Lisbeth meneou a cabeça, pensativa. Refletiu alguns minutos e de repente se deu conta de que gostava do Dr. A. Sivarnandan, com sua cara de índio e sotaque finlandês.
—O que significa o A.? - perguntou bruscamente. Ele lançou-lhe um olhar divertido.
—Anders.
—Anders?
—Eu nasci no Sri Lanka, mas fui adotado em Àbo quando tinha poucos meses.
—Muito bem. Anders me diga no que posso ajudar o Holger.
—Visite-o. Ofereça-lhe um estímulo intelectual.
—Posso vir todos os dias.
—Não quero você aqui todos os dias. Se ele gosta de você, prefiro que ele se anime com a expectativa das visitas, e que elas não o aborreçam.
—Será que algum tipo de tratamento especializado poderia aumentar as chances dele? Eu pago o que for preciso.
Ele sorriu de repente para Lisbeth Salander, e então, também de repente, voltou a ficar sério.
—Receio que o tratamento especializado sejamos nós mesmos. Claro que eu gostaria de dispor de mais recursos e que parassem de cortar a nossa verba, mas posso garantir que ele tem sido tratado com muita competência.
—E se não houvesse essa preocupação com o corte de verbas? O que poderiam lhe oferecer?
—Se eu dispusesse dos recursos necessários... bem, o ideal para pacientes como Holger Palmgren seria, evidentemente, um terapeuta ocupacional particular em tempo integral. Mas faz muito tempo que não dispomos de verbas para esse fim na Suécia.
—Contrate um.
—Como?
—Contrate um terapeuta ocupacional para Holger Palmgren. O melhor. E faça isso amanhã. Providencie para que ele tenha o necessário em termos de equipamento técnico, essas coisas todas. Vou fazer que o dinheiro para o salário dele e o equipamento necessário seja depositado antes do final da semana.
—Isso é alguma brincadeira?
Lisbeth fitou o Dr. Anders Sivarnandan com seus grandes olhos inexpressivos, destituídos de qualquer traço de humor.
Mia Bergman freou e parou o Fiat rente à calçada em frente à estação de metrô Gamla Stan, no seu caminho de volta para casa. Dag Svensson abriu a porta e sentou-se no banco do passageiro. Inclinou-se e deu-lhe um beijo enquanto ela movimentava o carro de volta para o fluxo de automóveis, pondo-se atrás de um ônibus.
—Oi - disse ela, sem tirar os olhos do trânsito. - Você estava com uma cara séria quando eu cheguei. Aconteceu alguma coisa?
Dag Svensson suspirou e pôs o cinto de segurança.
—Não, nada sério. Estou penando um pouco com o texto.
—Ou seja?...
—Só falta um mês para o deadline. Fiz nove das vinte e duas confrontações previstas. Estou tendo problemas com o Björck, da Säpo. O babaca está de licença médica e não atende o telefone em casa.
—Será que ele não está no hospital?
—Não sei. Você por acaso já tentou conseguir uma informação na Säpo? Eles nem sequer confirmam se o cara trabalha para eles.
—Você não tentou os pais dele?
—Mortos, os dois. Ele não é casado. Tem um irmão que mora na Espanha. O fato é que não sei o que fazer para encontrar o Björck.
Mia Bergman deu uma olhada de esguelha para o companheiro, enquanto pilotava o carro pelo cruzamento da Slussen em direção ao túnel de Nynáshamnsleden.
—Na pior das hipóteses, a gente tira a parte sobre o Björck. O Blomkvist faz questão que todos os caras que vamos citar tenham a oportunidade de serem ouvidos antes de serem denunciados.
—Seria uma pena deixar de lado um representante da polícia secreta frequentador das putas. O que você vai fazer?
—Procurar por ele, e encontrar, claro. E você, como andam as coisas?
—Mais calma que eu, só morrendo. Ele fez cócegas nas costelas dela.
—Não está nervosa?
—Nem um pouco. Daqui a um mês vou defender minha tese e virar doutora, e me sinto absolutamente serena.
—Você domina bem o assunto. Então, por que se preocupar?
—Dê uma olhada no banco de trás.
Dag Svensson se virou e viu uma sacola. Enfiou a mão lá dentro e...
—Mia... está pronta! - ele exclamou. E agitou no ar uma tese impressa.
Da Rússia com amor Tráfico de mulheres, crime organizado e medidas adotadas pelas autoridades por Mia Bergman
—Pensei que só fosse ficar pronta na semana que vem. Caramba... chegando em casa, temos que abrir uma garrafa de vinho. Parabéns, doutora.
Ele se inclinou e lhe deu outro beijo no rosto.
—Calma lá... Só vou ser doutora daqui a três semanas. E segure as suas mãos quando estou dirigindo.
Dag Svensson riu. E tornou a ficar sério.
—A propósito, só para dar uma de desmancha-prazeres... você entrevitou uma moça chamada Irina P., um ano atrás.
—Irina P, vinte e dois anos, de São Petersburgo. Veio à Suécia pela primeira vez em 1999, depois disso foi e voltou mais algumas vezes. Por quê?
—Estive hoje com o Gulbrandsen. O policial que conduziu a invesigação sobre o bordel de Södertálje. Você leu, semana passada, que eles acharam uma garota boiando no canal de Södertálje. Deu manchete nos jornais da tarde.
—Sei.
—Era a Irina P.
—Que horror!
Passaram em frente ao Skanstull em silêncio.
—Ela aparece na minha tese - disse afinal Mia Bergman. —Sob o pseudônimo de Tamara.
Dag Svensson abriu “Da Rússia com amor” na parte das entrevistas e folheou até chegar em Tamara. Leu concentradamente enquanto Mia passava por Gullmarsplan e Globen.
—Quem a trouxe para cá foi alguém que você chama de Anton.
—Não quis usar os nomes verdadeiros. Avisaram-me que posso ser criticada por isso na defesa, mas não quero divulgar o nome das garotas. Elas correriam o risco de ser espancadas até a morte. Portanto, também não posso divulgar o nome dos canalhas: eles iam descobrir rapidinho que garotas eu entrevistei. Por isso só ponho pseudônimos e pessoas anônimas em todos os meus estudos de caso, sem detalhes particulares.
—Quem é Anton?
—Ele provavelmente se chama Zala. Nunca consegui identificá-lo, mas acho que é polonês ou iugoslavo, e que na verdade seu nome é outro. Falei com Irina P. quatro ou cinco vezes, e foi só no quarto encontro que ela me deu o nome dele. Ela estava botando a vida em ordem e pretendia parar com tudo, mas tinha um medo tremendo dele.
—Hmmm... - fez Dag Svensson.
—Hmmm o quê?
—Estou pensando... Topei com o nome de Zala uma semana, ou duas atrás.
—Onde?
—Fiz uma confrontação com o Sandström. Você sabe o escroto do cliente jornalista. Droga. Esse cara é um verdadeiro calhorda.
—Como assim?
—Na verdade, ele não é jornalista. Ele cria folhetos publicitários para empresas. Mas tem umas fantasias realmente doentias ligadas a estupro, que ele põe em prática com essa garota...
—Eu sei. Fui eu que a entrevistei.
—Bem, mas você sabe que foi ele que coordenou a produção de um folder sobre doenças sexualmente transmissíveis para o Instituto de Saúde Pública?
—Eu não sabia.
—Encurralei o cara na semana passada. Um verdadeiro lixo. Claro, ele desabou quando peguei toda a documentação e perguntei por que ele usa putas menores de idade dos países do Leste europeu para praticar suas fantasias. Ele acabou me dando uma espécie de explicação.
—Ah, é?
—No passado, Sandström se viu numa situação em que não era apenas cliente da máfia do sexo, mas também lacaio. Ele me deu os nomes que conhecia e mencionou o nome de Zala. Não falou nada em especial sobre ele, mas não é um nome muito comum.
Mia Bergman olhou-o de relance e franziu o cenho.
—Você não sabe quem ele é? - perguntou Dag.
—Não. Não consegui identificar. Continua sendo só um nome que surge de vez em quando. As mulheres parecem morrer de medo dele e ninguém falou nada.