O problema era que o livro de Dag Svensson tinha que aguentar firme até o fim. Um jornalista que aceita um desafio deste porte precisa estar cem por cento seguro do terreno em que está pisando, senão mais vale desistir de publicar. Dag Svensson estava noventa e oito por cento seguro. Ainda faltava esmiuçar alguns pontos fracos e afirmações que, no entender de Mikael, ele não documentara a contento.
Por volta das cinco e meia, abriu a gaveta da mesa e pegou um cigarro. Erika Berger decretara proibição absoluta de se fumar nas salas, mas ele estava sozinho e ninguém iria aparecer durante o feriadão. Trabalhou por mais quarenta e cinco minutos antes de juntar as folhas e deixar o capítulo na mesa de Erika para ela ler. Dag Svensson se comprometera a enviar por e-mail a versão final dos três capítulos restantes na manhã seguinte, o que daria a Mikael a possibilidade de relê-los no feriado. Estava marcada uma reunião para a terça-feira depois da Páscoa, na qual Dag, Erika, Mikael e Malu iriam dar sinal verde para a versão final do livro, e também para os artigos da Millennium.
Só faltava a diagramação, que cabia a Christer Malm, e depois mandar para a gráfica. Mikael nem sequer fizera uma licitação - resolvera confiar mais uma vez na Hallvigs Reklam de Morgongâva, que imprimira o livro sobre o caso Wennerström e oferecia um preço e um serviço incomparáveis no mercado.
Mikael olhou as horas e presenteou-se com mais um cigarro clandestino. Sentou-se à janela e contemplou a Götgatan lá embaixo. Com a ponta da língua, tocou de leve no corte na parte interna do lábio. Estava cicatrizando. Pela milésima vez, perguntou-se o que realmente tinha se passado na frente do prédio de Lisbeth Salander na Lundagatan.
Suas únicas certezas eram que Lisbeth Salander estava obviamente viva e de volta à cidade.
Durante a semana, tentara entrar em contato com ela todos os dias. Tinha mandado e-mails para o endereço que ela usava mais de um ano antes, sem obter resposta. Passara diariamente pela Lundagatan. Estava começando a perder as esperanças.
A placa de identificação tinha mudado para Salander-Wu. Havia duzentos e trinta Wu no registro civil, dos quais pouco mais de cento e quarenta habitavam a área de Estocolmo. Mas nenhum residia na Lundagatan. Mikael pão tinha a menor idéia de quem poderia estar morando com Lisbeth, se ela estava com um namorado ou sublocando o apartamento. Ninguém tinha atendido quando ele tocara a campainha.
Por fim, resolvera escrever uma boa e velha carta à moda antiga.
Olá Sally,
Não sei o que aconteceu um ano atrás, mas a esta altura até o pateta que eu sou já entendeu que você cortou qualquer relação comigo. É um direito e um privilégio seu escolher com quem você quer conviver e não tenho intenção de insistir. Constato simplesmente que ainda a considero minha amiga, sinto falta da sua companhia e seria um prazer tomar um café com você, se a idéia lhe atrai.
Não sei no que você anda metida, mas a briga na Lundagatan me preocupa. Se precisar de ajuda, pode me ligar a qualquer hora. Como sabe, tenho uma dívida imensa com você.
Além disso, estou com a sua bolsa. Se quiser pegá-la, basta dar um sinal de vida. Se não quiser se encontrar comigo, é só deixar um endereço para onde eu possa mandá-la. Você já demonstrou claramente que não quer nenhum contato comigo, portanto não vou tentar te ver.
MIKAEL
É claro que não obtivera resposta.
Ao voltar para casa naquela manhã, depois da agressão na Lundagatan, ele abrira a bolsa de Lisbeth e enfileirara o conteúdo sobre a mesa da cozinha. Havia uma carteira com um cartão de conta dos Correios, cerca de seiscentas coroas suecas e duzentos dólares americanos, assim como um cartão mensal de transportes coletivos em Estocolmo. Um maço de Marlboro light aberto, três isqueiros descartáveis, uma caixa de pastilhas para a garganta, um pacote de lenços de papel, uma escova, uma pasta de dentes e três tampões num bolso à parte, um pacote intacto de preservativos cuja etiqueta revelava que haviam sido comprados no Gatwick Airport de Londres, um caderninho capa dura formato A5, cinco canetas esferográficas, uma bomba lacrimogênea, um estojinho com batom e maquiagem, um rádio FM com fones de ouvido, mas sem pilhas e o Aftonbladet da véspera.
O objeto mais fascinante da bolsa era um martelo facilmente acessível num bolso externo. O ataque, porém, fora tão brutal que Lisbeth não tivera tempo de pegar nem o martelo nem a bomba lacrimogênea. Aparentemente, usara as chaves como soco-inglês — ainda apresentavam vestígios de sangue e pele.
O chaveiro continha seis chaves. Três eram chaves típicas de apartamento - uma da porta da rua, uma comum da porta do apartamento e uma para a fechadura de segurança. Nenhuma delas, porém, abria a porta da Lundagatan.
Mikael tinha aberto e folheado página por página do caderninho. Reconheceu a letra miúda e caprichada de Lisbeth e logo constatou rapidamente que não se tratava exatamente do diário íntimo e secreto de uma moça. Cerca de três quartos estavam cobertos do que pareciam ser rabiscos matemáticos. No alto da primeira página estava uma equação que ele reconhecia mesmo não sendo a matemática nem um pouco a sua praia.
(x3 + y3 = z3)
Mikael Blomkvist nunca tivera dificuldade com números. Passara no vestibular com as melhores notas em matemática, o que não queria dizer que tivesse jeito para a coisa, e sim que simplesmente soubera aproveitar o ensino do colégio. As páginas do caderninho de Lisbeth Salander continham uma rabiscalhada que ele não entendia e não tinha a menor intenção de tentar entender. Uma equação se estendia por duas páginas inteiras e acabava com rasuras e alterações. Era difícil para ele definir se eram fórmulas matemáticas sérias com soluções acertadas, mas, conhecendo os talentos de Lisbeth Salander, imaginou que os cálculos deviam estar corretos e conter algum significado hermético.
Ficou um bom tempo folheando o caderninho. As equações eram mais ou menos tão compreensíveis para ele como se tivesse nas mãos um caderno de signos chineses. Mas entendeu o que ela estava tentando fazer, x3 + y3 = z3. Ficara fascinada pelo enigma de Fermat, um clássico de que ele tinha ouvido falar. Suspirou profundamente.
A última folha do caderninho trazia uma anotação sucinta e misteriosa que não tinha absolutamente nada a ver com matemática mas mesmo assim lembrava algum tipo de fórmula.
(Loiro + Magge) = NEB
Estava sublinhada e enquadrada, e não explicava estritamente nada. Bem embaixo da página estava o número de telefone de uma autolocadora, a Auto-Expert de Eskilstuna.
Mikael não procurou interpretar essas anotações. Concluiu que eram rabiscos que ela fizera enquanto refletia sobre alguma coisa.
Por fim, apagou o cigarro, vestiu o casaco, ligou o alarme da redação e foi caminhando até o terminal de Slussen, onde pegou o ônibus para Lánnersta, o bairro yuppíe da moda. Tinha sido convidado para jantar com sua irmã Annika Blomkvist, cujo sobrenome de casada era Giannini, para festejar seus quarenta e dois anos.
Erika Berger começou o feriadão de Páscoa com uma corrida, três quilômetros de preocupações e raiva que terminaram no pontão da balsa em
Saltsjöbaden. Ela relaxara sua freqüência à academia nos últimos meses e se sentia enrijecida e fora de forma. Voltou para casa caminhando normalmente. Seu marido estava dando uma palestra numa exposição do Museu de Arte Moderna e não voltaria antes das oito. Erika planejava abrir uma boa garrafa de vinho, ligar a sauna e seduzir seu marido. Isso a distrairia do problema que vinha remoendo.