—E vocês três concordam com isso? - perguntou.
Os três aquiesceram. Harriet pegou a caneta e assinou. Empurrou o cheque para o outro lado da mesa. Mikael rasgou-o.
Os sócios da Millennium jantaram no Samirs Gryta em Tavastgatan. Um bom vinho e cuscuz de cordeiro constituíram o menu de uma reunião tranquila para festejar a nova sociedade. A conversa estava descontraída e Harriet, visivelmente mexida. Pairava no ar um leve toque de primeiro encontro, quando as duas partes sabem que algo vai acontecer, mas ainda não sabem exatamente o quê.
Às sete e meia da noite, Harriet Vanger deixou o restaurante, dizendo que precisava ir para o hotel dormir. Erika Berger tinha que ir para casa ao encontro do marido e acompanhou Harriet por um trecho do caminho. Despediram-se em Slussen. Mikael e Christer ainda se demoraram um pouco, até que chegou a vez de Christer se levantar e ir para casa.
Harriet Vanger pegou um táxi para o hotel Sheraton e subiu até seu quarto no sexto andar. Despiu-se, tomou banho, enxugou-se e enfiou o roupão oferecido pelo hotel. Depois se sentou diante da janela para apreciar a vista sobre Riddarholmen. Abriu um maço de Dunhill e acendeu um cigarro. Fumando três ou quatro cigarros por dia, ela se via praticamente como uma não-fumante, o que lhe permitia desfrutar umas tragadas travessas sem se sentir culpada.
Às nove, bateram à sua porta. Ela abriu e deixou Mikael Blomkvist entrar.
—Safado - disse ela.
Mikael sorriu e deu-lhe um beijo.
—Por um segundo, achei mesmo que vocês estivessem me dispensando.
—A gente nunca teria te dispensado dessa maneira. Entendeu por que queríamos refazer o contrato?
—Sim. Parece bastante honesto.
Mikael abriu o roupão, pôs uma mão em seu seio e apertou suavemente.
—Safado - ela repetiu.
Da rua, ela avistara a janela iluminada, e agora ouvia música lá dentro. Lisbeth Salander parou em frente à porta onde estava escrito Wu. Deduziu que Miriam Wu ainda morava em sua quitinete na Tomtebogatan, próximo à Praça Sankt Eriksplan. Era noite de sexta-feira e Lisbeth, de certa forma, torcia para que Mimmi tivesse saído para alguma balada e que o apartamento estivesse escuro e silencioso. Restava saber se Mimmi ainda a queria e se estaria sozinha e disponível. Tocou a campainha.
Mimmi abriu a porta e ergueu as sobrancelhas, surpresa. Então se encostou no batente da porta, mão no quadril.
—Salander! Pensei que você tivesse morrido ou qualquer coisa assim.
—Qualquer coisa assim - disse Lisbeth.
—O que você quer?
—Existem muitas respostas para essa pergunta.
Miriam Wu deixou os olhos vagarem pela escada antes de tornar a pousá-los em Lisbeth.
—Fale uma delas, só para eu ver.
—Bem, conferir se você ainda está solteira e se gostaria de companhia hoje à noite.
Mimmi ficou boquiaberta alguns segundos, antes de repentinamente cair na gargalhada.
—Só conheço uma pessoa capaz de aparecer na minha casa depois de um ano e meio de silêncio para me perguntar se estou a fim de trepar.
—Quer que eu vá embora?
Mimmi parou de rir. Permaneceu calada por alguns segundos.
—Lisbeth... meu Deus, você está falando sério! Lisbeth aguardou.
Por fim, Mimmi suspirou e abriu toda a porta.
—Entre. Posso pelo menos te oferecer um café.
Lisbeth a seguiu e sentou num dos dois banquinhos que Mimmi tinha posto de um lado e outro de uma mesa de jantar, na entrada, bem atrás da porta. O apartamento de vinte e quatro metros quadrados compunha-se de uma sala exígua e de uma entrada onde mal e mal dava para colocar alguns móveis. A cozinha encontrara um lugar num cantinho da entrada, onde Mimmi instalara água corrente puxando um cano do banheiro.
Enquanto Mimmi preparava o café, Lisbeth a olhou disfarçadamente. Miram Wu era filha de uma chinesa de Hong Kong e um sueco de Boden. Usava o sobrenome da mãe. Lisbeth sabia que os pais dela continuavam casados e moravam em Paris. Mimmi estava matriculada no curso de sociologia da Universidade de Estocolmo. Tinha uma irmã mais velha que estudava antropologia nos Estados Unidos. Os genes de sua mãe se manifestavam sob a forma de cabelos negros lisos, que ela usava bem curtos, e vagas feições asiáticas. Do pai herdara olhos azuis que lhe davam um aspecto singular. A boca era larga, e ela tinha covinhas que não vinham nem da mãe nem do pai.
Tinha trinta e um anos. Gostava de ostentar roupas de vinil e frequentar boates que apresentavam shows, dos quais ela própria às vezes participava. Lisbeth não punha os pés numa boate desde os dezesseis anos.
Além de fazer sociologia, Mimmi trabalhava um dia por semana como vendedora na Domino Fashion, numa rua transversa da Sveavágen. A clientela da Domino tinha uma necessidade vital de roupas provocativas, do tipo uniforme de enfermeira de látex ou conjunto de bruxa em couro preto, e a loja respondia pelo design e fabricação dessas peças. Mimmi era coproprietária da butique com umas amigas, o que representava alguns milhares de coroas por mês para reforçar o crédito estudantil. Lisbeth Salander descobrira Mimmi alguns anos antes, quando ela se apresentava num show durante a Gay Pride; mais tarde naquela noite cruzara com ela numa barraca de cerveja. Mimmi usava um vestido esquisito de plástico verde-limão, que mais mostrava do que escondia. Lisbeth teve dificuldade em encontrar alguma nuança erótica naquela vestimenta, mas estava bêbada o bastante para, de repente, sentir vontade de dar em cima de uma mulher fantasiada de limão. Para a imensa surpresa de Lisbeth, o limão concedera-lhe um olhar e a beijara sem nenhum constrangimento, dizendo: Quero você! Tinham ido para a casa de Lisbeth e feito amor a noite inteira.
Eu sou assim — disse Lisbeth. — Caí fora para me afastar de tudo e de todos. Deveria ter me despedido de você.
Pensei que tinha acontecido alguma coisa com você. Mas é verdade que a gente não vinha tendo muito contato nos últimos meses antes de você sumir.
Eu estava superocupada.
Você é mesmo uma garota misteriosa. Nunca fala de você, não sei onde você trabalha, e eu não sabia para quem ligar quando parou de atender o celular.
—No momento estou sem nenhum trabalho específico e, dá licença, você era exatamente igual a mim. Queria trepar comigo, mas não estava particularmente interessada em mim, e prefere viver sozinha. Não é verdade? Mimmi olhou para Lisbeth.
—É verdade - disse por fim.
—E comigo era igual. Eu queria trepar, mas não queria ser um casal com você. Eu nunca prometi nada.
—Você mudou - disse Mimmi.
—Nem tanto.
—Parece mais velha. Mais madura. Está vestida diferente. E recheou o sutiã com alguma coisa.
Lisbeth se remexeu na cadeira, mas não respondeu. Mimmi acabava de tocar no ponto sensível, e ela não conseguia definir como ia explicar o assunto para as pessoas que a conheciam. Mimmi a tinha visto nua e necessariamente iria notar uma mudança. Por fim, baixou os olhos e murmurou:
—Eu mandei colocar uns seios.
—O que você está dizendo?
Lisbeth ergueu os olhos e falou mais alto, sem perceber o tom desafiador que estava adotando.
—Estive numa clínica, na Itália, para fazer uns implantes. Foi por isso que eu sumi. Depois, eu simplesmente continuei viajando. Agora estou de volta.
—Está brincando?
Lisbeth fitou Mimmi com um olhar inexpressivo.
—Ah, que boba que eu sou. Você nunca brinca mademoiselle Spock.
—Eu sou assim e não pretendo me desculpar. Estou sendo honesta com você. Se quiser que eu vá embora, é só dizer. Quer que eu vá embora?
—Espera aí, você realmente fez implante de seios?
Lisbeth meneou a cabeça. Mimmi Wu caiu na gargalhada. Lisbeth murchou.
—Seja como for, você nem pense em ir embora sem eu ver. Por favor, minha linda. Please.
—Mimmi, eu sou assim. Você também. Você dá em cima de tudo o que em seios, e até de alguém como eu, que não tinha seio nenhum. Por isso é que eu gostava tanto de trepar com você. Você não botava o nariz nas minhas histórias e se eu estivesse ocupada procurava outra. E você não dá a mínima para o que as pessoas acham de você.