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Copiou o arquivo que continha os documentos relativos à missão de Bjurman como tutor da denominada Lisbeth Salander e leu com atenção os relatórios mensais. Todos correspondiam escrupulosamente às cópias que ela ordenara que ele enviasse por e-mail para um de seus inúmeros endereços no hotmail.

Estava tudo absolutamente normal.

Com exceção, talvez, de uma pequena variante... Quando conferiu a listagem, constatou que ele em geral criava os documentos bem no início do mês, dedicava uma média de quatro horas para redigir cada relatório e o enviava pontualmente à Comissão de Tutelas todo dia 20 do mês. Estavam em meados de março e ele ainda não cuidara do relatório mensal. Negligência? Atraso? Ocupado com outras coisas? Tramando algo suspeito? Uma ruga vincou a testa de Lisbeth Salander.

Desligou o computador, sentou-se no recanto da janela e abriu a cigarreira que Mimmi lhe dera. Acendeu um cigarro e fitou a escuridão lá fora. Dava-se conta de que descuidara sua vigilância sobre Bjurman. Esse canalha é mais traiçoeiro que uma hiena.

Foi sendo tomada por uma profunda inquietação. Primeiro o Maldito Super-Blomkvist, depois Zala e agora o Maldito Canalha do Nils Bjurman na companhia de um macho inflado de anabolizantes e em contato com uma gangue de motoqueiros. Em poucos dias, tinham aparecido várias pedrinhas na existência organizada que Lisbeth Salander estava tentando construir.

Às duas e meia daquela madrugada, Lisbeth Salander abriu a porta do prédio em que o Dr. Nils Bjurman morava. Parou na frente do apartamento, levantou bem devagarinho a portinhola da correspondência e introduziu o microfone extremamente sensível que tinha adquirido na Counterspy Shop de Mayfair, em Londres. Nunca tinha ouvido falar em Ebbe Carlsson, mas naquela mesma loja ele comprara o famoso material de escuta que, no final dos anos 1980, obrigara o ministro da Justiça sueco a se demitir bruscamente. Colocou as escutas no lugar e ajustou o volume.

Escutou o zumbido surdo de um refrigerador e os sonoros tiquetaques de pelo menos dois relógios, um deles um relógio de parede na sala, à esquerda da porta de entrada. Ajustou o volume e escutou, prendendo a respiração. Ouviu todo tipo de estalidos e ruídos no prédio, mas nenhum som de atividade humana. Levou um minuto para identificar os fracos ruídos de uma respiração pesada e regular.

Nils Bjurman estava dormindo.

Tirou o microfone e o enfiou no bolso interno da jaqueta de couro. Vestia uma calça jeans escura e tênis. Sem fazer barulho, introduziu a chave na fechadura e entreabriu a porta. Antes de abri-la totalmente, tirou do bolso um cacetete elétrico. Não trouxera nenhuma outra arma. Não julgava precisar de mais que isso para dominar Bjurman.

Entrou no hall, fechou a porta e deslizou pé ante pé pelo corredor até o quarto dele. Estacou ao perceber a luz de uma lâmpada, mas àquela altura já conseguia escutar os roncos sem a ajuda do microfone. Deslizou até o quarto. Na beira da janela havia uma luz acesa. O que há com você, Bjurman? Está com medo de dormir no escuro?

Aproximou-se da cama e o contemplou por vários minutos. Estava envelhecido e parecia desmazelado. Um cheiro dentro do quarto indicava que vinha negligenciando a higiene.

Não sentiu a menor compaixão. Por um segundo, o clarão de um ódio implacável brilhou em seus olhos em geral tão inexpressivos. Reparou num copo no criado-mudo e se inclinou para cheirá-lo. Álcool.

Por fim, saiu do quarto. Deu uma voltinha na cozinha, não encontrou nada de especial, continuou pela sala e se deteve à porta do escritório. Tirou do bolso uma dúzia de pedacinhos de torrada e os jogou no escuro pelo chão. Se alguém se esgueirasse pela sala, o ruído a alertaria.

Instalou-se à escrivaninha do Dr. Nils Bjurman e deixou o cacetete elétrico ao alcance da mão. Pôs-se a vasculhar metodicamente as gavetas. Examinou os extratos bancários das contas pessoais de Bjurman e deu uma olhada nas diversas operações efetuadas. Notou que ele estava ficando desorganizado e mais esporádico nas atualizações, mas não encontrou nada digno de interesse.

A última gaveta da escrivaninha estava fechada a chave. Lisbeth Salander franziu o cenho. Quando o visitara um ano atrás, todas as gavetas estavam abertas. Seu olhar se turvou quando tentou imaginar o conteúdo da gaveta. Na época, havia nela uma câmera fotográfica, uma teleobjetiva, um pequeno dictafone Olympus, um álbum de fotos encadernado em couro e uma caixinha com colares, jóias e uma aliança de ouro com a inscrição Tilda e Jacob Bjurman - 23 de abril de 1951. Lisbeth sabia que eram os nomes dos pais dele e que os dois já eram falecidos. Imaginou que ele guardava a aliança como recordação. Em suma, objetos que tinham algum valor afetivo. Certo, ele tranca a chave o que considera precioso.

Começou a examinar a prateleira com porta de correr que ficava atrás da escrivaninha e tirou duas pastas relativas à sua missão como tutor. Passou quinze minutos lendo minuciosamente todos os documentos, folha por folha. Os relatórios eram impecáveis e davam a entender que Lisbeth Salander era uma jovem boazinha e cuidadosa. Quatro meses antes, apresentara um relatório declarando que a seu ver ela parecia tão racional e competente que seria certamente o caso, quando da avaliação do ano seguinte, de se abrir uma discussão sobre a pertinência de se manter a tutela. Estava elegantemente formulado e constituía a primeira pedra para a anulação de sua colocação sob tutela.

A pasta continha igualmente anotações manuscritas mostrando que Bjurman fora procurado por uma certa Ulrika von Liebenstaahl, da Comissão de Tutelas, para uma conversa sobre a situação de Lisbeth. Estavam sublinhadas as palavras “necessidade de uma avaliação psiquiátrica”.

Lisbeth fez um muxoxo, guardou as pastas no lugar e olhou em volta. À primeira vista, não havia do que reclamar. Bjurman parecia estar se comportando escrupulosamente segundo suas instruções. Mordeu os lábios. Mesmo assim, tinha a impressão de que alguma coisa estava errada.

Levantou-se, e já ia apagar a luz quando se deteve. Tornou a pegar as pastas e examinou-as outra vez. Estupefata.

Elas deveriam conter muito mais que aquilo. Um ano antes, havia um resumo da Comissão de Tutelas cobrindo sua vida desde a infância. Esse relatório não estava mais lá. Por que Bjurman tiraria documentos de uma pasta? Franziu o cenho. Não conseguia pensar em nenhum motivo válido. A menos que ele guardasse outras informações em outro lugar. Deu uma olhada na prateleira de portas de correr e então baixou os olhos para a última gaveta da escrivaninha.

Não tinha trazido chave mestra e voltou pé ante pé ao quarto de Bjurman. Pescou seu molho de chaves no paletó pendurado no cabide. Na gaveta estavam os mesmos objetos de um ano atrás. Mas à coleção se somara uma caixa rasa com a foto de um Colt 45 Magnum na tampa.

Seu olhar se turvou mais uma vez ao repassar mentalmente a pesquisa que fizera sobre Bjurman dois anos antes. Ele praticava tiro num clube. Tinha porte de armas para um Colt 45 Magnum.

A contragosto, concluiu que ele estava certo em manter a gaveta trancada a chave.

Aquele estado de coisas não lhe agradava, mas no momento não via nenhum motivo para acordar Bjurman e quebrar a cara dele.

Mia Bergman acordou às seis e meia. Ouviu baixinho, o noticiário da tevê na sala e sentiu cheiro de café. Também ouviu o som do teclado do iBook de Dag Svensson. Sorriu.

Nunca tinha visto seu companheiro tão envolvido numa tarefa. A Millennium era um trabalho legal. Dag ainda era um pouco convencido, mas o contato com Blomkvist, Berger e os demais estava sendo benéfico para ele. Era cada vez mais frequente ele voltar para casa abatido depois de Blomkvist lhe apontar algumas falhas e desmontar algum raciocínio seu. Depois disso, trabalhava duas vezes mais.