Pôs a mão sobre o ventre e se perguntou se aquele seria o momento certo de perturbar a concentração dele. Sua menstruação estava três semanas atrasada. Não tinha certeza, mas um teste de gravidez da farmácia acabaria com a dúvida.
Perguntava-se se era mesmo um bom momento.
Ia fazer trinta anos. Dali a um mês, defenderia sua tese. Doutora Bergman! Sorriu novamente e resolveu não dizer nada a Dag antes de ter certeza, ou quem sabe até ele terminar o livro e ela própria festejar sua tese.
Ficou mais dez minutos na cama antes de se levantar e ir até a sala, enrolada num lençol. Ele ergueu os olhos.
—Sabe que não são nem sete horas? - perguntou ela.
—É o Blomkvist esmiuçando detalhes de novo - ele respondeu.
—Ele foi malvado com você? Isso não é ruim para você. Você gosta dele, não é?
Dag Svensson se recostou no sofá e seus olhares se encontraram. Passados alguns instantes, ele assentiu com a cabeça.
—A Millennium é um bom lugar para se trabalhar. Conversei com o Mikael no Moulin, outra noite, antes de você me pegar. Ele perguntou quais eram os meus planos depois que eu terminar este projeto.
—A-há... E o que você respondeu?
—Que eu não sabia. Faz tantos anos que estou ralando como frila. Queria um troço mais estável.
—A Millennium.
Ele fez que sim com a cabeça.
—Micke sondou o terreno, perguntou se meio período me interessava. Um contrato igual ao do Henry Cortez e da Lottie Karim. Eu teria uma sala e a Millennium me pagaria um salário-base, e o resto ficaria por minha conta.
—Você acha bom?
—Se eles me fizerem uma proposta concreta, sim.
—Certo, mas ainda não são nem sete horas e hoje é sábado.
—Tss. Eu só queria mexer em mais uma coisinha aqui num capítulo.
—E eu acho que você devia era voltar para a cama e mexer em outra coisinha lá.
Ela lhe lançou um bonito sorriso e abriu um lado do lençol. Ele colocou o computador em espera.
Lisbeth Salander passou a maior parte dos dias e noites seguintes na frente do Powerbook, pesquisando em diferentes direções; houve momentos em que já nem sabia exatamente o que procurava.
Parte do levantamento de dados era simples. Com base em arquivos da imprensa, reconstituiu o histórico do MC Svavelsjö. O clube aparecia pela primeira vez nas notas dos jornais em 1991, com o nome Tálje Hog Riders, quando a polícia fizera uma blitz em sua sede, na época uma escola abandonada nas proximidades de Södertálje. Vizinhos preocupados tinham avisado a polícia sobre tiros ouvidos na antiga escola; os tiras chegaram em peso, interrompendo uma festa copiosamente regada a cerveja e que havia descambado para um concurso de tiro com um rifle AK4, que se descobriu ter sido roubado do antigo 20a regimento de infantaria de Vãsterbotten no início dos anos 1980.
De acordo com o quadro traçado por um jornal vespertino, o MC Svavelsjö contava com seis ou sete membros e uma dúzia de hangarounds. Todos os membros efetivos haviam sido uma ou mais vezes condenados pela justiça por crimes relativamente pequenos mas que não excluíam a violência. Dois sujeitos do clube se destacavam. O chefe do MC Svavelsjö era um tal Carl-Magnus, o “Magge” Lundin, de quem o site do Aftonbladet traçava o perfil depois de a polícia ter feito outra blitz na sede do clube em 2001. Lundin fora condenado cinco vezes entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Três condenações por roubo, receptação e infrações ligadas à droga. Uma delas decorria de um registro criminal mais sério, com golpes e ferimentos agravados que lhe valeram dezoito meses de xadrez. Lundin foi solto em 1995 e promovido, pouco depois, a “presidente” dos Tálje Hog Riders, rebatizados de MC Svavelsjö.
O número dois do clube, de acordo com a polícia, era um tal de Benny Nieminen, de trinta e sete anos, com nada menos que vinte e três condenações registradas na ficha policial. Dando início à sua carreira com dezesseis anos de idade, fora submetido a um controle judiciário e medidas educativas. Durante os dez anos seguintes, Benny Nieminen fora condenado cinco vezes por roubo, uma vez por roubo agravado, duas por ameaça, duas por infrações relacionadas com drogas, chantagem, violência contra um funcionário público, duas vezes por porte ilegal de armas e uma por porte ilegal de arma agravado, direção em estado de embriaguez e nada menos que seis casos de golpes e ferimentos. Segundo um critério incompreensível para Lisbeth Salander, tinha sido condenado, além do controle judiciário, a multas e a períodos de um ou dois meses de prisão, até ser condenado em 1989 a dez meses de detenção por golpes e ferimentos agravados e roubo seguido de violência. Libertado meses depois, ficara quieto até outubro de 1990, quando seu envolvimento numa briga de bar em Södertálje, seguida de assassinato, resultara numa pena de seis anos de prisão. Nieminen tornara a sair em 1995 e, desde então, era o amigo mais chegado de Magge Lundin.
Em 1996, foi preso por cumplicidade no assalto a mão armada de um carro-forte. Não participara diretamente do assalto, mas fornecera as armas necessárias a três jovens. Foi sua segunda derrocada. Condenado a quatro anos de prisão, foi solto em 1999. Depois disso, Nieminen conseguira o milagre de não ser pego por outros crimes. Segundo um artigo publicado num jornal em 2001, que não citava seu nome, mas fornecia um histórico tão detalhado que não era difícil perceber de quem se tratava, Nieminen era suspeito de cumplicidade em pelo menos um assassinato, quando um membro do clube tinha sido morto.
Lisbeth baixou umas fotos de Nieminen e Lundin. Nieminen tinha um rosto bonito, cabelos castanhos crespos e olhos agressivos. Magge Lundin tinha cara de débil mental. Identificou facilmente Lundin como o homem que se encontrara com o gigante loiro no Café Blomberg, e Nieminen como o homem que o esperava no McDonald’s.
Uma invasão no Registro de Minas permitiu que encontrasse a pista do proprietário do Volvo branco usado pelo gigante loiro. Tratava-se de uma autolocadora, a Auto-Expert, de Eskilstuna. Discou o número, e do outro lado da linha atendeu um tal de Refik Alba.
—Alô, bom dia, meu nome é Gunilla Hansson. Meu cachorro foi atropelado ontem por um carro que não parou. O canalha fugiu, mas o número da placa mostra que o carro foi alugado aí. Era um Volvo branco.
Ela deu o número.
—Sinto muito.
—Exijo mais que isso. Quero o nome desse escroto para mandar para ele um pedido de indenização.
—A senhora deu parte à polícia?
—Não, prefiro resolver essa história amigavelmente.
—Sinto muito, mas não posso fornecer o nome dos nossos clientes se não houver um boletim de ocorrência.
A voz de Lisbeth Salander murchou. Perguntou se era mesmo uma boa política da empresa obrigá-la a denunciar seus clientes em vez de tentar um acordo amigável. Refik Alba lamentou mais uma vez e disse que infelizmente não podia fazer nada. Ela ainda argumentou por mais alguns minutos, mas não conseguiu obter o nome do gigante loiro.
O nome de Zala também parecia conduzir a um beco sem saída. Com dois intervalos para comer uma pizza acompanhada de uma garrafa grande de Coca, Lisbeth Salander passou a maior parte das vinte e quatro horas seguintes na frente do computador.
Encontrou centenas de Zalas - desde atletas italianos de alto nível até um compositor argentino -, mas não o que estava procurando.
Tentou Zalachenko, e não encontrou nada que prestasse.
Frustrada, finalmente cambaleou até o quarto e dormiu doze horas seguidas. Acordou às onze da manhã, ligou a cafeteira e preparou um banho de hidromassagem com óleo espumante. Levou o café e fatias de pão para o banheiro e tomou o café da manhã refestelada na banheira, sonhando cora a presença de Mimmi a seu lado. Mas isso era impossível. Ainda nem tinha lhe contado onde morava.