—Quero apresentar a vocês o Dag Svensson - disse Erika Berger. -Vamos comprar um texto dele.
Mikael Blomkvist meneou a cabeça e apertou-lhe a mão. Loiro de olhos azuis, Dag Svensson tinha cabelos bem curtos e uma barba de três dias. Estava em torno dos trinta anos e exalava força e saúde.
—Como todo ano, vamos lançar um ou dois números temáticos - prosseguiu Erika. —Eu queria este assunto para o número de maio. A gráfica já está reservada para 27 de abril. Isso nos dá três meses para produzir os textos.
—E qual é o tema? - perguntou Mikael.
Dag Svensson veio me ver, semana passada, com o esboço de um assunto. Pedi a ele que viesse à reunião. Ele vai poder explicar melhor que eu - disse Erika, voltando-se para Dag.
—Tráfico de mulheres - disse Dag Svensson. —Ou seja, exploração sexual de mulheres. No caso, são principalmente mulheres originárias dos países bálticos e do Leste europeu. Na verdade, estou escrevendo um livro sobre o assunto, por isso entrei em contato com a Erika - já que vocês também têm uma editora.
Todo mundo pareceu achar graça. Até agora, a Millennium Editora só tinha publicado um livro, que vinha a ser o tijolão de Mikael Blomkvist sobre o império financeiro do bilionário Wennerström, lançado um ano antes. O livro estava na sexta edição na Suécia, fora publicado em norueguês, alemão e inglês e estava sendo traduzido para o francês. Aquele sucesso comercial lhes parecia um tanto incompreensível, considerando-se que a história já estava para lá de conhecida e tinha sido contada em inúmeros jornais.
—A nossa produção de livros não é das mais consistentes - disse Mikael, cauteloso.
Dag Svensson esboçou um sorriso.
—Isso eu já entendi. Ainda assim, vocês são uma editora.
—Existem outras maiores - observou Mikael.
—Sem dúvida - disse Erika Berger. —Mas faz um ano que estamos discutindo se partimos de fato para a edição de livros. Levantamos o assunto em duas reuniões do conselho administrativo, e todos se mostraram muito receptivos. A idéia é uma política editorial limitada a três, quatro livros por ano, que seriam apenas, grosso modo, reportagens sobre diferentes temas. Ou seja, típicos produtos jornalísticos. O livro de Dag se inscreve perfeitamente dentro dessa óptica.
—Tráfico de mulheres - disse Mikael Blomkvist. - Fale mais a respeito.
—Estou há quatro anos trabalhando no assunto. De certa forma, fui levado a ele pela minha companheira. Ela se chama Mia Bergman, é criminologista e a pesquisa dela se encaixa nesta área. Ela trabalhou no Conselho de Prevenção Criminal e pesquisou a legislação relacionada ao comércio sexual.
—Conheço a Mia Bergman - interveio Malu Eriksson. —Fiz uma entrevista com ela, dois anos atrás, quando ela publicou um relatório comparativo sobre o tratamento dado a homens e mulheres num tribunal.
Dag Svensson meneou a cabeça e sorriu.
—É verdade, esse relatório foi muito comentado - disse. —Ela vem pesquisando sobre o tráfico de seres humanos de uns cinco, seis anos para cá. Foi assim que a gente se conheceu. Eu estava investigando o comércio do sexo via internet e me aconselharam a conversar com ela. Resumindo, começamos a trabalhar juntos, eu corno jornalista e ela como pesquisadora, no meio da história viramos um casal e já faz um ano que moramos juntos. Ela está fazendo doutorado, vai defender a tese na primavera. O tema é o tráfico de mulheres.
—Quer dizer que ela escreve a tese e você...?
—Eu escrevo a versão grande público da tese, acrescentando meu trabalho pessoal. E também uma versão resumida em forma de artigo, que foi o que passei para a Erika.
—Certo, vocês formam uma equipe. E qual é a história?
—Grosso modo... temos um governo que aprovou uma lei rigorosíssima para o comércio sexual, temos uma polícia para cuidar da aplicação dessa lei e tribunais para julgar criminosos sexuais - qualificamos os clientes como criminosos sexuais, já que virou crime pagar por serviços sexuais -, temos uma mídia que escreve textos moralizantes e indignados sobre o assunto, e tutti quanti. Mas, paralelamente, a Suécia é um dos maiores consumidores per capita de prostitutas originárias da Rússia e dos países bálticos.
—E você tem como provar?
—Não é nenhum segredo. O assunto, inclusive, está longe de ser novidade. Agora, a novidade é que nós interrogamos uma dúzia de Lilya 4-ever. São, na maioria, garotas entre quinze e vinte anos, estagnadas na miséria social dos países do Leste europeu, trazidas para cá com promessas variadas de emprego e que no fim das contas caem nas garras de uma máfia do sexo absolutamente inescrupulosa. Algumas experiências dessas garotas fazem do Lilya 4-ever um entretenimento familiar. E não digo isso desmerecendo o filme de Moodysson, que é excelente. O que eu quero dizer é que essas garotas viveram coisas que simplesmente não dá para descrever num filme.
—Certo.
—Este, por assim dizer, é o cerne da tese da Mia. Mas não do meu livro. Um silêncio instalou-se em volta da mesa.
—Enquanto Mia entrevistava as garotas, eu, por minha vez, estabeleci uma cartografia dos fornecedores e da clientela.
Mikael nunca estivera com Dag Svensson antes, mas de repente sentiu que ele era exatamente o tipo de jornalista que ele apreciava, desses que sabiam se ater ao essencial. Para Mikael, a regra de ouro do jornalismo era que sempre há um responsável. O malvado.
—E você descobriu fatos interessantes?
—Sim, tenho condições de provar que um funcionário do Ministério da Justiça, que trabalhou na elaboração da lei do comércio sexual, explorou no mínimo duas garotas que chegaram aqui através da máfia do sexo. Uma delas tinha quinze anos.
—Uau!
—Estou nessa história há três anos. O livro apresenta estudos com exemplos de clientes sexuais. Tenho pelo menos três tiras, sendo que um deles trabalha na Säpo e outro na Polícia de Costumes. Tenho cinco advogados, um procurador e um juiz. Peguei também três jornalistas, sendo que um deles escreveu vários textos sobre comércio sexual. Na vida privada, ele se entrega a delírios de estupro com uma prostituta adolescente de Tallinn... e nesse caso não se trata exatamente de preferências sexuais partilhadas. Pretendo divulgar os nomes. A minha documentação é superconsistente.
Mikael Blomkvist deu um assobio. Então, parou de sorrir.
—Como voltei a ser o editor responsável pela publicação, faço questão de examinar esses documentos com lente de aumento - disse. —A última vez que descuidei na conferência das minhas fontes, acabei pegando três meses de cadeia.
—Se vocês aceitarem publicar minha história ponho à disposição os documentos que quiser. Mas só vendo o assunto para a Millennium com uma condição.
—Dag quer que a gente também publique o livro - disse Erika erger.
—De fato, quero que o livro seja publicado. Quero que ele caia feito uma bomba, e no momento a Millennium é a revista com maior credibilidade e mais impertinente da cidade. Dificilmente outra editora ousaria publicar um livro como esse.
—Ou seja, sem livro não há artigo - resumiu Mikael.
—Por mim, acho que faz sentido - disse Malu Eriksson.
—Artigo e livro são duas coisas diferentes. No caso do artigo na revista, Mikael é o responsável pela publicação. No que diz respeito ao livro, o autor é que é responsável.