Eram oito da noite de sexta-feira, quando Erika desligou o computador e se espreguiçou. Tinha passado nove horas fazendo a última revisão da edição de março da Millennium e, como Malu Eriksson estava trabalhando em tempo integral no número temático de Dag Svensson, ela mesma tivera de fazer boa parte da redação. Henry Cortez e Lottie Karim até tinham lhe dado uma mão, mas eles tinham mais experiência como correspondente e repórter do QUE EM escrever.
De modo que Erika Berger se sentia cansada, e com o traseiro dolorido, mas no conjunto estava satisfeita com o seu dia e com a vida em geral. As finanças da revista andavam estáveis, as curvas dos gráficos estavam na direção certa, os textos chegavam antes do prazo-limite ou, pelo menos, sem muito atraso, os funcionários estavam satisfeitos e, passado um ano, continuavam estimulados pela injeção de adrenalina que o caso Wennerstrôm representara.
Passou uns momentos tentando massagear a nuca, pensou que uma chuveirada lhe faria muito bem e cogitou utilizar o banheirinho que ficava atrás da copa. Mas sentiu preguiça e contentou-se em descansar os pés sobre a mesa, constatando que ia fazer quarenta e cinco anos dali a três meses e que o tal futuro de que todo mundo falava estava começando a fazer cada vez mais parte do passado. O contorno dos seus olhos e boca já apresentava uma fina rede de pequenas rugas, mas ela sabia que ainda era bonita, e sua rotina incluía duas sessões infernais de academia por semana. Reconhecia que andava tendo mais dificuldade para subir no topo do mastro, quando fazia cruzeiros com o marido. Era sempre ela que subia quando necessário - Lars, seu marido, sofria de vertigem.
Também ponderou que seus primeiros quarenta e cinco anos de vida, apesar de alguns altos e baixos, no geral haviam sido felizes. Ela tinha dinheiro, status social, uma casa sensacional e um trabalho que adorava. Tinha um marido carinhoso que a amava e pelo qual ainda era, depois de quinze anos de casados, loucamente apaixonada. E, além disso, um amante agradável e aparentemente incansável que sem dúvida não satisfazia sua alma, mas seu corpo, nos momentos de necessidade urgente.
Sorriu, de repente, ao pensar em Mikael Blomkvist. Perguntou-se quando ele iria criar coragem para lhe confessar que tinha um caso com Harriet Vanger. Nem Mikael nem Harriet haviam sequer mencionado seu relacionamento, mas Erika não tinha nascido ontem. Por causa de um súbito palpite durante a reunião de agosto do conselho administrativo, e de uma troca de olhares entre Mikael e Harriet, ela percebera que havia alguma coisa entre os dois. Esperta, tentara ligar mais à noite para o celular de um e de outro e não se surpreendeu ao ver que estavam desligados. Claro que isso em si não constituía uma prova decisiva, mas nas reuniões seguintes observou que Mikael também nunca era encontrado à noite. Foi até engraçado ver com que rapidez Harriet deixara o restaurante depois da assembléia geral, pretextando cansaço e necessidade de dormir. Erika não sentia ciúmes nem vontade de levar a investigação adiante, mas pretendia mexer com os dois a respeito.
Nem pensava em se meter nas histórias de Mikael com as mulheres — que eram muitas e complicadas; só esperava que a relação dele com Harriet não resultasse em problemas na diretoria. Mas não chegava a se preocupar; Mikael não só era mestre em deixar suas amizades femininas bobas de satisfação como sabia terminar um caso sem criar nenhum drama. Sempre se tornava um bom amigo de suas ex-amantes e muito raramente se vira em dificuldades.
Quanto a Erika, adorava ser amiga e confidente de Mikael. Em certos aspectos, ele era absolutamente tapado e em outros, tão perspicaz que parecia um oráculo. Mikael nunca compreendera o amor que ela nutria pelo marido. Achava difícil aguentar Lars Beckman e nunca entendera por que Erika o considerava um ser fascinante, ardoroso, excitante e generoso, e, principalmente, desprovido dos tantos defeitos que ela detestava em muitos homens. Lars era o homem com quem ela queria envelhecer. Queria ter tido filhos com ele, mas isso se revelara impossível e agora já era tarde demais. Em sua escolha por um parceiro de vida, porém, não podia imaginar alternativa melhor e mais estável - um homem em quem podia confiar totalmente e estava sempre presente quando precisava dele.
Mikael era diferente. Era um homem com traços de caráter tão cambiantes que, a seu ver, às vezes parecia dotado de múltiplas personalidades. No lado profissional, era teimoso e quase doentiamente focado no trabalho. Apossava-se de uma história e ia avançando obstinadamente por ela até o ponto, próximo à perfeição, em que todos os fios se desatavam. Nos seus melhores momentos, era simplesmente brilhante e quando acontecia de ele ser ruim, ainda assim era muito acima da média. Parecia possuir um talento quase intuitivo para pôr o dedo em histórias que tinham dente-de-coelho e deixar para lá as que nunca passariam de bagatelas sem interesse. Nunca, em momento algum, Erika Berger se arrependera de ter se associado a Mikael.
Também nunca se arrependera de ter se tornado sua amante.
O único que entendia a paixão sexual de Erika Berger por Mikael Blomkvist era seu marido, e entendia porque ela tinha coragem de conversar sobre suas necessidades com ele. Não se tratava de infidelidade, mas de um desejo. Dormir com Mikael mergulhava-a em delícias que nenhum outro homem, inclusive Lars, sabia lhe dar.
O sexo era importante para Erika Berger. Ela perdera a virgindade aos catorze anos e passara boa parte de sua adolescência frustrada buscando a satisfação. Adolescente, experimentara de tudo: flertes avançados com colegas de escola, relação complicada com um professor bem mais velho, sexo por telefone e sexo com um neurótico. Provara de tudo o que lhe interessava no campo do erotismo. Se ensaiara em práticas sadomasoquistas, fora membro do clube Xtreme, que organizava festas pouco recomendáveis. Em várias oportunidades, experimentara o sexo com outras mulheres e concluíra, decepcionada, que não era a praia dela e que as mulheres eram incapazes de excitá-la como um homem. Ou dois homens. Experimentara o sexo com dois homens - Lars e um conhecido galerista. Percebera que seu marido tinha uma tendência bissexual muito acentuada, e que ela própria ficava quase paralisada de gozo ao sentir dois homens acariciando-a e satisfazendo-a, assim como sentia um túrbido prazer ao ver seu marido ser acariciado por outro homem. Lars e ela tinham repetido essa prática com parceiros regulares e a apreciaram.
Assim, não é que sua vida sexual com Lars fosse tediosa ou insatisfatória. É que simplesmente Mikael Blomkvist lhe oferecia uma experiência muito diversa.
Ele tinha talento. Era simplesmente um Amante Danado de Bom.
Tão bom que ela tinha a impressão de ter alcançado o equilíbrio perfeito com Lars como marido e Mikael como amante substituto segundo as necessidades. Não podia passar sem nenhum dos dois e não tinha a menor intenção de optar por um deles.
O que mais a atraía na relação com Mikael é que ele não tinha a menor propensão para controlá-la. Não era nem um pouco ciumento, e se ela própria tivera várias crises de ciúmes no início do seu relacionamento, vinte anos atrás, descobrira que, no caso dele, não tinha por que ter ciúmes. Sua relação era baseada na amizade, e ele era de uma lealdade sem limites na amizade. Sua relação podia sobreviver aos piores golpes.
Erika Berger tinha consciência de pertencer a um círculo de pessoas cujo estilo de vida não seria aprovado pela Associação das Donas de Casa Cristãs da Suécia Profunda. O que para ela não era nenhum problema. Desde jovem resolvera que o que ela fazia na cama e o seu jeito de viver a vida só diziam respeito a si mesma. Mas ficava irritada de ver tantos amigos seus comentarem sua relação com Mikael Blomkvist, e sempre pelas costas.
Mikael era homem. Podia ir de uma cama a outra sem que ninguém sequer piscasse. Ela era mulher, e o fato de ter um amante, um só, e isso com a aprovação do marido - e ainda por cima ser fiel a esse amante há vinte anos -, suscitava conversas no mínimo interessantes nos jantares da cidade. As pessoas realmente não têm mais o que fazer! Refletiu um instante, então pegou o telefone e ligou para o marido.