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—Eu sei - disse Dag Svensson. —Isso não me preocupa. No exato momento da publicação do livro, Mia vai denunciar todos os caras que eu cito.

—Vai ser um auê - disse Henry Cortez.

—Isso é só metade da história - disse Dag Svensson. —Também investiguei as redes que ganham dinheiro com esse comércio. Porque se trata realmente de crime organizado.

—E quem você descobriu?

—Aí é que a coisa fica especialmente trágica. A máfia do sexo não passa de um bando sórdido de pés-rapados. Não sei bem o que eu esperava quando comecei a pesquisa, mas de algum modo fomos levados a pensar - ou pelo menos eu fui levado a pensar - que essa “máfia” era um bando de gente chique da elite social, que circula em carros de luxo. Imagino que alguns filmes americanos que abordam o tema contribuíram para eu formar essa imagem. O seu trabalho sobre o Wennerstróm - Dag lançou um olhar para Mikael - mostrou que esse pode ser o caso. Mas o Wennerstróm era uma das exceções. Eu me deparei foi com um amontoado de cretinos sádicos e brutais que mal sabem ler e escrever, e são uns perfeitos idiotas no que se refere a organização e estratégia. Esses caras trabalham em associação com grupos de motoqueiros e outros círculos um pouco mais estruturados, mas, no geral, o comércio sexual é tocado por um bando de gente burra.

—Isso transparece claramente no seu artigo - disse Erika Berger. —Nós temos leis, um corpo policial e uma justiça financiados por milhões de coroas saídos do bolso do contribuinte, que supostamente deveriam cuidar dessa delinquência lucrativa, e não conseguem prender um bando de idiotas.

—O inteiro comércio sexual não passa de uma grande violação dos direitos humanos, e as garotas envolvidas estão num nível tão baixo da escala social que juridicamente não apresentam o menor interesse. Elas não votam. Tirando o vocabulário necessário para fechar um negócio, elas mal falam sueco. Dos crimes ligados ao comércio sexual, 99,9% nunca foram registrados na polícia e muito menos chegam aos tribunais. É provavelmente o maior iceberg na paisagem da criminalidade sueca. Imaginem se os assaltos a mão armada fossem tratados com o mesmo descaso, e só uma ínfima parte fosse denunciada. Minha conclusão é que essa atividade não continuaria nem mais um dia sequer não fosse o fato de que a Justiça simplesmente não quer pôr um fim a ela. Os abusos sexuais contra adolescentes de Tallinn e Riga simplesmente não são uma questão prioritária. Uma puta é uma puta. Faz parte do sistema.

—É... triste realidade - disse Monika Nilsson.

—Então, o que vocês acham? - perguntou Erika Berger.

—A idéia me atrai - disse Mikael Blomkvist. —Vamos nos arriscar, mas esse era o objetivo quando lançamos a Millennium anos atrás.

—É por isso que eu ainda trabalho aqui. O gerente é capaz de dar um salto mortal de vez em quando - disse Monika Nilsson.

Todo mundo riu, menos Mikael.

—É, o Mikael foi o único bobo o suficiente para aceitar ser o responsá­vel pela publicação - disse Erika Berger. —Vamos pegar esse assunto para maio. Com o livro saindo na esteira.

—O livro está pronto? - perguntou Mikael.

—Não. Estou com a sinopse toda, mas ainda falta redigir metade. Se vocês concordarem em publicar e me derem um adiantamento, posso trabalhar nele em tempo integral. A pesquisa está praticamente concluída. Só falta completar alguns anexos, na verdade confirmações daquilo que eu já sei - e ainda tenho que me encontrar com os clientes que vou denunciar.

—Vamos fazer o que fizemos com o livro do Wennerström. Nunca entendi por que os editores costumam exigir dezoito meses para produzir um livro de umas poucas centenas de páginas. Precisamos de uma semana para a diagramação - Christer Malm assentiu com a cabeça - e duas para a impressão. Fazemos as revisões em março e abril e um resumo de quinze páginas, que vão ser as últimas. Precisamos do manuscrito fechado em 15 de abril, para dar tempo de checar todas as fontes.

—Como funciona o contrato e essas coisas todas? Erika Berger franziu o cenho:

—Nunca redigi um contrato de edição, vou ter que ver isso com o nosso advogado. Mas proponho empregar você por quatro meses, de fevereiro a maio, até você terminar o projeto. E saiba que nossos salários não são mirabolantes.

—Para mim está bem. Preciso de um salário-base para poder me concentrar no livro em tempo integral.

—Fora isso, em regra, meio a meio sobre as vendas do livro, uma vez deduzidas as despesas. O que você acha?

—Parece perfeito - disse Dag Svensson.

—Divisão de tarefas - disse Erika Berger. —Malu, quero você de assistente editorial deste número temático. Vai ser a sua tarefa a partir do mês que vem; você vai trabalhar com Dag Svensson na redação do manuscrito. Lottie, isso quer dizer que você vai assumir temporariamente a assistência de redação, de março a maio. Vai passar a trabalhar em período integral, e Malu ou Mikael vão lhe dar uma mão dependendo da disponibilidade deles.

Malu Eriksson assentiu com a cabeça.

—Mikael, faço questão que você seja o editor desse livro. - Erika olhou para Dag Svensson. —Mikael não gosta de admitir, mas ele escreve muito bem e, além disso, tem experiência em pesquisa. Ele vai pôr cada palavra do seu livro num microscópio. Para mim, é uma honra você querer publicar esse livro com a gente, mas saiba que na Millennium temos problemas bem específicos. Temos alguns desafetos que adorariam nos ver enfiar os pés pelas mãos. Quando a gente se atreve a publicar alguma coisa, ela tem que estar cem por cento irretocável. Não podemos nos permitir nada menos que isso.

—Nem eu gostaria que fosse diferente.

—Ótimo. Mas você vai aguentar uma pessoa em cima de você, enchendo você de críticas a primavera inteira?

Dag Svensson riu e olhou para Mikael.

—Vai, pode começar.

Mikael meneou a cabeça. Erika prosseguiu:

—Se vamos fazer um número temático, precisamos de mais artigos. Mikael, quero que você escreva algo sobre as finanças do comércio sexual. Quanto ele consome anualmente? Quem acumula os lucros e onde vai parar o dinheiro? Temos como provar que parte dele se encontra nos cofres do Estado? Monika, quero que você trabalhe no abuso sexual em geral. Contate o SOS-Mulheres, pesquisadores, médicos e autoridades. Monika e Mikael, portanto, mais o Dag, assinam os textos principais. Henry, quero uma entrevista com a companheira do Dag, Mia Bergman. Dag, logicamente, não pode fazer isso. Um perficlass="underline" quem é ela, os temas que ela pesquisa e quais são suas conclusões. Também gostaria que você se detivesse em alguns casos esmiuçados em investigações policiais. Christer: fotos. Não sei como vamos poder ilustrar isso. Pense no assunto.

—Pois esse tema é dos mais fáceis de ilustrar. Tem muita força. Não tem problema.

—Se me permitem acrescentar uma coisa - disse Dag Svensson. —Alguns tiras fazem realmente um bom trabalho. Talvez valesse a pena entrevistar um deles.

—Você tem nomes? - perguntou Henry Cortez.

—Tenho até os telefones - respondeu Dag Svensson.

—Perfeito - disse Erika Berger. —O tema do número de maio será, portanto, o comércio sexual. Com ele, teria que ficar claro que o tráfico de mulheres é um legítimo atentado aos direitos humanos e que os criminosos que o organizam têm de ser presos e tratados como qualquer criminoso de guerra ou de esquadrão da morte. Bem, crianças, ao trabalho!

5 - QUARTA-FEIRA 12 DE JANEIRO – SEXTA-FEIRA - 14 DE JANEIRO

Äppelviken lhe passou a impressão de um lugar estranho e desconhecido quando Lisbeth, pela primeira vez em um ano e meio, dirigiu-se para os prédios ao volante da sua Nissan Micra alugada. Desde seus quinze anos, algumas vezes por ano, visitava regularmente a mãe, que fora acolhida nesta casa de saúde depois que Todo o Mal acontecera.

Chamava-se Agneta Sofia Salander. Seus catorze últimos anos tinham sido marcados por uma seqüência reiterada de pequenos derrames cerebrais, rupturas de vasos sangüíneos finos como fios de cabelo, que a impediram de cuidar de si mesma e de realizar as tarefas cotidianas. Em certos momentos, estivera incapaz de se comunicar, tivera dificuldade em reconhecer Lisbeth e formular seus pensamentos em palavras.