Lisbeth Salander não gostava muito de pensar na mãe. Tais pensamentos a conduziam invariavelmente a um sentimento de vulnerabilidade e noite escura. Sua atitude neste assunto era de uma profunda ambivalência. Por um lado, tentara realmente estabelecer contato com a mãe. Na adolescência, fantasiara uma possível recuperação da mãe e um tipo de relacionamento que elas poderiam ter. Intelectualmente, sabia que esse jamais seria o caso.
De baixa estatura, sua mãe tinha sido magra, mas não ao estilo anoréxico de Lisbeth, longe disso. Pelo contrário, sempre fora uma mulher bonita, bem-proporcionada. Como a irmã de Lisbeth. Camilla.
Lisbeth evitava pensar na irmã.
Considerava a diferença entre ela e a irmã uma brincadeira do destino. Eram gêmeas, nascidas com vinte minutos de intervalo. Lisbeth era a primeira. Camilla era bonita.
Eram tão diferentes que parecia improvável terem se formado no mesmo útero, e mais estranho ainda serem geneticamente consideradas gêmeas univitelinas, que deveriam ser idênticas. Não fosse um defeito no código genético de Lisbeth Salander, ela teria sido tão bonita como a irmã.
E provavelmente tão debiloide quanto.
Desde a mais tenra idade, Camilla fora extrovertida, popular e coberta de êxito na escola. Lisbeth fora calada e fechada, raramente respondia às perguntas dos professores, obtendo, desse modo, médias bastante baixas. Desde a escola primária, Camilla se distanciara de tal modo da irmã que elas até iam para a escola por caminhos diferentes. Os professores e demais alunos notavam que as duas meninas nunca se falavam nem sentavam uma ao lado da outra. A partir do ginásio, não ficaram na mesma classe. Com doze anos, e depois que Todo o Mal aconteceu, haviam crescido cada qual na sua família adotiva. Não se viam desde que fizeram dezessete anos, e naquele dia o encontro terminara com um olho roxo para Lisbeth e um lábio partido para Camilla. Lisbeth não sabia por onde Camilla andava e também não tinha procurado saber.
Não existia amor entre as irmãs Salander.
Aos olhos de Lisbeth, Camilla era hipócrita, depravada e manipuladora. No entanto, fora em Lisbeth que a decisão do tribunal recaíra, determinando que ela não tinha juízo perfeito.
Deixou o carro no estacionamento para visitantes, abotoou a jaqueta surrada e, debaixo de chuva, subiu para a entrada principal. Parou diante de um banco do jardim e olhou ao redor. Fora ali, naquele banco, que vira sua mãe pela última vez, um ano e meio antes. Passara sem avisar na casa de saúde de Appelviken, quando estava ajudando o Super-Blomkvist a pegar um assassino em série, louco sem dúvida, mas perfeitamente articulado. Sua mãe estava agitada, não a reconheceu, e mesmo assim não queria deixá-la ir embora. Tinha segurado sua mão e pousado na filha um olhar perplexo. Lisbeth estava com pressa. Soltara a mão, dera um abraço na mãe e correra até a moto para ir embora.
A diretora de Áppelviken, Agnes Mikaelsson, pareceu contente em ver Lisbeth. Cumprimentou-a com simpatia e a acompanhou ao lugar onde estava guardada a caixa. Lisbeth ergueu-a. Pesava poucos quilos e não tinha muito a exibir como patrimônio de uma vida.
—Eu não sabia o que fazer com as coisas da sua mãe - disse a Sra. Mikaelsson. —Mas tinha o sentimento de que você ia aparecer um dia.
—Eu estava viajando - disse Lisbeth.
Agradeceu-lhe por ter guardado a caixa, carregou-a até o carro e foi embora de Áppelviken pela última vez.
Lisbeth voltou à Fiskaregatan pouco depois do meio-dia e levou a caixa de sua mãe até o apartamento marcado V. Kulla. Guardou-a sem abrir no armário da entrada e tornou a sair.
Ao abrir a porta do prédio, viu um carro de polícia passando com a velocidade de uma lesma. Lisbeth deteve-se e observou atentamente a autoridade diante de seu prédio. Como os tiras não parecessem querer partir para o ataque, ela os deixou passar.
A tarde, foi à H & M e à Dressman renovar seu guarda-roupa. Adquiriu um legítimo enxoval de roupas básicas sob a forma de calças, jeans, camisetas e meias. As caras roupas de marca não a interessavam, mas mesmo assim sentiu certo prazer em poder comprar meia dúzia de jeans de uma vez sem ser obrigada a contar moedinhas.
Comprou um bom par de sapatos de inverno na Skoman e dois pares mais leves, para interiores. Depois cedeu ao impulso de levar também uma botina preta de salto alto, que a deixava alguns centímetros mais alta. Além disso, achou um casaco quente de inverno, de camurça marrom e gola de pele.
Sua aquisição mais extravagante foi na Twilfit, onde comprou uma verdadeira coleção de calcinhas e sutiãs. Eram, de novo, artigos básicos, mas, depois de meia hora de uma constrangida hesitação, levou também um conjunto que ela considerava “sexy”, ou até “safado”, e que antes nunca teria pensado em comprar. À noite, quando experimentou o conjunto, sentiu-se de um ridículo sem tamanho. O que ela via no espelho era uma garota de corpo magro e tatuado, paramentada com uma fantasia grotesca. Livrou-se dos penduricalhos e jogou tudo no lixo.
Mia Bergman, futura doutora em criminologia, partiu a cheesecake e decorou-a com sorvete de framboesa. Serviu primeiro Erika Berger e Mikael Blomkvist, e em seguida Dag Svensson e ela própria. Malu Eriksson se negara categoricamente a comer sobremesa e se contentou com um café preto servido numa xícara de porcelana florida tremendamente retrô.
—Esta louça era da minha avó - disse Mia, ao ver que Malu examinava a xícara.
—A Mia morre de medo que quebrem uma dessas xícaras - disse Dag Svensson. —Só usamos com convidados especiais.
Mia Bergman sorriu.
—Eu me criei, por vários anos, na casa da minha avó e essas xícaras são praticamente tudo que me restou dela.
—São mesmo encantadoras - disse Malu. —Eu, de louça, só tenho da cem por cento Ikea.
Mikael, que não estava nem um pouco interessado em xícaras de café floridas, lançou um olhar desconfiado para o prato de cheesecake. Considerou inclusive a hipótese de afrouxar o cinto. Erika estava pensando o mesmo.
—Ai, ai, ai, eu não deveria ter aceitado a sobremesa - disse, olhando de relance para Malu como que se desculpando, antes de pegar a colher com uma mão firme.
O jantar era supostamente uma reuniãozinha de trabalho para, por um lado, selar sua colaboração e, por outro, continuar discutindo a edição do número temático da Millennium. Dag Svensson propusera que se encontrassem em sua casa para comerem alguma coisa, e Mia Bergman aproveitara a oportunidade para servir o melhor frango agridoce que Mikael já tinha comido. A refeição foi regada com duas garrafas de vinho espanhol encorpado, e Dag aproveitou a sobremesa para perguntar se alguém aceitava uma taça de Tullamore Dew. Erika foi a única a cometer a besteira de dizer não, e Dag pegou as taças.
Dag Svensson e Mia Bergman moravam num quarto-e-sala em Enskede.
Já namoravam havia alguns anos, e um ano antes tinham resolvido se mudar para aquele apartamento.
Haviam se encontrado por volta das seis e, duas horas e meia depois, terminada a sobremesa, nenhuma palavra ainda fora dita sobre o verdadeiro objetivo do jantar. Em compensação, Mikael descobrira que gostava de Dag Svensson e Mia Bergman, e que apreciava a companhia deles.
Foi Erika quem por fim encaminhou a conversa para o assunto que supostamente deveriam discutir. Mia Bergman foi buscar uma cópia de sua tese e a colocou em cima da mesa diante de Erika. O título era, no mínimo, irônico - “Da Rússia com amor”, alusão evidente ao clássico 007 de Ian Fleming. O subtítulo já era bem menos irônico: Tráfico de mulheres, crime organizado e medidas tomadas pelas autoridades.