—É só isso?
—Só isso.
—Lisbeth, eu não questionei o seu bom senso, mas você se dá conta de que está me dando metade deste apartamento de presente? Nada contra, mas não queria que você de repente se arrependesse e isso gerasse um problema entre nós.
—Não vai haver problema nenhum. Eu quero que você more aqui. Para mim está bem.
—Mas assim, sem nada em troca? Você está louca.
—Você vai cuidar da minha correspondência. É a única condição.
—Vai me custar quatro segundos por semana. Você pretende aparecer de vez em quando para fazer amor?
Lisbeth fitou Mimmi. Não falou nada por alguns instantes.
—Mimmi, tenho muita vontade de fazer amor com você, mas isso não faz parte do contrato. Você pode recusar quando quiser.
Mimmi suspirou.
—E eu que estava justamente começando a gostar da idéia de ser uma mulher teúda e manteúda. Sabe, com uma patroa que me paga um apartamento e dá as caras de vez em quando para uma transa. Lisbeth, saiba que eu te acho completamente biruta.
Lisbeth não respondeu. Então Mimmi se levantou, decidida, foi até a sala e apagou a lâmpada que pendia do teto.
—Vem cá. Lisbeth a seguiu.
—Eu nunca fiz amor no chão de um apartamento recém-pintado e sem nenhum móvel dentro. Mas um dia assisti a um filme com o Marlon Brando, ele estava com uma garota, era em Paris.
Lisbeth baixou os olhos para o chão.
—Estou a fim de me divertir. E você?
—Estou quase o tempo todo a fim.
—Hoje estou a fim de brincar de dominadora. Sou eu quem decide. Tire a roupa.
A fisionomia de Lisbeth se iluminou de repente num sorriso de esguelha se despiu. Levou dez segundos.
—Deite no chão. De bruços.
Lisbeth obedeceu. O assoalho estava frio e ela logo ficou toda arrepiada.
Mimmi pegou a camiseta de Lisbeth, com os dizeres You have the right to remain silent, para lhe amarrar as mãos nas costas.
Lisbeth lembrou de repente que o canalha do Dr. Nils Bjurman a tinha amarrado do mesmo jeito dois anos antes.
Mas as semelhanças acabavam aí.
Com Mimmi, Lisbeth só experimentava uma espera abarrotada de desejo. Submeteu-se com docilidade quando Mimmi rolou-a de costas e abriu suas pernas. Na penumbra, observou enquanto Mimmi se despia por sua vez, ficou fascinada com a curva dos seios dela. Então Mimmi tapou-lhe os olhos com a camiseta que acabava de tirar. Lisbeth escutou as roupas farfalhando enquanto Mimmi acabava de se despir. Segundos depois, sentiu a língua de Mimmi em sua barriga, logo acima do umbigo, e seus dedos entre suas coxas. Ficou subitamente mais excitada do que havia muito tempo não ficava. Cerrou os olhos por trás da venda e deixou que Mimmi ditasse o ritmo.
8 - SEGUNDA-FEIRA 14 DE FEVEREIRO – SÁBADO 19 DE FEVEREIRO
Dragan Armanskij ergueu os olhos ao ouvir a batidinha dada na porta com a ponta de um sapato e avistou Lisbeth Salander. Ela vinha equilibrando dois copinhos trazidos da máquina de capuccíno. Devagar, ele largou a caneta e empurrou o relatório para o lado.
—Oi - disse ela.
—Oi - respondeu Armanskij.
—Visita de amiga - disse ela. —Posso entrar? Dragan Armanskij fechou os olhos por um segundo. Depois apontou a poltrona dos visitantes. Deu uma olhada no relógio. Seis e meia da tarde. Lisbeth Salander lhe ofereceu um dos copinhos e se sentou. Permaneceram algum tempo se observando.
—Mais de um ano - disse Dragan. Lisbeth assentiu com a cabeça.
—Está chateado?
—Deveria estar?
—Eu não me despedi. Dragan fez um muxoxo. Era um alívio constatar que pelo menos Lisbeth não estava morta. Sentiu também uma violenta irritação, e cansaço.
—Não sei o que dizer. Você não tem nenhuma obrigação de me prestar contas das suas idas e vindas. O que você quer?
Sua voz soava mais fria do que ele gostaria.
—Não sei exatamente. Acho que só passei mesmo para dar um oi.
—Está precisando de trabalho? Não tenho mais intenção de contar com você.
Ela balançou a cabeça.
—Está trabalhando em outro lugar?
Ela balançou novamente a cabeça. Parecia estar procurando as palavras. Dragan esperou.
—Eu estive viajando - ela disse por fim. —Faz pouco tempo que voltei à Suécia.
Armanskij meneou a cabeça, pensativo, e examinou-a. Percebeu de repente que Lisbeth Salander tinha mudado. Havia uma espécie de nova... maturidade na escolha das roupas e no comportamento. E também tinha posto um enchimento no sutiã.
—Você está mudada. Por onde andou?
—Por aí... - ela respondeu, evasiva, mas se endireitou ao ver o olhar irritado dele. —Estive na Itália, aí segui pelo Oriente Médio e depois Hong-Kong, via Bangcoc. Fiquei um pouco na Austrália e na Nova Zelândia e dei um pulo nas ilhas do Pacífico. Passei um mês no Taiti. Depois atravessei os Estados Unidos e, nos últimos meses, fiquei nas Antilhas.
Ele meneou a cabeça.
—Não sei por que eu não me despedi.
—Porque, para dizer as coisas como elas são, você não liga a mínima para os outros - disse Dragan Armanskij com um tom objetivo.
Lisbeth Salander mordeu os lábios. Ficou um momento pensativo. O que ele estava dizendo talvez fosse verdade, mas mesmo assim sentia que a acusação era injusta.
—Em geral, os outros é que não ligam a mínima para mim.
—Que nada - respondeu Armanskij. —Você tem um problema de atitude e trata feito lixo quem realmente tenta ser seu amigo. É simples assim.
Silêncio.
—Quer que eu vá embora?
—Faça como quiser. É o que você sempre fez. Mas se for embora agora não quero te ver nunca mais.
Súbito, Lisbeth Salander teve medo. Sentiu que aquele homem, que ela respeitava, estava rejeitando-a. Não sabia o que dizer.
—Faz dois anos que Holmer Palmgren teve o derrame. Você não foi visitá-lo nem uma vez - prosseguiu Armanskij, inexorável.
Lisbeth fitou Armanskij com olhos repentinamente chocados.
—Palmgren está vivo?
—Quer dizer que você nem sabe se ele está vivo ou morto?
—Os médicos disseram que ele...
—Os médicos disseram muita coisa sobre ele - interrompeu Armanskij. —Ele estava muito mal e não podia se comunicar. Neste último ano, o estado dele melhorou bastante. Está com dificuldade para falar, gagueja, e a gente tem que prestar muita atenção para entender o que ele diz. Precisa de ajuda para muita coisa, mas pode ir ao banheiro sozinho. As pessoas que se importam com ele vão visitá-lo.
Lisbeth ficou calada. Fora ela quem achara Palmgren sem sentidos em seu apartamento, quando ele tivera o ataque dois anos atrás. Chamara a ambulância, e os médicos tinham balançado a cabeça dizendo que o prognóstico não era nada animador. Na primeira semana, ela acampara no hospital até um deles lhe dizer que Palmgren estava em coma e havia pouquíssimos sinais indicando que ele haveria de acordar um dia. Naquele momento, deixara de se preocupar e o riscara de sua vida. Levantara-se e deixara o hospital sem olhar para trás. E ao que parece, sem conferir os fatos.
Franziu o cenho. A partir de então o Dr. Nils Bjurman começara a perturbar sua vida, e o canalha tinha monopolizado boa parte de sua atenção. Mas ninguém, nem mesmo Armanskij, lhe dissera que Palmgren ainda vivia, e muito menos que talvez estivesse se recuperando. Quanto a ela, nunca sequer aventara essa possibilidade.
De repente sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Nunca tinha se achado tão desprezível, pequena e egoísta. E nunca tinha levado uma bronca num tom tão duro e contido. Abaixou a cabeça.
Permaneceram calados por alguns instantes. Foi Armanskij quem quebrou o silêncio.
—Como você está?
Lisbeth deu de ombros.
—Está vivendo do quê? Está trabalhando?
—Não, não estou trabalhando e não sei em que tipo de coisa quero trabalhar. Mas tenho dinheiro suficiente para me virar.