brie e um caffè latte no Éden da Götgatan, foi até a autolocadora de Ringvägen, onde Irene Nesser alugou uma Nissan Micra. Então dirigiu-se à Ikea de Kungens Kurva, onde passou três horas percorrendo toda a loja e anotando as referências de que precisava. Tomou decisões bastante rápidas.
Comprou dois estofados cor de areia, cinco poltronas de estrutura flexível, um par de gueridons de bétula envernizados, uma mesa de centro e algumas mesinhas de apoio. Pediu dois armários modulados, duas estantes para livros, um rack para a televisão e uma estante com portas. Completou com um armário de três portas acoplado a um módulo de canto e duas cômodas combinando.
Ficou um bom tempo escolhendo uma cama, para a qual levou também colchão e acessórios. Por precaução, comprou, além disso, uma cama para o quarto de hóspedes. Não esperava de fato ter visitas algum dia, mas já que tinha um quarto de hóspedes não custava mobiliá-lo.
O banheiro do apartamento novo já vinha inteiramente equipado com armários e uma lavadora de segunda mão. Contentou-se em comprar um cesto de roupa barato.
Em compensação, faltavam-lhe móveis de cozinha. Depois de hesitar um pouco, escolheu uma mesa de carvalho maciço com tampo de vidro temperado e quatro cadeiras de cores vivas.
Também precisava de móveis para a sua sala de trabalho e ficou boquiaberta ao ver algumas “estações de trabalho” com arranjos engenhosos para a CPU e o teclado. Porém, balançou a cabeça e pediu uma escrivaninha absolutamente comum de aglomerado, revestida com laminado de faia, curvo e com ângulos arredondados, e um armário do mesmo modelo. Demorou-se escolhendo a cadeira - na qual provavelmente iria passar longas horas - e optou por uma das poltronas giratórias mais caras.
Para terminar, deu uma volta e comprou um estoque considerável de lençóis, fronhas, toalhas, edredons, cobertores, um kit de instalação que incluía talheres de todo tipo, louça e panelas, tábuas de corte, e acrescentou três tapetes grandes, várias luminárias de trabalho e uma boa quantidade de material de escritório sob a forma de arquivos, cesto de papel, caixas organizadoras, entre outros.
Terminada a volta na loja, passou no caixa com sua lista. Pagou com o cartão da Wasp Enterprises e mostrou o passaporte de Irene Nesser para comprovar sua identidade. Também pagou adiantado a entrega e a montagem. O total chegava a pouco mais de noventa mil coroas.
Retornou ao Söder por volta das dezessete horas e ainda teve tempo de dar um pulo rápido na Axelssons Radio-Televisão, onde comprou um televisor de dezoito polegadas e um radiocassete. Entrou numa loja da Hornsgatan pouco antes do fechamento e comprou um aspirador. Na Mariahallen, adquiriu um escovão, sabão, um balde, sabão em pó, escova de dente e um pacote grande de papel higiênico.
Saiu exausta de sua louca jornada de compras. Colocou as últimas aquisições na Nissan Micra alugada, foi até a Hornsgatan e desabou no primeiro andar do café Java. Pegou um jornal da tarde na mesa ao lado e descobriu que o partido socialdemocrata continuava com maioria no governo e que nada de capital importância parecia ter acontecido no país durante sua ausência.
Voltou ao apartamento às oito da noite. Aproveitou que estava escuro, descarregou o carro e levou tudo para o apartamento de V. Kulla. Deixou as compras jogadas no hall de entrada e passou meia hora procurando um lugar numa rua lateral para estacionar o carro alugado. Ao retornar, preparou um banho e ficou uma hora naquele spa em que pelo menos três pessoas poderiam entrar sem se espremer. Por um momento, pensou em Mikael Blomkvist. Até ver a carta, pela manhã, havia meses que não pensava nele. Perguntou-se se ele estaria em casa e se Erika Berger estaria lhe fazendo companhia.
Depois de algum tempo, respirou profundamente, inclinou a cabeça e mergulhou o rosto na água. Colocou as mãos nos seios, beliscou os mamilos com força e prendeu a respiração por vários minutos, até que seus pulmões começassem a doer terrivelmente.
Erika Berger, diretora da Millennium, olhou ostensivamente para o relógio quando Mikael Blomkvist chegou quase quinze minutos atrasado à sacrossanta reunião de planejamento de toda segunda terça-feira do mês, onde se definiam as linhas gerais da programação editorial e se tomavam as decisões de longo prazo.
Mikael desculpou-se pelo atraso e resmungou uma explicação que ninguém ouviu, ou que pelo menos ninguém registrou. Além de Erika, estavam presentes à reunião a assistente de redação Malu Eriksson, o sócio e diretor de arte Christer Malm, a jornalista Monika Nilsson e os freelancers Lottie Karim e Henry Cortez, que trabalhavam na revista em tempo parcial. Todos tinham a obrigação de participar da reunião de terça-feira, cujo item principal da pauta era o planejamento da edição seguinte. Mikael Blomkvist reparou imediatamente na ausência da jovem estagiária sedutora e na presença de um rosto desconhecido, embora fosse raro alguém de fora ser autorizado a participar das reuniões de planejamento da Millennium.