As duas estavam nuas na cama de Mimmi, no apartamento da Lundagatan. Algumas taças de vinho as tinham deixado meio altas. Lisbeth franziu o cenho. Desde que retomara o contato com Miriam Wu, parecia que nunca se fartava. Adquirira o péssimo hábito de ligar para Mimmi o tempo todo - para ser sincera, com muito mais freqüência do que exigiria um mero e saudável desejo. Olhou para Mimmi e repetiu a si mesma que de modo algum podia se apegar novamente a uma pessoa. No fim da história, só sobrariam machucados.
Súbito, Miriam Wu inclinou-se para trás, sobre a borda da cama, e abriu a gaveta do criado-mudo. Pegou um pacotinho achatado embrulhado num papel de presente florido e preso com uma fita dourada, e o jogou no colo de Lisbeth.
—O que é isso?
—Seu presente de aniversário.
—Falta mais de um mês para o meu aniversário.
—Do aniversário do ano passado. Não consegui te achar na época. Encontrei o pacote quando fiz a mudança.
Lisbeth ficou um instante calada.
—Abro?
—Claro, se quiser.
Ela largou o copo, chacoalhou o pacote e abriu devagarinho. Era uma linda cigarreira de metal preto e azul, ornada com símbolos chineses.
—Você devia parar de fumar - disse Miriam Wu. —Mas se tiver mesmo que continuar, pelo menos guarde os cigarros numa embalagem com alguma estética.
—Obrigada - disse Lisbeth. —Você é a única pessoa que me dá presentes de aniversário. Você sabe o que significam esses símbolos?
—Como vou saber? Não sei chinês. É só uma coisinha que eu achei num mercado das pulgas.
—É uma cigarreira muito bonita.
— Uma bobagem. Mas achei que você ia gostar. Sabe que não temos mais nada para beber?... Vamos sair para tomar uma cerveja em algum lugar?
—Quer dizer que a gente tem que levantar e se vestir?
—Acho que sim. De que serve morar num bairro como o Söder se a gente não vai num bar de vez em quando?
Lisbeth suspirou.
—Vamos -.disse Miriam Wu, brincando com a bijuteria no umbigo de Lisbeth. —Você está fixada em sexo. Mas a gente pode voltar para cá depois.
Lisbeth suspirou de novo, pôs um pé no chão e se esticou para pegar a calcinha.
Dag Svensson estava instalado a uma mesa que tinham lhe cedido a um canto da redação da Millennium, quando se surpreendeu com o ruído da fechadura da porta de entrada. Olhou para o relógio e percebeu que já eram nove da noite. Mikael Blomkvist ficou tão surpreso quanto ele ao topar com uma pessoa na redação.
—Então, fazendo hora extra? Olá, Micke. Eu, trabalhando no livro, nem vi o tempo passar. O que o traz aqui?
—Só passei para pegar um livro que eu esqueci. Está tudo certo?
—Está, bem, não... Faz três semanas que estou tentando achar uma pista desse canalha do Björck, da Säpo. Até parece que ele foi raptado por algum serviço de informações estrangeiro. Nem sinal dele.
Dag relatou seus reveses. Mikael pegou uma cadeira, sentou-se e refletiu alguns instantes.
—Você tentou o truque do sorteio premiado?
—Como?
—Crie um logotipo grandiloquente, escreva uma carta comunicando que ele ganhou um celular com GPS ou coisa do gênero. Imprima direitinho na sua impressora e mande para o endereço dele - no caso, a caixa postal. A manha é falar que ele já ganhou o celular. Ele só precisa dizer onde quer ir pegá-lo. E como ele tem direito ao bônus, é uma das vinte pessoas que ainda podem ganhar cem mil coroas. Tudo que ele precisa fazer é participar de uma pesquisa sobre diversos produtos. A pesquisa seria realizada em uma hora, por um pesquisador profissional. Depois... bem, você entendeu.
Dag Svensson olhou para Mikael, boquiaberto.
—Está falando sério?
—Por que não? Você já tentou de tudo, e até um figurão da Säpo deveria ser capaz de entender que a chance de ganhar cem mil coroas é bem aceitável, se ele já é um dos vinte selecionados.
Dag Svensson, de repente, deu por si chorando de rir.
—Você é completamente doido. Isso é legal?
—Acho difícil achar que seria ilegal dar um celular de presente.
—Puta merda! Você é mesmo incrível.
Dag Svensson ainda ficou rindo mais algum tempo. Mikael hesitou. Na verdade, estava indo para casa e não tinha o hábito de frequentar bares, mas gostava da companhia de Dag Svensson.
—O que você acha de a gente tomar uma cerveja? - perguntou. Dag Svensson consultou o relógio.
—Acho tentador - disse. —Por que não? Mas tem que ser rapidinho. Vou dar uma ligada para a Mia. Ela saiu com umas amigas, ficou de me pegar na volta.
Foram até o Moulin, principalmente por ser mais prático, era pertinho. Dag Svensson volta e meia caía na risada enquanto compunha de cabeça a carta que ia escrever para Björck. Mikael olhou de esguelha, cético, para aquele seu colaborador tão fácil de divertir. Um casal estava saindo na hora em que chegaram, e ficaram com a mesa deles, bem perto da porta. Cada um pediu um chope, aproximaram-se um do outro e se puseram a conversar sobre o tema que, no momento, monopolizava a vida profissional de Dag Svensson.
Mikael Blomkvist não viu Lisbeth Salander no bar com Miriam Wu. Lisbeth deu um passo atrás de modo a deixar Mimmi entre ela e Mikael. Com o semblante neutro, observou-o por cima do ombro de Mimmi.
Era a primeira vez que ela saía desde que voltara à Suécia, e é claro que tinha que topar logo com ele. Maldito Super-Blomkvist.
Era a primeira vez que o via em mais de um ano.
—O que houve? - perguntou Mimmi.
—Nada - disse Lisbeth Salander.
Continuaram a conversar. Ou melhor, Mimmi continuou contando a história de uma garota que ela havia conhecido durante uma viagem a Londres alguns anos antes. Tinha a ver com uma galeria de arte e uma situação que ia ficando cada vez mais cômica à medida que Mimmi tentava dar em cima dela. Lisbeth meneava a cabeça de vez em quando e, como sempre, perdeu o ponto alto da história.
Constatou que Mikael Blomkvist não tinha mudado muito. Estava tremendamente bonito; descontraído e de bem consigo, mas ainda assim com um ar sério. Escutava o que seu companheiro de mesa dizia e meneava regularmente a cabeça. A conversa não parecia estar muito divertida.
Lisbeth transferiu o olhar para o amigo de Mikael. Um rapaz loiro de cabelos muito curtos, alguns anos mais jovem que Mikael, que falava com ar compenetrado e parecia estar explicando alguma coisa. Ela nunca vira o cara antes e não fazia a mínima idéia de quem ele era.
Súbito, um grupo de pessoas acercou-se da mesa de Mikael para cumprimentá-lo. Uma das mulheres lhe deu um tapinha amigável no rosto e disse algo que fez todo mundo rir. Mikael pareceu constrangido, mas riu com os outros. Era claramente tratado como celebridade desde seu sucesso no caso Wennerström.
Lisbeth Salander franziu o cenho.
—Você não está me escutando - disse Mimmi.
—Estou sim.
—Você não é de nada como companheira de bar. Desisto. Quer ir embora e transar?
—Daqui a pouco - disse Lisbeth.
Chegou mais perto de Mimmi, pôs uma mão em seu quadril e deslizou discretamente o indicador debaixo da blusa dela para acariciar sua barriga. Mimmi baixou os olhos para ela.
—Estou a fim de te dar um beijo na boca.
—Não faça isso.
—Está com medo que as pessoas pensem que você é lésbica?
—Neste exato momento eu não quero chamar a atenção.
—Então vamos embora. Estou a fim de me divertir.
—Agora não. Espera um pouquinho.
Não precisaram esperar muito. Vinte minutos depois que eles chegaram, o homem que estava com Mikael recebeu uma ligação no celular. Esvaziaram seus copos de chope e se levantaram ao mesmo tempo.
—Ei, olhe aquele cara - disse Mimmi. —É o Mikael Blomkvist. Ficou famoso que nem estrela de rock depois do caso Wennerström.
—Ah, é? - fez Lisbeth.
—Você perdeu essa. Foi mais ou menos na época em que você se mandou para o exterior.
—Eu ouvi falar.