Magge Lundin não era desprovido de inteligência. Compreendia que um lucro menor, mas com relativamente pouco risco, era simplesmente uma boa idéia comercial.
Nunca cogitara enrolar o gigante loiro. Não teria sido fair-play. O gigante loiro e seus sócios aceitavam um lucro pequeno desde que as contas fossem honestas. Se ele tentasse enrolar o gigante, o cara viria ter com ele de qualquer jeito, e Magge Lundin tinha todos os motivos para achar que nessa ele perderia a vida. De modo que nem pensar em discutir.
—Quando você pode entregar?
O gigante loiro largou a sacola esportiva no chão.
—Está entregue.
Magge Lundin não se deu ao trabalho de abrir a sacola e conferir o conteúdo. Contentou-se em estender a mão para demonstrar que eles tinham um acordo e que cabia a ele cumprir sua parte.
—Tem outra coisa - disse o gigante loiro.
—O quê?
—A gente queria te contratar para um serviço especial.
—Pode falar.
O gigante loiro pegou um envelope do bolso interno da jaqueta. Magge Lundin o abriu e tirou uma foto de identidade e um papel contendo dados pessoais. Ergueu as sobrancelhas num ponto de interrogação.
—Ela se chama Lisbeth Salander, mora na Lundagatan, no Södermalm, em Estocolmo.
—Está anotado.
—Ela deve estar no exterior no momento, mas vai acabar aparecendo uma hora dessas.
—A gente vai estar lá.
—O meu patrão queria ter uma conversinha particular com ela sem ser incomodado. Ela precisa ser entregue viva. Por exemplo, naquele hangar perto de Yngern. Tem que providenciar alguém para fazer uma faxina depois da conversa. Ela deve sumir sem deixar rastro.
—Dá para fazer. Como a gente vai saber que ela chegou?
—Eu aviso quando for a hora.
—Quanto?
—Dez milhões no total. Não é um serviço complicado. Você vai até Estocolmo, pega a moça e me entrega.
Apertaram-se as mãos mais uma vez.
Na sua segunda visita à Lundagatan, Lisbeth se sentou no sofá para refletir. Precisava tomar algumas decisões estratégicas, e uma delas era resolver se ficava ou não com aquele apartamento.
Acendeu um cigarro, soprou a fumaça para o teto e jogou a cinza numa latinha vazia de Coca.
Não havia nenhum motivo para ela gostar do apartamento, para o qual se mudara com a mãe e a irmã quando tinha quatro anos. A mãe ocupava a sala, ao passo que ela e Camilla dividiam o quartinho. Com doze anos, quando Todo o Mal acontecera, ela primeiro tinha sido internada numa clínica pediátrica e depois, aos quinze anos, passara por diferentes famílias adotivas. Seu administrador ad hoc legal, Holger Palmgren, sublocara o apartamento e dera um jeito para que ela o recuperasse quando atingiu a maioridade e precisou de um lugar para morar.
Nunca fora para ela um apartamento da felicidade, mas representara um ponto de referência durante a maior parte de sua existência. Embora não precisasse dele, a idéia de abandoná-lo e que estranhos viessem andar em seu piso a revoltava.
O problema logístico era que toda a sua correspondência oficial — até onde ela recebia correspondência — chegava na Lundagatan. Abandonar o apartamento a obrigaria a adotar um novo endereço. Lisbeth Salander não tinha muita vontade de ser uma pessoa concretamente presente em arquivos de todos os tipos. Mentalmente, funcionava no âmbito da paranóia e ela não tinha motivo nenhum para confiar nas autoridades nem, aliás, em quem quer que fosse.
Pela janela, viu o muro do pátio dos fundos que contemplara a sua vida inteira. Súbito, sentiu-se aliviada por ter decidido sair do apartamento. Nunca se sentira à vontade ou em segurança dentro dele. Sóbria ou bêbada de cair, cada vez que virava a esquina e se aproximava do portão do prédio dava uma boa olhada nos arredores, nos carros estacionados, nos pedestres. Tinha todos os motivos para achar que em algum lugar havia pessoas querendo lhe fazer mal, e muito provavelmente essas pessoas passariam ao ataque quando ela estivesse entrando ou saindo de casa.
Nunca houvera, no entanto, nenhuma agressão nem acontecera absolutamente nada. Mas nem por isso ela relaxava a vigilância. O endereço da Lundagatan estava em todos os arquivos oficiais, e em todos aqueles anos ela nunca tivera como incrementar sua segurança senão ficando permanentemente alerta. Não queria, de jeito nenhum, que alguém soubesse do seu novo endereço na Fiskaregatan. Seu instinto lhe dizia para se manter tão anônima quanto possível.
Isso, porém, não resolvia a questão do que ela deveria fazer com o apartamento. Ficou mais algum tempo quebrando a cabeça, depois pegou o celular e ligou para Mimmi.
—Oi, sou eu.
—Oi, Lisbeth. Desta vez está dando notícias depois de uma semana?
—Estou na Lundagatan.
—Sei.
—Fiquei pensando se você se interessaria em ficar com o meu apartamento.
—Como assim, ficar com o seu apartamento?
—Você mora numa caixa de sapatos.
—Mas me sinto bem aqui. Você pretende se mudar?
—Eu já me mudei. O apartamento está vazio. Mimmi hesitou do outro lado da linha.
—E está me perguntando se quero ficar com ele? Ora, Lisbeth, não tenho condições para isso.
—Ele está quitado. São 1480 coroas de condomínio por mês, o que deve ser menos do que você paga pela sua caixa de sapatos. E já está pago por um ano.
—Mas você pretende vender. Quero dizer, ele deve valer muito mais que um milhão.
—Um e meio, segundo os anúncios das imobiliárias.
—Eu não tenho condições.
—E eu não tenho intenção de vender. Você pode se mudar ainda hoje, pode morar aqui o tempo que quiser e não vai ter condomínio para pagar durante um ano. Não tenho o direito de sublocar, mas posso mencionar no contrato que você é minha companheira, assim você evita problemas com o condomínio.
—Espera aí, Lisbeth, você está me pedindo em casamento! — riu Mimmi.
O rosto de Lisbeth ficou de uma seriedade papal.
—O apartamento não me serve para nada e não tenho a intenção de vender.
—Quer dizer que eu posso morar aí de graça... Não é gozação?
—Não.
—Por quanto tempo?
—Pelo tempo que você quiser. Te interessa?
—Mas claro. Não é todo dia que me oferecem um apartamento de graça no Söder, e morar num bairro chique é tentador.
—Só tem uma coisa.
—Eu sabia.
—Você pode morar aqui o tempo que quiser, mas este vai continuar sendo o meu endereço, e a minha correspondência vai vir para cá. Só o que eu te peço é para pegar a correspondência e me avisar se tiver algo que interesse.
—Lisbeth, você é a mulher mais maluca que eu conheço. O que você está aprontando? Onde vai morar?
—A gente fala nisso outra hora — disse Lisbeth, evasiva.
Combinaram de se encontrar mais no final da tarde para que Mimmi conhecesse o apartamento. Com as coisas assim acertadas, Lisbeth se sentiu bem melhor. Consultou o relógio e concluiu que ainda tinha muito tempo antes de Mimmi chegar. Levantou-se e foi a pé até o Handelsbanken, na Hornsgatan, onde pegou uma senha e esperou pacientemente até um caixa ficar livre.
Mostrou sua carteira de identidade e explicou que tinha ficado algum tempo fora do país e queria consultar o extrato de sua poupança. Seu capital oficialmente declarado era de 82670 coroas. A conta tinha ficado parada por mais de um ano, a não ser por um depósito de 9312 coroas feito no outono. A herança de sua mãe.
Lisbeth Salander sacou a quantia correspondente à herança. Refletiu um momento. Queria usar esse dinheiro em alguma coisa que teria agradado à sua mãe. Alguma coisa especial. Foi até a agência de correios da Rosenlundsgatan e, sem que ela própria entendesse o porquê desta escolha, fez uma doação anônima na conta do SOS-Mulheres.