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Armanskij perscrutou-a com seu olhar penetrante.

—Só passei para dar um oi... não estou procurando trabalho. Não sei... ainda assim, eu talvez gostasse de fazer um serviço para você, se uma hora você precisar de mim, mas teria de ser algo interessante.

—Imagino que você não queira me contar o que aconteceu em Hedestad no ano passado?

Lisbeth não disse nada.

—Aconteceu alguma coisa. O Martin Vanger morreu num acidente de carro depois que você esteve aqui pedindo equipamento de vigilância emprestado porque vocês tinham sofrido ameaças. E a irmã dele ressuscitou dos mortos. Que foi um furo, isso foi.

—Eu prometi não falar sobre isso. Armanskij assentiu com a cabeça.

—E imagino que você também não possa falar sobre o seu papel no caso Wennerström?

—Eu ajudei o Super-Blomkvist nas pesquisas. - A voz dela esfriou de repente. —Só isso. Não quero ser envolvida.

—Mikael Blomkvist procurou por você feito louco. Liga pelo menos uma vez por mês para saber se tive notícias suas. Ele também está apreensivo.

Lisbeth ficou calada, mas Armanskij notou que sua boca se transformara num traço rígido.

—Não sei o que pensar sobre esse homem - prosseguiu Armanskij. —Mas, como eu, ele se preocupa seriamente com você. Encontrei com ele no outono. Ele também não queria falar sobre Hedestad.

Lisbeth Salander não queria falar sobre Mikael Blomkvist.

—Só passei para dar um oi e comunicar que estou de volta à cidade. Não sei se vou ficar. Aqui está o número do meu celular e o meu novo endereço de e-mail, se precisar falar comigo.

Ela estendeu um papel para Armanskij e se levantou. Ele o pegou. Ela já tinha alcançado a porta quando ele a chamou.

—Espere um pouco. O que você vai fazer?

—Vou visitar Holger Palmgren. - Muito bem. Mas eu quis dizer... que trabalho?

Ela olhou para ele com um olhar pensativo.

—Não sei.

—Mas você precisa ganhar a vida.

—Já disse que tenho o suficiente para me virar. Armanskij se recostou na poltrona e refletiu. Tratando-se de Lisbeth Salander, ele nunca sabia direito como interpretar suas palavras.

—Fiquei tão furioso depois que você sumiu que praticamente decidi nunca mais contar com você... —Ele fez uma careta. —Você não é confiável. Mas é uma fuçadora excepcional. Tenho um trabalho que talvez lhe interesse.

Ela balançou a cabeça. Mas voltou para a mesa dele.

—Eu não quero seu trabalho. Quero dizer, não estou precisando de dinheiro. Falando sério. Sou financeiramente independente.

Dragan Armanskij franziu o cenho num gesto de dúvida. Por fim, meneou a cabeça.

—Certo, você é financeiramente independente, seja lá o que isso signifique. Acredito na sua palavra. Mas se precisar de trabalho...

—Dragan, você é a segunda pessoa que eu procurei desde que voltei. Não preciso do seu dinheiro. Agora, durante anos você foi uma das raras pessoas que eu respeitei.

—Está bem. Mas todo mundo precisa ganhar a vida.

—Sinto muito, mas não estou mais interessada em fazer investigações para você. Só me chame se estiver com um problema de verdade.

—Que tipo de problema?

—Um problema do tipo que você não consegue resolver. Se empacar, se ficar sem saber o que fazer e a situação for desesperadora. Para eu trabalhar para você, teria de me oferecer uma coisa que me interesse. Quem sabe na linha da intervenção.

—Intervenção? Você? Que desaparece sem deixar rastro quando bem entende?

—Pare com isso. Eu nunca furei depois de aceitar um trabalho. Dragan Armanskij fitou-a, desamparado. A noção de unidade de intervenção era um jargão deles que significava trabalho de campo. Ia desde proteção cerrada por um guarda-costas até missões de vigilância particular em exposições de arte. Sua equipe de intervenção constituía-se de veteranos robustos e sólidos, não raro com um passado na polícia. Além disso, noventa por cento eram homens. Lisbeth Salander era o extremo oposto de todos os critérios que ele estabelecera para o pessoal das unidades de intervenção da Milton Security.

—Bem... - disse ele, hesitante.

—Não precisa ficar quebrando a cabeça. Só aceito trabalhos que me interessem, quer dizer que as chances de eu recusar são altas. Avise-me se estiver com um problema realmente difícil. Eu sou boa em enigmas.

Girou os calcanhares e saiu pela porta. Dragan Armanskij balançou a cabeça. Ela é doida mesmo. Doida de atar.

No instante seguinte, Lisbeth Salander estava de novo à sua porta.

—A propósito... Dois dos seus homens ficaram um mês protegendo aquela atriz, a Christine Ruterford, do louco que escreve cartas de ameaça anônimas para ela. Pelos detalhes que o remetente sabe da vida dela, vocês estão achando que é coisa de uma pessoa próxima.

Dragan Armanskij fitou Lisbeth Salander. Uma corrente elétrica percorreu seu corpo. Lá vem ela de novo. E falando de um assunto que ela não tinha mesmo como conhecer. Ela não pode estar sabendo.

—Ééé...?

—Esqueça. É uma farsa. Ela e o namorado é que escrevem as cartas para chamar a atenção. Ela vai receber mais uma carta daqui uns dias e eles vão deixar vazar para a imprensa na semana que vem. Tem grandes chances de ela acusar a Milton por esse vazamento. Você deveria riscá-la da sua lista de clientes.

Antes que Dragan Armanskij tivesse tempo de formular uma pergunta, ela já havia sumido. Ele fitou a porta vazia. Ela não tinha como saber do caso Ruterford. Obviamente, tinha um informante dentro da Milton. Mas ele próprio, o chefe do grupo de intervenção e as poucas pessoas que estavam investigando as ameaças... eram todos profissionais seguros e confiáveis. Armanskij coçou o queixo. Ou então, por um incrível acaso, ela talvez conhecesse Christine Ruterford ou algum amigo dela, ou...

Ele olhou para a sua mesa de trabalho. O dossiê do caso Ruterford estava trancado a chave na gaveta. A mesa era ligada ao alarme. Mordeu os lábios, pensativo, verificou novamente as horas e concluiu que Harry Fransson, o chefe do setor técnico, já tinha ido embora. Abriu o programa de correio eletrônico e mandou uma mensagem para Fransson, pedindo que ele instalasse em sua sala uma câmera de vigilância oculta no dia seguinte.

Lisbeth voltou direto para casa, na Fiskaregatan. Apressou o passo, com um súbito sentimento de urgência.

Ligou para o hospital de Söder e, depois de algum tempo insistindo em diferentes setores, conseguiu localizar Holger Palmgren. Ele estava há catorze meses no centro de reabilitação de Ersta. Vieram-lhe à mente imagens da casa de saúde onde sua mãe estivera internada, não devia ser muito diferente. Quando ligou, disseram que ele estava dormindo, mas que ela poderia ir visitá-lo no dia seguinte.

À noite, Lisbeth ficou andando para lá e para cá no apartamento. Sentia-se incomodada. Finalmente, foi se deitar cedo e adormeceu quase imediatamente. Acordou às sete horas, tomou uma ducha e foi tomar o café da manhã no 7-Eleven. Por volta das oito, foi à locadora de Ringvagen. Eu preciso ter um carro. Alugou o mesmo Nissan Micra no qual tinha ido buscar as coisas de sua mãe.

Sentiu um súbito nervosismo ao estacionar no centro de Ersta, mas criou coragem, entrou na recepção e pediu para visitar Holger Palmgren.

A recepcionista, Margit, de acordo com o crachá, consultou uns documentos e explicou que ele estava na sessão de fisioterapia e só voltaria depois das onze. Lisbeth poderia aguardar na sala de espera ou então voltar mais tarde. Lisbeth retornou ao estacionamento, sentou-se no carro e fumou três cigarros enquanto esperava. Às onze horas, voltou à recepção. Indicaram-lhe o refeitório, à direita no corredor e depois à esquerda.

Parou na porta e procurou Holger Palmgren com os olhos no refeitório semivazio. Seu rosto estava voltado em sua direção, mas toda a sua atenção se concentrava num prato. Ele segurava o garfo com mão desajeitada e fazia um esforço enorme para levar os alimentos à boca. Fracassava em média uma a cada três vezes, derrubando o conteúdo do garfo.