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Mimmi meneou a cabeça. Entendera que era lésbica já na época do colégio e, depois de alguns tateios difíceis, fora finalmente iniciada nos mistérios do erotismo aos dezessete anos, quando, por acaso, acompanhara uma amiga a uma festa organizada pela Associação pela Igualdade Sexual de Göteborg. A partir dali, nunca sequer cogitara viver de outra maneira. Uma única vez, estava então com vinte e três anos, tentara fazer amor com um homem. Cumprira o ato e fizera tudo aquilo que se esperava dela. Não sentira prazer algum. Em compensação, as mulheres, de todo tipo e formato, despertavam nela um desejo infinito. Ela pertencia também à minoria dentro da minoria das que não experimentavam nem casamento, nem fidelidade, nem noites aconchegantes em casa.

—Voltei para a Suécia faz umas poucas semanas. Só queria saber se preciso sair caçando por aí ou se você ainda está topando.

Mimmi se levantou e se acercou de Lisbeth. Inclinou-se e beijou-a suavemente na boca.

Eu pretendia trabalhar hoje à noite. Abriu o primeiro botão da camisa de Lisbeth.

—Puxa vida...

Beijou-a de novo e abriu outro botão.

—Eu tenho que ver isso. Mais um beijo.

—Que bom que você voltou.

Harriet Vanger adormeceu por volta das duas da manhã, enquanto Mikael Blomkvist ficou acordado escutando sua respiração. Acabou se levantando e roubando um cigarro na bolsa dela. Sentou-se, nu, numa cadeira ao lado da cama e ficou olhando para ela.

Mikael não planejara tornar-se amante ocasional de Harriet. Pelo contrário, depois do período passado em Hedestad, sua vontade era manter distância da família Vanger. Reencontrara-se com Harriet na primavera, nas reuniões do conselho administrativo, e mantivera uma distância polida; cada um conhecia os segredinhos do outro e os guardava para si, mas, a não ser pelas obrigações de Harriet na diretoria da Millennium, nada mais os ligava em termos de trabalho.

No ano anterior, depois de meses sem aparecer em sua cabana de Sandham, Mikael passara um tempo lá no feriado de Pentecostes, só para ficar em paz, sentar em frente ao mar e ler um romance policial. Na sexta-feira à tarde, poucas horas depois de sua chegada, quando foi a pé até o quiosque para comprar cigarros, topou inopinadamente com Harriet Vanger. Ela sentira vontade de se afastar de Hedestad e fizera uma reserva de fim de semana no hotel de Sandham, lugar que não via desde a infância. Tinha dezesseis anos quando fugira da Suécia, e cinquenta e três quando voltara depois que Mikael encontrara sua pista.

A surpresa de se encontrarem assim por acaso tinha sido mútua. Depois de algumas frases banais, ela se calou, constrangida. Mikael conhecia a história dela. E ela sabia que ele cedera em seus princípios para encobrir os terríveis segredos da família Vanger. Entre outras coisas, para poupá-la.

Mikael a convidara para conhecer sua cabana. Tinham ficado um bom tempo no pontão, batendo papo. Era a primeira vez que conversavam seriamente depois que ela voltara para a Suécia. Mikael tinha que fazer a pergunta.

—O que vocês fizeram com tudo aquilo que estava no porão de Martin Vanger?

—Você quer mesmo saber? Ele meneou a cabeça.

—Eu mesma fiz a faxina. Queimei tudo o que era possível queimar. Mandei derrubar a casa. Não teria conseguido morar lá, nem vender ou deixar outra pessoa morar ali. Para mim, ela estava totalmente associada ao mal. Pretendo mandar construir outra casa, menor, naquele terreno.

—E ninguém reclamou quando você mandou derrubar? Afinal, era uma magnífica mansão moderna.

Ela sorriu.

—Dirch Frode espalhou o boato de que havia tamanho problema de umidade na casa que ficaria mais caro mandar consertar.

Dirch Frode era o advogado e faz-tudo da família Vanger.

—Como vai o Frode?

—Está para fazer setenta anos. Eu o mantenho ocupado.

Jantaram juntos e Mikael de repente se deu conta de que Harriet estava lhe contando os detalhes mais íntimos e pessoais de sua vida. Ele a interrompeu e perguntou por quê. Ela refletiu um instante e respondeu que talvez ele fosse a única pessoa no mundo de quem não tinha motivo para esconder o que quer que fosse. Além do quê, achava difícil guardar segredos de um menino do qual fora baby-sitter quarenta anos antes.

Ela experimentara o sexo com três homens em sua vida. Primeiro seu pai, depois seu irmão. Matara o pai e fugira para longe do irmão. De um jeito ou de outro, sobrevivera, encontrara um homem e construíra uma vida nova.

—Ele era carinhoso e muito amoroso. A gente não... quero dizer, a gente não tinha uma vida íntima exuberante, mas ele era honesto e me dava segurança. Fui feliz com ele. Vivemos juntos vinte anos, até ele ficar doente.

—Por que nunca se casou de novo? Ela deu de ombros.

—Eu era mãe de dois filhos na Austrália, e proprietária de uma grande empresa agrícola. Imagino que eu nunca tive de fato disponibilidade para escapar em fins de semana românticos. Sexo nunca me fez falta.

Ficaram um momento calados.

—Está tarde. Preciso voltar para o hotel. Mikael concordou com a cabeça.

—Você está a fim de me seduzir?

—Sim - ele respondeu.

Mikael se levantou, pegou-a pela mão, eles entraram na cabana e subiram até o mezanino. Ela o deteve.

—Não sei bem como me comportar - disse. —Não é todo dia que faço essas coisas.

Passaram o fim de semana juntos e, desde então, viam-se uma noite a cada três meses, quando se reunia o conselho administrativo da Millennium. Não era uma relação muito prática nem duradoura. Harriet Vanger trabalhava vinte e quatro horas por dia e viajava a maior parte do tempo. Ela passava um mês na Suécia e outro na Austrália. Contudo, começara a apreciar aqueles encontros irregulares e esporádicos com Mikael.

Duas horas depois, Mimmi preparava o café enquanto Lisbeth permanecia deitada, nua e suada, em cima da colcha. Fumou um cigarro, contemplando as costas de Mimmi pela porta entreaberta. Invejava o corpo dela, com seus músculos impressionantes. Mimmi se exercitava três noites por semana, uma delas treinando luta tailandesa ou alguma coisa parecida com caratê, que deixara seu corpo naquele insolente condicionamento físico.

Ela era simplesmente gostosa. Não era bonita como uma modelo, mas era atraente. Mimmi adorava provocar e excitar. Quando se fazia de louca numa festa, vestida com seus trajes singulares, conseguia fascinar qualquer pessoa. Podia seduzir quem quisesse. Lisbeth não entendia por que Mimmi se interessava por uma bobinha anoréxica como ela.

Mas ficava contente que fosse assim. Trepar com Mimmi era tão libertador que Lisbeth se soltava, gozava, dava e tomava.

Mimmi voltou com duas canecas e as colocou sobre um banquinho. Subiu na cama e se inclinou para beijar um dos seios de Lisbeth.

—Bem, dão para o gasto - disse.

Lisbeth não falou nada. Olhou para os seios de Mimmi, diante de seus olhos. Mimmi também tinha seios um tanto pequenos, mas pareciam totalmente naturais no corpo dela.

—Sinceramente, Lisbeth, você está mais do que atraente.

—Não brinque comigo. Os seios não mudam nada, mas pelo menos agora eu tenho seios.

—Você tem uma fixação com corpo.

—Logo quem falando, você se exercita feito uma maluca.

—Eu me exercito feito uma maluca porque gosto de me exercitar. É que nem tomar uma dose, quase tão forte como sexo. Você devia experimentar.

—Eu faço boxe - disse ela.

—Sei. Você só ia de dois em dois meses, e isso porque sentia um prazer maligno em encher de porrada aqueles babacas que ficavam se pavoneando. Isso não é treinar para se sentir bem.

Lisbeth deu de ombros. Mimmi se escarranchou em cima dela.