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—Todo mundo aqui sabe que a participação de Henrik resultou de um impulso diante de uma situação bem específica - disse ela. —Essa situação não existe mais. Gostaria de saber a opinião de vocês a respeito.

Christer Malm se mexeu na cadeira. Era o único na sala que não sabia exatamente que situação específica era aquela. Sabia que Mikael e Erika lhe escondiam uma história, mas Erika explicara que se tratava de um assunto altamente pessoal, que dizia respeito a Mikael e sobre o qual ele não queria falar de jeito nenhum. Christer não era bobo e entendeu que o silêncio de Mikael estava ligado aos acontecimentos de Hedestad e a Harriet Vanger. Enendia também que não precisava saber mais que isso para tomar uma decisão de princípios, e respeitava Mikael o suficiente para não criar caso por isso.

—Conversamos, os três, sobre a questão e chegamos a um consenso - disse Erika. Fez uma pausa e fitou Harriet dentro dos olhos. —Antes de expor nosso ponto de vista, gostaríamos de saber qual a sua posição.

O olhar de Harriet Vanger passou de Erika para Mikael, depois para Christer. Seus olhos se demoraram em Mikael, mas não conseguiu ler nada no rosto deles.

—Se quiserem comprar a minha parte de volta, isso lhes custaria três milhões de coroas mais os juros, quantia que a família Vanger investiu na Millennium. Vocês têm condições de pagar? - perguntou Harriet suavemente.

—Sim, temos condições - disse Mikael com um sorriso.

—Henrik Vanger pagara cinco milhões de coroas pelo trabalho que Mikael realizara para ele. Detalhe irônico: um dos objetivos da missão tinha sido encontrar Harriet Vanger.

—Nesse caso, a decisão está na mão de vocês - disse Harriet. —O contrato determina que a partir de hoje vocês podem abrir mão da participação dos Vanger. De minha parte, nunca teria formulado um contrato tão vago como este do Henrik.

—Poderíamos comprar a sua parte se fôssemos obrigados a isso - disse Erika. —A questão, portanto, é saber o que você pretende. Você dirige um grupo empresarial, dois grupos, para ser mais precisa. O nosso orçamento anual equivale ao que vocês negociam no intervalo do cafezinho. Que interesse você poderia ter em desperdiçar seu tempo em algo tão modesto como a Millennium? Reunimos o conselho administrativo a cada três meses, e desde que substituiu o Henrik você tem conscienciosamente se dado ao trabalho de estar presente a todas as reuniões.

Harriet Vanger encarou a presidente do conselho administrativo com um olhar doce. Guardou silêncio por um longo momento. Então disse, voltando-se para Mikaeclass="underline"

—Desde o dia em que nasci sempre fui proprietária de uma coisa ou de outra. E passo os meus dias dirigindo um grupo onde há mais intrigas que num romance popular. Quando comecei a participar deste conselho, era para cumprir um dever ao qual não podia me furtar. Mas vou dizer uma coisa: nesse último ano e meio, descobri que este é o conselho administrativo do qual eu mais gosto de participar.

Mikael meneou a cabeça com ar compenetrado. Harriet olhou para Christer.

—Estar na Millennium é como brincar de conselho administrativo. Os problemas aqui são mínimos, compreensíveis e visíveis. A empresa tem, evidentemente, a obrigação de gerar lucro e ganhar dinheiro, é uma condição sine qua non. Mas o objetivo da atividade se situa num outro níveclass="underline" vocês querem fazer as coisas avançar.

Tomou um gole de água e fitou Erika.

—O que isso significa exatamente ainda é um pouco vago para mim. Vocês não são um partido político, não são uma organização sindical. Não têm contas a prestar a ninguém a não ser vocês mesmos. Mas apontam para falhas na sociedade e não hesitam em perturbar as personalidades que não lhes agradam. Vocês, muitas vezes, querem mudar as coisas. Mesmo que finjam ser uns cínicos e uns niilistas, é a moral de vocês, e mais nada, que aponta o rumo da revista, e tive a oportunidade de constatar que a moral de vocês é muito especial. Não sei que nome dar a isso, mas a Millennium tem alma E o único conselho administrativo de que me orgulho de participar.

Calou-se e ficou em silêncio por tanto tempo que Erika, de repente, começou a rir.

—Isso é muito bacana. Mas você ainda não respondeu à pergunta.

—Eu me sinto bem na companhia de vocês, me faz um bem incrível participar disto aqui. É a coisa mais maluca e esquisita que já vivenciei. Se quiserem que eu fique, para mim será um prazer.

—Bem - disse Christer. —Nós discutimos todos os aspectos e estamos todos de acordo. Vamos romper o contrato hoje e comprar sua parte de volta.

Os olhos de Harriet se arregalaram ligeiramente.

—Vocês querem se livrar de mim?

—Quando assinamos o contrato, estávamos com o pescoço na forca, só esperando que puxassem a corda. Não tínhamos escolha. Desde então, ficamos só esperando o dia de poder comprar de volta a parte de Henrik Vanger.

Erika abriu uma pasta e pôs sobre a mesa uns documentos que ela empurrou na direção de Harriet Vanger com um cheque no valor exato indicado por Harriet. Esta percorreu o contrato com os olhos. Sem uma palavra, pegou uma caneta e assinou.

—Pronto - disse Erika. —Simples como o quê. Eu queria agradecer ao Henrik Vanger por esse tempo que passamos juntos e sua contribuição para a Millennium. Obrigada, desde já, por transmitir isso a ele.

—Vou transmitir - respondeu Harriet Vanger em tom neutro.

Ela não demonstrava o que sentia, mas estava ao mesmo tempo magoada e profundamente decepcionada por eles a terem deixado dizer que gostaria de permanecer no conselho para em seguida a expulsarem com tamanha leviandade. Parecia tão desnecessário, não dava para entender.

—Por outro lado, gostaria de chamar sua atenção para um outro contrato, bem diferente - disse Erika Berger.

Pegou outro maço de papéis e o empurrou sobre a mesa.

—Queríamos saber se você gostaria de se tornar pessoalmente sócia da Millennium. O custo é exatamente a quantia que você acaba de receber. A diferença é que este contrato não estipula prazo nem tem cláusulas de exclusão. Você entraria na empresa como sócia efetiva, com responsabilidades e deveres iguais aos nossos.

Harriet ergueu as sobrancelhas.

—Por que proceder assim?

—Porque cedo ou tarde teríamos que passar por isso - disse Christer Malm. —Poderíamos ir renovando o outro contrato ano após ano, de uma assembléia para outra, ou até a gente brigar para valer no conselho e expulsar você. Era imprescindível uma revisão.

Harriet se apoiou num cotovelo e perscrutou-o com o olhar. Seus olhos passaram em seguida para Mikael e Erika.

—Acontece que assinamos o contrato com o Henrik por pura necessidade econômica - disse Erika. —Já este novo contrato nós estamos propondo porque é nosso desejo. E, contrariamente ao que estipulava o anterior, não vai ser muito fácil tirar você no futuro.

—Isso faz uma diferença enorme para a gente - disse Mikael em voz baixa.

Essa foi sua única contribuição na discussão.

—A gente simplesmente acha que você traz para a Millennium algo mais do que as garantias econômicas ligadas ao nome Vanger - disse Erika Berger. —Você é uma pessoa sensata e ponderada e encontra soluções construtivas. Até agora esteve retraída, como um observador de passagem. Mas você traz a esta diretoria uma estabilidade e uma firmeza que nunca tivemos antes. Você entende de negócios. Você um dia me perguntou se podia confiar em mim, e eu me fazia mais ou menos a mesma pergunta a seu respeito. Hoje nós duas sabemos onde estamos pisando. Gosto muitíssimo de você - todos nós gostamos. Não queremos você aqui por uma obrigação formulada e registrada em papel num momento de desespero. Queremos você como nossa parceira e sócia efetiva.

Harriet pegou o contrato e o leu escrupulosamente linha por linha durante cinco minutos. Por fim, levantou a cabeça.