Lisbeth fechou a porta e andou silenciosamente por todo o corredor conferindo se algum notívago não estaria trabalhando em algum canto. Estava sozinha. Parou em frente à máquina de café e pegou um copinho de capuccino antes de seguir até a sala de Dragan Armanskij e abrir a porta com sua chave pirateada.
A sala de Armanskij estava, como sempre, irritantemente arrumada. Deu uma volta, e uma olhada na estante antes de se sentar à mesa e ligar o computador.
Tirou um CD do bolso interno do casaco de camurça novinho e o inseriu no leitor para abrir um programa chamado Asphyxia 1.3, que ela mesma criara e cuja única função era atualizar a Internet Explorer no disco rígido de Armanskij. O processo durou cerca de cinco minutos.
Feito isso, tirou o CD do leitor e reiniciou o computador com a nova versão do Internet Explorer. O programa parecia ser a antiga versão e se comportou de modo exatamente igual, só estava um átimo mais pesado e um microssegundo mais lento. Todas as configurações eram idênticas ao original, inclusive a data de instalação. Do novo arquivo, nem vestígio.
Entrou no endereço de um servidor FTP na Holanda e obteve um menu. Clicou no ícone copy, digitou Armanskij/MiltSec e clicou em Entrar. O computador imediatamente começou a copiar o disco rígido de Dragan Armanskij no servidor holandês. Um relógio avisou que o processo levaria trinta e quatro minutos.
Durante a transferência, pegou a cópia da chave da mesa de Armanskij, que ele guardava num vaso decorativo sobre a estante. Passou a meia hora seguinte atualizando-se nos dossiês da gaveta superior direita, onde Armanskij costumava guardar os casos em andamento e urgentes. Quando o computador avisou que a transferência estava concluída, recolocou os dossiês exatamente na ordem em que os tinha encontrado.
Em seguida desligou o computador, apagou a luminária de mesa e pegou o copinho de capuccino vazio. Eram 4h12 quando entrou no elevador. Saiu da Milton Security do mesmo jeito que tinha entrado.
Voltou a pé para a Fiskaregatan, sentou-se diante de seu Powerbook, conectou-se ao servidor holandês e abriu uma cópia do Asphyxia 1.3. Uma vez aberto o programa, apareceu uma janela com uma seleção de discos rígidos. Havia cerca de quarenta opções, e ela rolou a barra do menu. Passou pelo disco rígido de NilsEBjurman, que ela abria mais ou menos a cada dois meses. Parou um instante em MikBlom/laptop e MikBlom/office. Não clicava nesses ícones havia mais de um ano e cogitou vagamente mandá-los para a lixeira. Por princípio, porém, resolveu mantê-los - já que um dia ela havia clonado esses computadores, seria bobagem apagar a informação para, quem sabe, um dia ter de refazer todo o processo. Isso também valia para um ícone intitulado Wennerström, que não abria havia muito tempo. O dono tinha morrido. O ícone Armanskíj/MiltSec era o último a ter sido criado e se achava bem no final da lista.
Ela poderia ter clonado o disco rígido dele antes, mas nunca se dera ao trabalho porque, trabalhando na Milton Security, tinha todas as condições de pôr a mão em informações que Armanskij queria ocultar das pessoas que o cercavam. A invasão de seu computador não tinha nenhuma má intenção. Ela só queria saber no que a empresa vinha trabalhando e qual era sua situação geral. Clicou e abriu-se instantaneamente uma nova pasta intitulada [ARMANSKIJDD]. Confirmou que conseguia abrir o disco rígido e constatou que todos os arquivos estavam no lugar.
Ficou no computador, lendo os relatórios, balanços financeiros e e-mails de Armanskij, até as sete da manhã. Por fim, balançou a cabeça, preocupada, e desligou o computador. Foi ao banheiro escovar os dentes e depois seguiu para o quarto, onde se despiu, deixando a roupa amontoada no chão. Deitou-se e dormiu até meio-dia e meia.
Na última sexta-feira de janeiro, teve lugar a assembléia geral anual da Millennium. Participavam o contador da empresa, um auditor fiscal, os quatro sócios - Erika Berger (detentora de trinta por cento das ações), Mikael Blomkvist (vinte por cento), Christer Malm (vinte por cento) e Harriet Vanger (trinta por cento). Fora igualmente convocada para a reunião a assistente de redação Malu Eriksson, representante dos funcionários na qualidade de presidente da unidade sindical da revista, composta por ela própria, Lottie Karim, Henry Cortez, Monika Nilsson e Sonny Magnusson, responsável pela publicidade. Era a primeira vez que Malu participava de uma assembléia geral da diretoria da empresa.
A reunião teve início às quatro da tarde em ponto e terminou pouco mais de uma hora depois. Grande parte dela foi dedicada ao balanço financeiro e ao detalhamento do saldo. A assembléia pôde constatar facilmente que a Millennium estava com uma base financeira estável se comparada ao período de crise que atingira a empresa dois anos antes. O saldo apresentava um excedente de 2,1 milhões de coroas, dos quais um milhão provinha das vendas do livro de Mikael Blomkvist sobre o caso Wennerström.
Por sugestão de Erika Berger, ficou decidido que um milhão seria aplicado visando estancar futuras crises, duzentas e cinquenta mil coroas seriam investidas numa reforma da área de redação, na compra de novos computadores e outros equipamentos técnicos, e trezentas mil seriam aproveitadas para um aumento geral dos salários e a proposta de período integral a Henry Cortez. Para o restante, a proposta era repassar cinquenta mil coroas a cada sócio e um bônus salarial de cem mil coroas a ser equanimemente dividido entre os quatro colaboradores fixos, quer trabalhassem meio período, quer período integral. O responsável pela publicidade, Sonny Magnusson, não receberia bônus, já que por contrato lhe cabia uma percentagem sobre os anúncios que conseguia, o que às vezes o tornava o assalariado mais bem pago de todos. A proposta foi aceita por unanimidade.
Uma proposta de Mikael Blomkvist suscitou um breve debate sobre a possibilidade de reduzir o orçamento para freelancers e investir futuramente em mais um funcionário de meio período. Mikael pensava em Dag Svensson, que assim poderia usar a Millennium como base de uma atividade freelancer e, quem sabe mais tarde, passar para período integral. A proposta contou com a oposição de Erika Berger, que achava que seria difícil a revista não recorrer a frilas. Erika teve o apoio de Harriet Vanger, enquanto Christer Malm se absteve. Ficou então decidido não se mexer no orçamento dos frilas. Todos, porém, tinham muita vontade de trabalhar com Dag Svensson pelo menos em período parcial.
Depois de uma rápida discussão sobre o futuro direcionamento e os projetos em andamento, Erika Berger foi reeleita presidente do conselho administrativo para o exercício seguinte. Com isso, a assembléia foi encerrada. Malu Eriksson não pronunciara uma só palavra durante esse seu primeiro conselho administrativo; um breve cálculo de cabeça lhe permitira constatar que os funcionários iriam receber um bônus de vinte e cinco mil coroas, ou seja, mais de um mês de salário. Não viu nenhum motivo para protestar contra essa decisão.
Terminada a assembléia geral, Erika Berger convocou os sócios para uma reunião extraordinária. Erika, Mikael, Christer e Harriet permaneceram na sala, enquanto os demais se retiraram. Assim que fecharam a porta, Erika começou a reunião.
—Temos um único item em pauta. Harriet, segundo o acordo firmado com Henrik Vanger, sua participação seria por um período de dois anos. Chegamos ao fim do contrato. Portanto precisamos saber o que vai ser da sua participação - ou, mais precisamente, a de Henrik.
Harriet meneou a cabeça.