—Sou eu. Querido, o que você está fazendo?
—Estou escrevendo.
Lars Beckman não era apenas artista plástico; era sobretudo especialista em história da arte e autor de vários livros sobre o assunto. Participava regularmente de debates públicos, e grandes empresas de arquitetura o consultavam com freqüência. Nos últimos seis meses, vinha trabalhando na importância da decoração artística dos edifícios e a questão do bem-estar que as pessoas sentiam em certos prédios e em outros não. O livro assumira ares de panfleto sobre funcionalidade e, na opinião de Erika, iria sacudir o debate estético.
—Tudo bem com você?
—Tudo. Tudo tranqüilo. E com você?
—Acabo de fechar o último número. Ele vai para a gráfica na quinta-feira.
—Parabéns.
—Estou absolutamente exausta.
—Tenho a impressão que você está tramando alguma coisa.
—Você planejou alguma coisa para hoje à noite? Ficaria muito chateado se eu não dormisse em casa hoje?
—Diga ao Blomkvist que ele está brincando com fogo — disse Lars.
—Acho que ele não liga.
—Certo. Diga a ele que você é uma bruxa insaciável e que ele vai envelhecer antes do tempo.
—Ele já sabe.
—Nesse caso, só me resta o suicídio. Vou ficar escrevendo até cair de sono. Divirta-se.
Trocaram beijos ao telefone e então Erika ligou para Mikael. Ele estava na casa de Dag Svensson e Mia Bergman, em Enskede, acabavam de acertar alguns detalhes meio confusos do livro de Dag. Ela perguntou se ele tinha algum compromisso à noite ou se aceitaria fazer massagem numas costas doloridas.
—Você tem a chave - disse Mikael. —Sinta-se em casa.
—É o que eu pretendo fazer - ela respondeu. —Nos vemos em uma hora.
Levou dez minutos para ir a pé até a Bellmansgatan. Despiu-se, tomou um banho, preparou um espresso, enfiou-se na cama de Mikael e esperou nua e impaciente.
Ocorreu-lhe que a satisfação ideal para ela provavelmente seria um ménage à trois com seu marido e Mikael Blomkvist, o que, com uma probabilidade próxima dos cem por cento, jamais aconteceria. Mikael era tão hétero que, só para provocá-lo, ela o acusava de ser homofóbico. Ele nunca sequer experimentara com homens. Suspiro. Era apenas a prova de que não se pode ter tudo neste mundo.
Irritado, o gigante loiro franziu o cenho enquanto, ao volante do carro, avançava a quinze quilômetros por hora numa pista florestal tão malcuidada que por um breve instante chegou a pensar que de algum modo tinha entendido errado as indicações que lhe deram. Começava a anoitecer quando a estrada se fez mais larga e a casa, enfim, apareceu. Estacionou, desligou o motor e olhou em volta. A casa estava a uns bons cinquenta metros.
Ficava próxima de Stallarholmen, não muito longe de Mariefred. Era uma casinha bem simples dos anos 1950, construída em plena mata. Em meio às árvores, avistava uma faixa clara de gelo sobre o lago Mãlaren.
Tinha a maior dificuldade em entender como alguém podia gostar de passar seu tempo livre num mato isolado daqueles. Desceu do carro, fechou a porta e imediatamente se sentiu pouco à vontade. A mata lhe parecia imensa e ameaçadora. Sentia-se observado. Começou a andar em direção ao pátio, então escutou um súbito farfalhar que o fez estacar.
Olhou fixamente para a mata. Estava tudo quieto e calmo no crepúsculo. Permaneceu uns dois minutos parado, os sentidos alertas, até avistar com o rabo dos olhos um vulto se mexendo de mansinho entre as árvores. Quando focou o olhar, o vulto ficou absolutamente imóvel, a uns trinta metros mato adentro, e o encarou.
O gigante loiro teve uma vaga sensação de pânico. Procurou distinguir mais detalhes. Viu um rosto sombrio e anguloso. A criatura parecia um anão de cerca de um metro de altura, e usava roupas de camuflagem que lembravam uma fantasia feita de musgo e ramos de pinheiro. Um gnomo da floresta? Um duende? Será que eram perigosos?
Por um instante, o gigante loiro prendeu a respiração. Sentiu os cabelos se eriçarem na cabeça.
Então piscou vigorosamente os olhos e balançou a cabeça. Quando tornou a olhar, a criatura tinha se deslocado uns dez metros para a direita. Não havia nada. Ele sabia que estava tendo uma alucinação. Mesmo assim, enxergava com nitidez a criatura no meio das árvores. E, de repente, a criatura se mexeu, aproximando-se. Parecia avançar depressa e descrever um semicírculo irregular para se pôr em posição de ataque.
O gigante loiro se recompôs e tratou de alcançar a casa. Bateu à porta meio forte demais, de um jeito meio ansioso demais. Assim que escutou movimentos humanos lá dentro, o pânico o abandonou. Deu uma olhada por cima do ombro. Não havia nada.
Só relaxou, porém, quando a porta se abriu. O Dr. Nils E. Bjurman o cumprimentou educadamente e o convidou a entrar.
Miriam Wu estava sem fôlego quando voltou da lixeira, para onde descera o último saco de lixo das coisas deixadas por Lisbeth Salander. O apartamento estava assepsiado e cheirava a sabão, tinta e café quente. Este último era obra de Lisbeth. Sentada num banquinho, ela contemplava, pensativa, o apartamento vazio em que as cortinas, os tapetes, os cupons de desconto grudados na geladeira e sua tradicional bagunça no hall de entrada tinham desaparecido milagrosamente. Estava surpresa de ver o quanto o apartamento agora parecia grande.
Miriam Wu e Lisbeth Salander não tinham o mesmo gosto, quer se tratasse de roupas, mobília ou estímulo intelectual. Mais especificamente: Miriam Wu tinha preferências e opiniões precisas quanto a decoração, os móveis que queria e as roupas que tinham estilo. Lisbeth Salander, segundo Mimmi, não tinha gosto nenhum.
Depois de ela inspecionar o apartamento da Lundagatan com um olhar especulativo, ambas conversaram e Mimmi concluiu que teria de tirar mais ou menos tudo o que havia ali. Principalmente o sofá amarronzado puído da sala. Lisbeth queria ficar com alguma coisa? Não. Mimmi passara então alguns dias, e algumas horas toda noite durante quinze dias, jogando fora os velhos móveis resgatados nos caminhões de lixo seco, limpando os armários, areando, esfregando a banheira e pintando a cozinha, a sala, o quarto e o hall de entrada, passando sinteco no assoalho da sala.
Lisbeth era absolutamente refratária a esse tipo de exercício, mas aparecera para dar uma olhada e descobrira, fascinada, a obra de Mimmi. O apartamento estava vazio, com exceção de uma pequena mesa de cozinha de madeira maciça que Mimmi pretendia lixar e envernizar, dois sólidos banquinhos de que Lisbeth se apossara quando um morador do prédio fizera uma limpa no sótão e uma estante robusta na sala, na qual Mimmi achava que podia dar um jeito.
—Estou me mudando no fim de semana. Tem certeza de que não vai se arrepender?
—Eu não preciso deste apartamento.
—Mas é um apê irado. Quero dizer, existem outros maiores e melhores, mas não aqui no Söder, e o condomínio é baixíssimo. Lisbeth, você está abrindo mão de uma fortuna não vendendo isto aqui.
—Tenho o suficiente para me virar.
Mimmi se calou, sem saber direito como interpretar os comentários lacônicos de Lisbeth.
—Onde você vai morar? Lisbeth não respondeu.
—Posso ir te visitar?
—Por enquanto não.
Lisbeth abriu a bolsa e pegou uns documentos que entregou a Mimmi.
—Já cuidei do contrato com o condomínio. Como eu te falei, não posso sublocar. O mais simples, portanto, é eu declarar que você mora comigo e que estou te vendendo metade do apartamento. O preço de venda é uma coroa. Você tem que assinar o contrato.
Mimmi pegou a caneta e pôs sua assinatura e data de nascimento no documento.