Ela dispunha de uma vaga na garagem do subsolo de seu prédio da Fiskaregatan, mas não tinha a menor intenção de usá-la. O carro ficaria associado ao proprietário e Lisbeth não queria que houvesse nenhuma ligação entre ela e o prédio. Em compensação, muitos anos antes, ela se candidatara a uma vaga na garagem de seu antigo apartamento na Lundagatan, para o caso de um dia vir a comprar um carro. Ligou para saber como estava a espera e descobriu que ela já era a primeira da lista. Melhor ainda: no próximo mês haveria uma vaga livre. Uma sorte e tanto. Ligou para Mimmi e pediu que ela corresse para assinar os papéis. No dia seguinte, saiu em busca de um carro; leou exatamente quatro horas e vinte minutos para encontrar um.
Tinha dinheiro suficiente para comprar um Rolls-Royce ou uma Ferrari cor de tangerina, mas não fazia questão de um automóvel vistoso que chamasse a atenção das pessoas. Esteve em dois revendedores de carros usados em Nacka e escolheu um velho Honda cor de vinho com câmbio automático. Durante uma hora, para imenso desespero do vendedor, examinou a fundo o motor. Regateou por uma questão de princípio, conseguiu baixar o preço em algumas notas de mil, e então pagou em dinheiro.
Depois foi dirigindo o Honda até a Lundagatan e subiu ao apartamento de Mimmi para deixar uma cópia das chaves. Mimmi poderia usar o carro, claro, desde que avisasse antes. Como a vaga da garagem só estaria disponível no começo do mês, enquanto isso deixaram o carro estacionado na rua.
Mimmi estava de saída para um encontro seguido de cinema, atividade tão excitante para Lisbeth quanto um debate orçamentário no Parlamento. Além do que, ia sair com uma amiga da qual Lisbeth nunca tinha ouvido falar. Como Mimmi estava exageradamente maquiada, vestia uma roupa trash e ostentava uma espécie de coleira de cachorro no pescoço, Lisbeth imaginou que se tratava de uma de suas namoradas e, embora Mimmi a convidasse para ir junto, ela recusou. Não tinha a menor vontade de se envolver num drama triangular com uma das amigas de Mimmi, de pernas longas, provavelmente supersexy e que a faria sentir-se uma idiota. Foram juntas até o metrô Hötorget, e ali se separaram.
Lisbeth fez a pé o trajeto até a OnOff de Sveavágen e entrou na loja dois minutos antes de ela fechar. Comprou um cartucho para a sua impressora a laser e pediu que o retirassem da embalagem para poder levá-lo na mochila.
Ao sair da loja, estava com um vaziozinho no estômago. Foi até o Stureplan, onde entrou, por puro acaso, no Café Hedon, um lugar descolado onde nunca tinha estado. Reconheceu imediatamente o doutor Nils Erik Bjurman, quase de costas, e recuou para perto da porta. Colocou-se próxima ao janelão que dava para a calçada e esticou o pescoço a fim de observar seu tutor, protegida por um balcão.
A visão de Bjurman não despertou nenhuma emoção especial em Lisbeth Salander. Não sentiu raiva, ódio ou medo. No que lhe dizia respeito, o mundo seria, sem dúvida alguma, um lugar melhor sem aquele cara, mas ele estava vivo porque ela resolvera que ele lhe seria mais útil assim. Voltou o olhar para o homem sentado em frente a ele e sobressaltou-se quando o homem se levantou de repente.
Clique.
O homem era particularmente alto, dois metros de altura pelo menos, e muito bem-apessoado. Excepcionalmente bem-apessoado, aliás. Tinha um rosto delicado, cabelos loiros rente às têmporas e uma franja curta. A impressão geral, porém, era de uma forte virilidade.
Lisbeth viu o gigante loiro inclinar-se e sussurrar algo para Bjurman, que meneou a cabeça. Apertaram-se as mãos e Lisbeth reparou que Bjurman retirava rapidamente a sua.
Ora, ora, quem é você? E o que está fazendo aí com o Bjurman?
Lisbeth Salander desceu depressa alguns metros rua abaixo e se postou à entrada de uma tabacaria. Estava observando as manchetes dos jornais quando o loiro saiu do Hedon e pegou à esquerda sem olhar para os lados. Passou a menos de trinta centímetros das costas de Lisbeth. Ela lhe deu uma vantagem de quinze metros e começou a segui-lo.
O passeio a pé não se estendeu. O gigante loiro entrou em seguida no metrô da Birger Jarlsgatan e comprou um bilhete na máquina. Esperou na plataforma da direção sul - que de todo modo era a direção de Lisbeth- e entrou no metrô para Norsborg. Desceu em Slussen e tomou a direção de Farsta, mas logo desceu em Skanstull e foi caminhando até o Café Blomberg, na Götgatan.
Lisbeth ficou do lado de fora. Observou, pensativa, o homem com quem o gigante loiro foi se sentar. Clique. Lisbeth lhe atribuiu o perfil más notícias. Um sujeito gordo, com um rosto magro e uma barriga de bebedor de cerveja. Tinha cabelos loiros presos num rabo de cavalo e um bigode loiro. Vestia jeans preto, uma jaqueta jeans e usava botinas de salto. No dorso da mão direita, tinha uma tatuagem cujo desenho Lisbeth não conseguia distinguir àquela distância. Usava uma corrente de ouro no pulso e fumava Lucky Strike, a julgar pelo maço em cima da mesa. Lisbeth reparou no seu olhar errante, que ela associava a pessoas que se dopam. Reparou também que ele usava um colete por baixo da jaqueta jeans. Fez imediatamente a associação com motoqueiros.
O gigante loiro não fez nenhum pedido. Parecia falar em voz baixa. Explicava alguma coisa. O homem da jaqueta jeans meneava regularmente a cabeça, mas parecia não contribuir para o diálogo. Droga, por que não estou com meu microfone ultrassensível?
Passados cinco minutos, o gigante loiro se levantou e deixou o Café Blomberg. Lisbeth afastou-se depressa, mas ele nem sequer olhou em sua direção. Andou uns quarenta metros e subiu a escadaria da Allhelgonagatan, onde entrou num Volvo branco. Deu a partida e entrou devagarinho na rua. Lisbeth estava tão perto que teve tempo de anotar o número da placa antes de ele dobrar a esquina e sumir.
Lisbeth ficou alguns segundos pensativa, olhando para o lugar onde o Volvo estivera estacionado. Então voltou correndo ao Café Blomberg. Ausentara-se menos de três minutos, mas a mesa já estava vazia. Deu meia-volta, verificou a calçada nas duas direções, e não viu o homem de rabo de cavalo e jaqueta jeans. Então olhou do outro lado da rua e o avistou empurrando a porta do McDonald’s.
Foi obrigada a entrar para poder vê-lo outra vez. Estava sentado no fundo, na companhia de outro homem que usava roupas semelhantes às dele e claramente conotativas. Este usava o colete por cima da jaqueta jeans. Lisbeth leu os dizeres MOTO-CLUB SVAVELSJÖ. Com uma roda de moto estilizada que lembrava a cruz celta enfeitada com um machado.
Lisbeth saiu para a rua e ficou um momento indecisa antes de pegar a direção norte e voltar para casa. Caminhava com a sensação de que todo o seu sistema de alarme tinha disparado.
Lisbeth parou no 7-Eleven da Götgatan para fazer as compras da semana: um pacote grande de pizzas congeladas, três peixes gratinados, três tortas de bacon, um quilo de maçãs, dois pães, um pedaço grande de queijo, leite, café, um pacote de Marlboro light e os jornais da tarde. Pegou a Svartensgatan para subir na direção da Fiskaregatan e olhou atentamente em volta antes de digitar o código do prédio. Pôs uma das tortas de bacon no micro-ondas e tomou leite direto da caixa. Ligou a cafeteira elétrica e em seguida se instalou na frente do computador. Clicou em Asphyxia 1.3, entrou no servidor holandês e depois na reprodução do disco rígido do Dr. Bjurman. Passou o conteúdo do computador dele a pente fino.
Não encontrou absolutamente nada digno de interesse. Bjurman parecia usar muito pouco o correio eletrônico e ela só achou uma dúzia de e-mails breves e pessoais trocados com amigos. Nada na correspondência dele tinha alguma relação com Lisbeth Salander.
Achou um arquivo novo com fotos de pornografia explícita que mostravam que ele ainda se interessava por mulheres submetidas a situações sádicas. Seu olhar se endureceu um pouco, mas aquilo não constituía uma transgressão à regra que o proibia de frequentar mulheres.