Lisbeth esperou mais cinco minutos antes de encarar Mimmi.
—Você estava a fim de me beijar na boca. Mimmi olhou para ela, surpresa.
—Era para implicar com você.
Lisbeth se ergueu na ponta dos pés, puxou o rosto de Mimmi para perto do seu e tascou-lhe um beijo de dois minutos. As pessoas bateram palmas.
—Você é completamente biruta - disse Mimmi.
Lisbeth Salander só voltou para casa por volta das sete da manhã. Puxou a camiseta para cheirar as axilas, pensou em tomar um banho, mas deixou para lá. Largou a roupa amontoada no chão e se deitou. Dormiu até as quatro da tarde, levantou-se e foi tomar café da manhã no Mercado do Söder.
Pensava em Mikael Blomkvist e em sua própria reação ao se defrontar com ele. Sua presença a incomodara demais, mas constatou também que já não doía vê-lo. Ele tinha virado um pontinho no horizonte, uma ligeira perturbação em sua existência.
Havia perturbações muito piores na vida.
Lamentou de repente não ter tido coragem de ir cumprimentá-lo. Ou, no outro extremo, de espancá-lo.
Ela hesitava entre as duas possibilidades, e de repente ficou muito curiosa para saber no que ele estava trabalhando. A tarde, fez algumas compras, voltou para casa lá pelas sete horas, ligou o Powerbook e iniciou o programa Asphyxia 1.3. O ícone MikBlom/laptop ainda constava no servidor holandês.
Clicou duas vezes e abriu uma cópia do disco rígido de Mikael Blomkvist Era sua primeira visita ao computador dele desde que deixara a Suécia havia mais de um ano. Notou, satisfeita, que ele ainda não atualizara a última versão do MacOS, o que teria significado a eliminação do Asphyxia e o fim da clonagem. Pensou também que teria de reescrever o software para evitar que uma atualização o destruísse.
O volume do disco rígido aumentara 6,9 gb desde sua última visita. Boa parte desse aumento consistia em arquivos PDF e cópias Quark de todos os números da Millennium. Os documentos Quark não ocupavam tanto espaço, à diferença dos arquivos de imagens, mesmo as comprimidas. Desde que voltara a ser o editor responsável pela publicação, ele aparentemente arquivara uma cópia de cada número da revista.
Ela organizou o disco rígido por data, com os documentos mais antigos em cima, e observou que nos últimos meses Mikael se ocupara principalmente de uma pasta intitulada [DAG SVENSSON], que era manifestamente o projeto de um livro. Depois abriu os e-mails de Mikael e passou em revista sua lista de contatos.
A certa altura, franziu o cenho. Dia 26 de janeiro, Mikael recebera um e-mail da Maldita Harriet Vanger. Abriu o e-mail e leu umas poucas linhas sobre uma assembléia geral da Millennium que aconteceria em breve, que terminavam com a informação de que Harriet tinha reservado o mesmo quarto de hotel que da outra vez.
Lisbeth levou um breve instante para digerir a informação. Depois deu de ombros e baixou os e-mails de Mikael Blomkvist, o manuscrito de Dag Svensson intitulado Os sanguessugas, com o subtítulo Os beneficiários da indústria da prostituição. Achou também a cópia de uma tese intitulada “Da Rússia com amor”, escrita por uma tal de Mia Bergman.
Ela se desconectou e foi até a cozinha ligar a cafeteira. Depois se acomodou no sofá novo da sala com seu PowerBook. Abriu a cigarreira que Mimmi lhe dera, acendeu um Marlboro light e dedicou-se à leitura.
Por volta das nove da noite, concluiu a leitura da tese de Mia Bergman. Mordeu pensativa, o lábio inferior.
Âs dez e meia, terminou o livro de Dag Svensson. E percebeu que a Millennium não demoraria para voltar às manchetes.
Às onze e meia, quando estava acabando a leitura dos e-mails de Mikael Blomkvist, ergueu-se de repente, arregalando os olhos. Sentiu um arrepio percorrer suas costas.
Tratava-se de um e-mail de Dag Svensson para Mikael Blomkvist.
Svensson dizia que andava se fazendo algumas perguntas sobre um gângster do Leste europeu, um tal de Zala, que poderia, eventualmente, virar, sozinho, um capítulo do livro - mas constatava que não lhe restava muito tempo até a data de entrega do manuscrito. Mikael não respondera a esse e-mail.
Zala.
Lisbeth Salander permaneceu imóvel, refletindo, até que interveio o protetor de tela.
Dag Svensson largou seu bloco de anotações e coçou a cabeça. Contemplou, pensativo, a única palavra escrita bem no alto da página aberta. Quatro letras.
Zala.
Desconcertado, passou uns três minutos rabiscando uma série de círculos labirínticos em volta do nome. Então levantou-se e foi pegar uma xícara de café na copa. Olhou o relógio e pensou que deveria ir para casa dormir, mas descobrira que gostava de ficar trabalhando até tarde na redação da Millennium, quando o local estava calmo e tranqüilo. O prazo-limite para a entrega dos originais se aproximava inexoravelmente. Ele dominava bem o tema, mas, pela primeira vez desde que entrara no projeto, sentia uma vaga dúvida. Perguntava-se se poderia estar deixando passar um detalhe essencial.
Zala.
Até então, estivera impaciente para terminar o manuscrito e ver o livro publicado. Agora, gostaria de poder dispor de mais tempo.
Pensou no relatório da autópsia que o inspetor Gulbrandsen tinha lhe dado para ler. Irina P. fora encontrada no canal de Södertálje, vítima de extrema violência, provavelmente por meio de uma ferramenta pesada. Seu rosto e a caixa torácica apresentavam marcas fortes de contusão. A causa mortis tinha sido a nuca quebrada, mas pelo menos dois outros ferimentos foram considerados fatais. Ela estava com seis costelas quebradas e o pulmão esquerdo perfurado. O baço estava estraçalhado devido às pavorosas pancadas que levara. A origem dos ferimentos era difícil de determinar. A autópsia aventara a hipótese de um malho de madeira enrolado num pano. Ninguém conseguia explicar por que um assassino teria forrado a arma com tecido, mas os ferimentos não apontavam para nada que fosse característico dos instrumentos corriqueiros.
O crime ainda não fora desvendado, e Gulbrandsen observara que as chances de se encontrar um culpado eram extremamente escassas.
O nome de Zala tinha surgido em quatro oportunidades no material que Mia Bergman acumulara nos últimos anos, mas sempre de maneira periférica, fugidio como um fantasma. Ninguém sabia quem ele era ou mesmo se existia de fato. Algumas meninas referiam-se a ele como as crianças costumam falar no Bicho-Papão ou em algum monstro impreciso - uma ameaça não identificada que constituía um perigo para os desobedientes. Ele passara uma semana tentando obter mais informações sobre Zala, tinha questionado policiais, jornalistas e as diversas fontes relacionadas ao comércio sexual que ele havia reunido.
Mais uma vez fizera contato com o jornalista Per-Áke Sandström, que ele pretendia denunciar sem pruridos em seu livro. A esta altura, Sandström tinha começado a perceber que a situação era séria. Suplicara a Dag Svensson que tivesse piedade dele. Oferecera-lhe dinheiro. Como Dag Svensson pretendia mesmo denunciá-lo, valera-se, sem pudor nenhum, de sua posição de força para arrancar o máximo de Sandström.
O resultado foi frustrante. Sandström era um canalha corrompido que fizera o jogo da máfia do sexo. Nunca tinha estado com Zala, mas falara com ele por telefone e sabia que ele existia. Talvez. Não, não tinha o telefone dele. Não, não podia revelar quem fizera o contato. Piedade, eu lhe imploro.
De repente, Dag Svensson compreendeu que Per-Áke Sandström estava com medo. Um medo maior que a ameaça de ser denunciado. Ele temia por sua vida. Por quê?
10. SEGUNDA-FEIRA 14 DE MARÇO – DOMINGO 20 DE MARÇO
Usar o transporte coletivo para ir até o centro de reabilitação de Ersta representava uma enorme perda de tempo e era quase tão complicado quanto alugar um carro toda vez que visitava Holger Palmgren. Em meados de março, Lisbeth Salander resolveu comprar um carro e começou a procurar um estacionamento. O que se revelou mais problemático do que a compra do carro.