—Mas que romântico.
—A imagem que ele tem das mulheres data da idade da pedra. É conhecido por sua violência, volta e meia fica bêbado e arrebenta a cara de quem quer que se atreva a protestar. No bando, cada um tem seu lugar na hierarquia e os colaboradores geralmente têm medo dele.
Os móveis da Ikea foram entregues três dias depois, por volta das nove e meia da manhã. Dois grandalhões apertaram a mão da loira Irene Nesser, que falava com um divertido sotaque norueguês. Depois, fizeram o transporte num elevador subdimensionado e trataram de montar mesas, armários e camas. Os homens eram de uma eficiência assustadora e pareciam saber de cor o manual de instalação. Irene foi até a feira de Söder comprar comida grega para viagem e os convidou para almoçar.
Os homens da Ikea terminaram às cinco da tarde, juntaram todas as caixas e levaram tudo embora. Depois que eles saíram, Lisbeth Salander tirou a peruca e ficou andando pelo apartamento se perguntando se ia se sentir bem na nova casa. A mesa da cozinha parecia elegante demais para seu estilo. No cômodo contíguo, que dava tanto para o hall de entrada como para a cozinha, ela instalara a sua sala de estar, com sofás modernos e um conjunto de poltronas em volta de uma mesinha em frente à janela. Estava satisfeita com seu quarto, e sentou-se de mansinho no colchão para testar o quanto era confortável.
Deu uma olhada na sala de trabalho com vista para as águas do Saltsjön. Aprovado, funciona. Vou poder trabalhar aqui.
Não sabia exatamente no que ia trabalhar e, quanto ao resto, sentia-se hesitante e crítica ao olhar para os móveis.
Bem, vamos ver no que vai dar.
Lisbeth passou o resto da tarde abrindo pacotes e organizando suas coisas. Arrumou a cama e guardou toalhas, lençóis e fronhas no armário. Abriu as sacolas com as roupas novas e pendurou no guarda-roupa. Apesar do volume das compras, só preencheu uma ínfima parte do espaço. Instalou as luminárias e guardou panelas, louça e talheres nos armários da cozinha.
Olhou perplexa para as paredes vazias e se deu conta de que deveria ter comprado pôsteres, quadros, coisas do gênero. Pessoas normais tinham isso nas paredes e ela deveria ter também. Uma planta também não cairia mal.
Em seguida, abriu as caixas que trouxera da Lundagatan e separou livros, jornais, recortes e a documentação acumulada em suas pesquisas, que ela na certa deveria jogar fora. Despachou generosamente camisetas velhas e meias furadas. De repente, deparou com um pênis artificial ainda na embalagem. Deu um sorriso de esguelha. Tinha sido um dos presentes de aniversário birutas de Mimmi, dois anos antes, e ela se esquecera totalmente de sua existência, nunca o tinha sequer experimentado. Decidiu corrigir isso e colocou o pênis, erguido em sua base, sobre a cômoda perto da cama.
Então tornou a ficar séria. Mimmi. Sentia uma pontinha de remorso. Tinha saído meio regularmente com Mimmi durante um ano e depois a abandonara por Mikael Blomkvist sem nenhuma explicação. Nem sequer se despedira ou comunicara sua intenção de deixar a Suécia. Nem sequer avisara sobre a viagem ou trocara qualquer palavra com Dragan Armanskij ou as meninas do Evil Fingers, que deviam achar que ela tinha morrido. A não ser que tivessem se esquecido dela - Lisbeth nunca fora uma figura central no grupo. Era como se tivesse dado as costas a todo mundo. De repente se lembrou que também não se despedira de George Bland em Granada e se perguntou se ele continuava esperando por ela na praia. Refletiu sobre o que Mikael Blomkvist lhe dissera a respeito da amizade. Eu não cuido dos meus amigos. Perguntou-se se Mimmi ainda existia, ali, na cidade, em algum lugar, e se deveria lhe dar notícias.
Ficou até tarde da noite organizando documentos em sua sala de trabalho, instalando o computador e navegando na internet. Conferiu seus investimentos e constatou que estava mais rica do que um ano atrás.
Fez um controle de rotina no computador do Dr. Nils Erik Bjurman, mas não achou nada interessante nos e-mails e concluiu que ele estava se precavendo. Não encontrou nenhum sinal de que tivesse tido contato com a clínica de Marselha. Bjurman até dava a impressão de ter reduzido suas atividades pessoais e profissionais, e passar a vida vegetando. Raramente usava o correio eletrônico e, quando navegava na rede, era mais para visitar sites pornográficos.
Ela só se desconectou lá pelas duas da manhã. Foi para o quarto, despiu-se e jogou a roupa numa cadeira. Depois foi ao banheiro. O canto perto da porta tinha espelhos em ângulo do piso ao teto. Ficou um bom tempo se olhando. Examinou atentamente o rosto anguloso e enviesado, os seios novos e a enorme tatuagem nas costas. Era bonita, um longo dragão serpenteante, vermelho, verde e preto, que começava no ombro e cuja cauda fina se estendia por toda a nádega direita, indo terminar na coxa. No ano em que estivera viajando, deixara crescer o cabelo até os ombros, mas na última semana em Granada pegara de repente a tesoura e o cortara bem curto. Ainda estava com pontas desfiadas para todos os lados.
Súbito, sentiu que uma mudança fundamental tinha ocorrido, ou estava para ocorrer, em sua vida. Talvez fosse esse o perigo de a gente de repente dispor de bilhões e não ser mais obrigada a pensar em cada centavo. Talvez fosse também o mundo adulto começando a contaminá-la. Talvez fosse o fato de perceber que a morte de sua mãe pusera um ponto final em sua infância.
Durante as viagens do ano anterior, tinha se desfeito de muitos de seus piercings. Na clínica de Gênova, uma argola no mamilo fora abolida por razões puramente médicas, relacionadas à cirurgia. Em seguida, tirara a argola do lábio inferior e, em Granada, a argola sutilmente situada entre as coxas, que a machucava, e ela nem sabia mais direito por que tinha posto um piercing naquele lugar.
De repente, abriu a boca e desatarraxou o pino que atravessava sua língua e que ela já usava havia sete anos. Deixou-o numa tigela, na prateleira ao lado da pia. Sua boca parecia vazia. Com exceção de algumas argolas na orelha, só lhe restavam dois piercings, uma argola na sobrancelha esquerda e uma joia no umbigo.
Quando, mais tarde, enfiou-se debaixo do edredom novinho, descobriu que a cama que tinha comprado era gigantesca e que só ocupava uma mínima parte dela. Tinha a impressão de estar deitada na beira de um campo de futebol. Enrolou o corpo no edredom e ficou um bom tempo refletindo.
6 - DOMINGO 23 DE JANEIRO – SÁBADO 29 DE JANEIRO
Lisbeth Salander pegou o elevador do estacionamento no subsolo até o quarto andar, o último dos três andares do edifício comercial de Slussen ocupado pela Milton Security. A cópia de uma chave mestra que ela tivera o cuidado de conseguir anos atrás ainda funcionava. Consultou maquinalmente o relógio de pulso ao sair no corredor mergulhado no escuro. Três horas e dez minutos da madrugada de domingo. O guarda-noturno estava no centro de vigilância do segundo andar e ela sabia que muito provavelmente estaria sozinha no quarto andar.
Como sempre, ficou pasma ao verificar que uma empresa especializada em segurança deixava brechas tão óbvias no seu próprio sistema.
Poucas coisas haviam mudado no corredor do quarto andar naquele ano. Foi primeiro até sua própria sala, um cubículo atrás de uma divisória de vidro no corredor, onde Dragan Armanskij a instalara. A porta não estava trancada. Uma mesa, uma cadeira de escritório, um cesto de papel e uma estante vazia, o velho PC Toshiba de 1997 com um disco rígido mixuruca; Lisbeth não levou nem trinta segundos para constatar que naquele seu ano de ausência absolutamente nada tinha mudado em “sua” sala, afora alguém ter deixado uma caixa com uma papelada antiga no chão, bem do lado da porta.
Nada indicava que Dargan tivesse posto outra pessoa ali. Viu nisso um bom sinal, embora sabendo que não significava nada. Os quatro metros quadrados daquela salinha não podiam mesmo ser de grande utilidade.