Ele balançou a cabeça.
—Mto vlho. - Ele bateu na mesa com as articulações da mão. — Vlho... bbo.
—Sim, você vai ser um velho bobo babaca se adotar essa atitude. Preciso de um advogado. E é você que eu quero. Você pode não conseguir fazer um arrazoado no tribunal, mas vai poder me aconselhar quando preciso. Combinado?
Ele balançou a cabeça mais uma vez. E depois, assentiu.
—Ta tra?
—Não entendi.
—Ta trab nquê? Não Rmskich. Está trabalhando no quê? Não é com o Armanskij.
Lisbeth hesitou um instante, enquanto pensava na melhor maneira de explicar a situação. Estava ficando complicado.
—Holger, não estou mais trabalhando para o Armanskij. Não preciso mais trabalhar para ele para ganhar o meu pão. Tenho dinheiro e estou bem.
As sobrancelhas de Palmgren se contraíram outra vez.
—Pretendo vir te visitar regularmente a partir de agora. Vou te contar... mas vamos com calma. Agora, neste momento, tem outra coisa que estou com vontade de fazer.
Ela se inclinou, puxou uma sacola para cima da mesa e lá de dentro tirou um tabuleiro de xadrez.
—Faz dois anos que não tenho a oportunidade de ganhar de você.
Ele se resignou. Ela estava tramando alguma coisa suspeita que não queria contar. Tinha certeza de que ela seria reticente, mas também confiava nela o suficiente para saber que o que quer que Lisbeth fizesse, embora pudesse ser juridicamente duvidoso, não seria um crime contrário às Leis de Deus. Pois, à diferença da maioria das pessoas, Holger Palmgren tinha certeza de que Lisbeth Salander era uma pessoa autenticamente moral. O problema era que a moral dela nem sempre correspondia ao que preconizava a lei.
Ela dispôs o tabuleiro à sua frente e ele percebeu, com um choque, que era o seu próprio tabuleiro. Ela provavelmente o roubara no seu apartamento depois do derrame. Como recordação? Ela lhe passou as brancas. Súbito, sentiu-se feliz como um garoto.
Lisbeth Salander permaneceu duas horas com Holger Palmgren. Já o derrotara três vezes quando uma enfermeira veio interromper a batalha dos dois em torno do tabuleiro, explicando que estava na hora da sessão de fisioterapia da tarde. Lisbeth juntou as peças e dobrou o tabuleiro.
—A senhora poderia me dizer no que consiste essa fisioterapia? - perguntou à enfermeira.
—Exercícios musculares e de coordenação. E estamos fazendo progressos, não estamos?
A pergunta era endereçada a Holger Palmgren. Ele meneou a cabeça.
—O senhor já consegue andar vários metros. No verão, vai poder passear sozinho no parque. É a sua filha?
Os olhos de Lisbeth e Holger se cruzaram.
—Fi dtiva. Filha adotiva.
—Que bacana você ter vindo. Tradução: caraca, por onde você andou esses meses todos?
Lisbeth ignorou a crítica subentendida. Inclinou-se e beijou-o no rosto.
—Venho te ver na sexta-feira.
Holger Palmgren se levantou da cadeira de rodas com esforço. Ela foi com ele até o elevador, e ali se separaram. Assim que as portas do elevador se fecharam, ela correu para a recepção e pediu para falar com o responsável. Indicaram-lhe um certo Dr. A. Sivarnandan, que ela encontrou numa sala mais adiante no corredor. Apresentou-se e explicou que era a filha adotiva de Holger Palmgren.
—Eu queria saber como ele está e o que vai acontecer com ele.
O Dr. Sivarnandan abriu a pasta de Holger Palmgren e leu as primeiras páginas. Tinha a pele marcada pela varíola e um bigode fino que irritava Lisbeth. Acabou levantando os olhos. Surpreendentemente, falava com sotaque finlandês. Lembrava, sem tirar nem pôr, uma personagem do Moomin.*
—Não tenho aqui nenhum registro de que o sr. Palmgren tenha uma filha, ou filha adotiva. Na verdade, seu parente mais próximo parece ser um primo de oitenta e seis anos residente no Jámtland.
—Ele cuidou de mim desde os meus treze anos até ter o derrame. Nessa época eu tinha vinte e quatro.
Ela procurou no bolso interno do casaco e jogou uma caneta na mesa, diante do Dr. A. Sivarnandan.
—Meu nome é Lisbeth Salander. Anote na pasta dele. Sou sua parente mais próxima neste mundo.
—Pode ser - respondeu A. Sivarnandan, inabalável. —Mas se você é a parente mais próxima, vamos reconhecer que demorou para dar notícias. Até onde eu sei, só uma pessoa, que nem é da família, vem visitá-lo de vez em quando. É a pessoa que deve ser avisada caso o estado dele se agrave ou ele venha a falecer.
—Dragan Armanskij, sem dúvida.
O Dr. A. Sivarnandan ergueu as sobrancelhas e meneou pensativamente a cabeça.
—O nome é esse. Então você o conhece.
—Pode ligar para ele e verificar quem eu sou.
—Não vai ser necessário. Acredito em você. Me contaram que você ficou duas horas jogando xadrez com o sr. Palmgren. Mas, seja como for, não posso falar com você sobre o estado de saúde dele sem que ele consinta.
—Ele nunca que vai consentir, teimoso como é, essa mula velha. Ele cismou que não tem que me passar os sofrimentos dele e que ainda é responsável por mim, não o contrário. Vou lhe explicar... por dois anos, pensei que Palmgren estivesse morto. Só ontem soube que estava vivo. Se eu tivesse sabido que... é difícil explicar, mas quero saber qual é o prognóstico e se ele vai se recuperar.
O Dr. Sivarnandan pegou a caneta e anotou minuciosamente o nome de Lisbeth Salander na pasta de Holger Palmgren. Pediu o número de sua identidade e do telefone.
—Está bem, agora você é oficialmente a filha adotiva dele. Talvez não seja lá muito conforme as regras, mas afinal você é a primeira pessoa que vem visitá-lo desde o Natal, quando o Sr. Armanskij esteve aqui... Você o viu há pouco e pôde constatar que ele tem problemas de coordenação e dificuldade para falar. Ele teve um derrame cerebral.
—Eu sei. Fui eu que o encontrei e chamei a ambulância.
—Ah... Pois saiba que ele passou três meses na UTI. Ficou em coma por um longo período. No mais das vezes, os pacientes não costumam sobreviver, mas acontece. Ao que parece, não era a hora dele. Primeiro foi transferido para um serviço de geriatria para doentes crônicos totalmente incapazes de cuidar de si mesmos. Contra todas as expectativas, apresentou sinais de melhora e então o transferimos para a fisioterapia, nove meses atrás.
—E o prognóstico?
O Dr. A. Sivarnandan afastou as mãos num gesto de impotência.
—Para isso eu teria que ter uma bola de cristal melhor do que a minha. Para ser sincero, não faço a menor idéia. Ele pode ter outro derrame esta noite e estar morto amanhã de manhã. Como pode ter uma vida relativamente normal por mais vinte anos. Não sei. Digamos que Deus é quem decide.
—E se ele viver mais vinte anos?
—A fisioterapia tem sido árdua para ele, e só nos últimos meses é que pudemos notar uma sensível melhora. Há seis meses, ele ainda não conseguia comer sozinho. Há um mês, praticamente não conseguia se levantar da cadeira, inclusive porque seus músculos se atrofiaram pelo tanto que ele permaneceu de cama. Hoje ele pelo menos consegue andar distâncias curtas.
—Ele vai ficar melhor?
—Vai. Bem melhor, até. Foi difícil transpor o primeiro degrau, mas agora observamos progressos a cada dia que passa. Ele perdeu quase dois anos de vida. Daqui alguns meses, no verão, espero vê-lo passeando sozinho ali no parque.
—E a fala?
—O problema é que o centro da palavra foi atingido, junto com a motricidade. Ele permaneceu muito tempo em estado vegetativo. Depois, foi estimulado a readquirir o controle de seu corpo e a reaprender a falar. Tem dificuldade em se lembrar do termo que precisa usar, vai ter que se reapropriar das palavras. Mas também não é como ensinar uma criança a falar - ele compreende o sentido da palavra, só não consegue expressá-la. Dê a ele mais uns meses e vai ver que a fala vai melhorar muito se comparada com hoje. A mesma coisa quanto à orientação. Nove meses atrás, era difícil para ele perceber a diferença entre direita e esquerda, e subir ou descer de elevador.