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Por volta do meio-dia, saiu da água, se secou e enfiou um roupão. Tornou a ligar o computador.

Obteve melhores resultados com os nomes de Dag Svensson e Mia Bergman. Conseguiu rapidamente ter uma idéia das atividades dos dois nos últimos anos. Baixou algumas cópias de artigos de Dag e achou uma foto dele a guisa de assinatura. Sem grande surpresa, constatou que era o homem que vira em companhia de Mikael Blomkvist no Moulin dias antes. Agora o nome tinha um rosto, e vice-versa.

Achou vários textos sobre, ou de, Mia Bergman. Anos antes destacara-se com um relatório sobre as diferentes maneiras como homens e mulheres eram tratados pela Justiça. O relatório tinha sido citado em editoriais e artigos de opinião nas revistas de várias organizações feministas; a própria Mia Bergman contribuíra para o debate com diversos artigos. Lisbeth Salander leu com bastante atenção. Algumas feministas julgavam suas conclusões importantes, ao passo que outras criticavam Mia Bergman e a acusavam de “espalhar ilusões burguesas”, mas nem por isso esclarecendo que ilusões burguesas seriam essas.

Por volta das duas da tarde, entrou no Asphyxia 1.3, mas em vez de MikBlom/laptop escolheu MikBlom/office, o computador de Mikael Blomkvist na redação da Millennium. Sabia, por experiência própria, que o computador da sala de Mikael não continha praticamente nada. Embora o utilizasse vez ou outra para navegar na internet, ele trabalhava quase o tempo todo no seu iBook. Em compensação, Mikael tinha o direito de controlar toda a redação da Millennium. Ela encontrou rapidamente a informação necessária com o código de acesso à rede interna da revista.

Para entrar nos demais computadores da Millennium, o espelhamento do disco rígido no servidor holandês não bastava; o original do MikBlom/office tinha de estar ligado e conectado à rede interna. Ela estava com sorte, Mikael Blomkvist parecia estar na revista e seu computador estava ligado. Esperou dez minutos e não percebeu nenhum sinal de atividade. Interpretou isso como um indício de que Mikael tinha ligado o computador ao chegar ao escritório, talvez o tivesse usado para navegar na internet e o deixara ligado enquanto cuidava de outras coisas ou trabalhava em seu computador portátil.

Precisava ir com calma. Durante uma hora, Lisbeth Salander pirateou os computadores um por um e carregou e-mails de Erika Berger, Christer Malm e uma tal de Malu Eriksson, que ela não conhecia. Por fim, achou o computador de Dag Svensson, segundo a informação do sistema um velho Macintosh PowerPC com disco rígido de 750 MB, OU seja, uma máquina antiga que provavelmente só era usada por usuários ocasionais para tratamento de texto. Estava ligado, o que significava que Dag Svensson se encontrava na redação da Millennium naquele momento. Ela carregou seu correio eletrônico e percorreu seu disco rígido. Encontrou um arquivo intitulado, simplesmente, [ZALA].

O gigante loiro estava insatisfeito e incomodado. Acabava de obter duzentas e três mil coroas em dinheiro, o que era mais do que ele esperava pelos três quilos de metanfetamina entregues a Magge Lundin no final de janeiro. Era igualmente um lucro razoável para umas poucas horas de trabalho efetivo - pegar a anfetamina com o intermediário, guardá-la por algum tempo, entregá-la a Magge Lundin e então embolsar cinquenta por cento do lucro. O MC Svavelsjö parecia não ter nenhuma dificuldade em levantar mensalmente uma quantia daquelas, e o bando de Magge Lundin era apenas um entre três operadores similares - os outros dois operavam nas áreas de Göteborg e Malmö. Juntos, os três bandos chegavam a render mais de meio milhão de coroas de lucro líquido por mês.

No entanto, sentia-se tão incomodado que parou no acostamento e desligou o motor. Não dormia havia quase trinta horas e se sentia entorpecido Abriu a porta para esticar as pernas e urinou na beira da estrada. Fazia frio e o céu estava limpo. Estava em frente a um campo, nas proximidades de Jârna.

O conflito era antes de natureza ideológica. A oferta de metanfetamina a menos de quatrocentos quilômetros de Estocolmo era ilimitada. A demanda no mercado sueco, indiscutível. O resto não passava de logística — como transportar o produto de um ponto A até um ponto B ou, mais precisamente, de um porão de Tallinn para o porto franco de Estocolmo?

Esse problema logístico se apresentava o tempo todo - como garantir um transporte regular da Estônia para a Suécia? Era o ponto crucial e o elo realmente frágil da cadeia, já que, depois de muitos anos de esforço, ainda estavam no nível da improvisação constante e das soluções temporárias.

O problema era que, nos últimos tempos, a engrenagem andava emperrando demais. Ele se orgulhava de seu talento para a organização. Em apenas poucos anos, criara uma engrenagem bem azeitada de contatos, mantidos com doses bem calculadas de cenoura e chicote. Ele é que tinha administrado o aspecto prático, identificado os parceiros, negociado acordos e cuidado para que a entrega chegasse ao lugar certo.

A cenoura era o estímulo oferecido a intermediários como Magge Lundin — um bom lucro praticamente sem riscos. O sistema era impecável. Magge Lundin nunca precisara levantar um só dedo para que lhe entregassem os produtos - nada de viagens complicadas nem negociações obrigatórias com todo tipo de gente, desde tiras da Brigada de Entorpecentes até a máfia russa, que poderia muito bem lhe passar a perna. Lundin sabia que o gigante loiro entregava e depois embolsava seus cinquenta por cento.

O chicote era necessário, já que cada vez mais vinha entrando areia na engrenagem. Um traficantezinho de bairro bom de faro acabara sabendo demais e por pouco não comprometera o MC Svavelsjö. O loiro fora obrigado a intervir e punir.

O gigante loiro era bom em punições.

Suspirou.

Sentia que a atividade estava se ampliando demais. Estava simplesmente diversificada demais.

Acendeu um cigarro e esticou as pernas na beira da estrada.

A metanfetamina era uma excelente fonte de renda, discreta e fácil de lidar — lucro amplo com risco mínimo. O negócio de armas se justificava até certo ponto, quando serviços embutidos pouco pertinentes podiam ser identificados e evitados. Considerando-se os riscos, o fato é que não era economicamente defensável fornecer dois revólveres por umas míseras notas de mil a uns pivetes muito doidos que sonhavam assaltar o quiosque da esquina.

Alguns casos de espionagem industrial ou contrabando de componentes eletrônicos para países do Leste até se justificavam, embora o mercado tivesse encolhido dramaticamente nos últimos anos.

Em compensação, as putas dos países bálticos eram indefensáveis do ponto de vista econômico. As putas só davam dinheiro para o gasto e representavam, antes de mais nada, uma complicação capaz de a qualquer momento suscitar matérias hipócritas na mídia e debates naquele estranho Parlamento sueco, chamado Riksdag, onde as regras do jogo, na opinião do gigante loiro, eram no mínimo pouco claras. A vantagem das putas é que elas não representavam praticamente nenhum risco jurídico. Todo mundo gosta de puta - o procurador, o juiz, os tiras e um parlamentar aqui e ali. Ninguém ia ficar cavoucando para pôr um fim a essa atividade.

E uma puta morta não causava necessariamente complicações. Se a polícia conseguisse prender um suspeito óbvio em poucas horas, e se o suspeito ainda estivesse com sangue na roupa, ele evidentemente era condenado a alguns anos de prisão ou internado em algum obscuro estabelecimento psiquiátrico. Mas se nenhum suspeito fosse encontrado em quarenta e oito horas, o loiro sabia por experiência que a polícia não demorava a ir cuidar de coisas mais importantes.

De qualquer modo, o gigante loiro não gostava do comércio de putas. Não gostava das putas, com seus rostos exageradamente maquiados e suas risadas estridentes de alcoólatras. Não eram puras. Eram capital humano, do tipo que dá tanta despesa quanto lucro. E tratando-se de capital humano, sempre havia o risco de uma das putas ter um surto e achar que podia pedir demissão ou começar a fazer denúncias para tiras, jornalistas e outros bisbilhoteiros. Então ele era obrigado a intervir e punir. E se as revelações fossem suficientemente precisas, a rede de procuradores e tiras era obrigada a agir - para não haver gritaria no maldito Parlamento. O comércio de putas só dava confusão.