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Estava sombrio e prostrado, e aparentava ter cem anos. O rosto parecia estranhamente rígido. Estava numa cadeira de rodas. Só então Lisbeth Salander aceitou o fato de que ele estava vivo e que Armanskij não havia mentido.

Holger Palmgren blasfemou intimamente quando, pela terceira vez, tentou juntar com o garfo uma porção de macarrão gratinado. Aceitava o fato de não poder andar e não poder realizar uma série de gestos. Mas odiava não conseguir comer direito e babar que nem bebê.

Racionalmente, sabia o que precisava fazer. Inclinar o garfo na direção certa, empurrar, erguer e levá-lo à boca. Mas havia um problema de coordenação. A mão parecia ter vida própria. Quando ele dava a ordem de levantar, a mão empurrava lentamente para o lado. Quando levava o garfo à boca, a mão mudava de direção na última hora e escapava para a bochecha ou o queixo.

Mas ele sabia que a fisioterapia estava dando resultados. Apenas seis meses antes, sua mão tremia de tal maneira que ele não conseguia levar uma garfada à boca sozinho. Atualmente, as refeições ainda transcorriam devagar, sem dúvida, mas ele já conseguia se alimentar sozinho. Não tinha a intenção de desistir enquanto não recuperasse o controle de todos os seus membros.

Estava baixando o garfo para juntar mais uma garfada, quando uma mão adiantou-se por trás, pegando o garfo com delicadeza. Reconheceu imediatamente a mão fina de boneca, virou-se e deu com os olhos de Lisbeth Salander a menos de dez centímetros de seu rosto. Seu olhar era de expectativa. Ela parecia angustiada.

Palmgren permaneceu imóvel alguns instantes, fitando o rosto dela. Seu coração de repente pôs-se a bater de um jeito incrível. Então ele abriu a boca e aceitou o alimento.

Ela o alimentou, garfada por garfada. Em geral, Palmgren detestava ser assistido nas refeições, porém compreendeu a necessidade de Lisbeth Salander. Não se tratava dele, um fardo impotente. Ela o alimentava numa espécie de gesto de humildade - atitude afetuosa extremamente rara nela. Preparava as garfadas no tamanho certo e esperava que ele acabasse de mastigar. Quando ele apontou o copo com o canudo, ela o estendeu calmamente para que ele bebesse.

Não trocaram uma palavra durante toda a refeição. Quando ele engoliu a última garfada, ela largou o garfo e o interrogou com os olhos. Ele fez que não com a cabeça. Não, obrigado, não quero mais.

Holger Palmgren se recostou na cadeira de rodas e respirou profundamente. Lisbeth pegou o guardanapo e limpou-lhe a boca. De repente ele se sentiu como o padrinho da máfia de um filme americano a quem um capo di tutti capi manifestasse seu respeito. Imaginou-a depositando um beijo em sua mão, e essa imagem esquisita o fez sorrir.

—Você acha que é possível conseguir um café? - ela perguntou. Ele gaguejou. Seus lábios e língua não queriam articular corretamente os sons. Sua boca estava rígida.

—Crinho dsrvs ncan. Carrinho de serviço ali no canto.

—Você quer? Com leite e sem açúcar como antes?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela retirou a bandeja e voltou um minuto depois com duas xícaras de café. Ele reparou que ela estava tomando café preto, o que era inusitado. Sorriu ao ver que ela guardara o canudo do copo de leite para a xícara de café. Não falaram nada. Holger Palmgren tinha mil coisas para dizer, mas de repente era incapaz de articular uma sílaba que fosse. Em compensação, os olhos dos dois se cruzaram várias vezes. Lisbeth Salander parecia estar se sentindo tremendamente culpada. Por fim, ela quebrou o silêncio.

—Eu pensei que você tivesse morrido - disse. — uro, eu não sabia que você estava vivo. Se eu soubesse, jamais teria... eu teria vindo te visitar há muito tempo.

Ele meneou a cabeça.

—Me perdoe.

Ele meneou a cabeça novamente. Sorriu. Um sorriso enviesado, uma curvatura de lábios.

—Você estava em coma e os médicos diziam que ia morrer. Achavam que ia morrer dali a vinte e quatro horas, e eu simplesmente fui embora. Será que um dia você vai conseguir me perdoar?

Ele ergueu a mão e colocou-a sobre a mãozinha de Lisbeth. Segurou-a com firmeza, apertou-a e enfim respirou.

—Ctim smidu. Você tinha sumido.

—Você conversou com o Dragan Armanskij. Ele assentiu com a cabeça.

—Eu viajei. Fui obrigada a ir embora. Não me despedi de ninguém e me fui, simplesmente. Você ficou preocupado comigo?

Ele balançou a cabeça.

—Você nunca vai ter que se preocupar comigo.

—Nca mprocpei. Cesempr sdabe. Mas Armsji tva procpad. Eu nunca me preocupei. Você sempre se dá bem. Mas o Armanskij estava preocupado.

Ela sorriu pela primeira vez e Holger Palmgren relaxou. Era o seu sorriso de esguelha de sempre. Ele a examinou, comparou a lembrança que tinha dela com a moça que via à sua frente. Ela havia mudado. Estava bem-arrumada, limpa e cuidada. Não estava mais com a argola no lábio e... hmm... a tatuagem do marimbondo no pescoço também sumira. Ela estava com um jeito adulto. Súbito, ele riu pela primeira vez em muitas semanas. Parecia um acesso de tosse.

O sorriso de Lisbeth ficou ainda mais oblíquo e então ela sentiu um calor lhe invadir o coração, um calor que havia muito não sentia.

—Ceci deube. Você se deu bem. Apontou para as roupas dela. Ela assentiu.

—Estou me dando muito bem.

—Cmé unov ttor? Como é o novo tutor?

Holger Palmgren viu o rosto de Lisbeth se alterar e ensombrecer. A boca se contraiu um pouco. Ela olhou para ele com olhos cândidos.

—E legal... estou com ele na palma da mão.

As sobrancelhas de Palmgren se contraíram em um ponto de interrogação. Lisbeth olhou em redor, a sala de jantar, e mudou de assunto.

—Faz quanto tempo que você está aqui?

Palmgren não tinha nascido ontem. Sofrera um derrame e estava com dificuldade para falar e coordenar os movimentos, mas sua capacidade de compreensão estava intacta e seu radar captou de imediato a mudança no tom de voz de Lisbeth Salander. Nos anos em que convivera com ela, aprendera que ela nunca mentia diretamente, mas que tampouco era inteiramente sincera. Seu jeito de mentir consistia em desviar a atenção. Era óbvio que o novo tutor não constava na sua lista de pessoas preferidas. O que não surpreendia Holger Palmgren nem um pouco.

Súbito, sentiu-se triste. Diversas vezes tivera a intenção de entrar em contato com seu colega Nils Bjurman para perguntar como ia Lisbeth Salander, e se abstivera outras tantas vezes. E por que não questionara a colocação de Lisbeth sob tutela, quando ainda tinha energia para fazê-lo? Sabia por que - muito egoisticamente, queria manter-se em contato com ela. Gostava daquela pivete danada de complicada como se fosse a filha que ele não teve, e queria um motivo para manter esse contato. E agora também era muito difícil, e pesado demais para um fardo como ele, numa casa de saúde, começar a investigar a situação, no estado em que se achava, sem sequer conseguir abrir sozinho o zíper da calça quando ia ao banheiro. Tinha a impressão de que, na verdade, ele é que traíra Lisbeth Salander. Mas ela ainda sobrevive... É a pessoa mais competente que já conheci.

—O trbn.

—Não entendi.

—O tribnal.

—O tribunal? O que você quer dizer?

—Temq nul su cl... colc colcas...

O rosto de Holger Palmgren ficou vermelho e se contorceu, porque ele não conseguia articular as palavras. Lisbeth pôs a mão em seu braço e apertou-o suavemente.

—Holger... Não se preocupe comigo. Tenho planos de cuidar em breve da minha colocação sob tutela. Não é mais tarefa sua se preocupar com isso... mas é possível que eu precise dos seus conselhos no momento oportuno. Está bem assim? Você pode ser meu advogado se eu precisar de você?