Quatro dias antes, tinha sido convidada para almoçar pelo diretor de um dos grupos de mídia mais importantes da Suécia. Entre duas garfadas de salada e com muita seriedade na voz, ele lhe comunicara a intenção de contratá-la como redatora-chefe do Svenska Morgon-Posten, o maior jornal diário do grupo, o Grande Dragão como era chamado no meio jornalístico. A diretoria considerou vários nomes e todos nós pensamos que você seria um trunfo sensacional para o jornal. Queremos você. A proposta de trabalho vinha acompanhada de um salário que fazia soar como brincadeira o que ela ganhava na Millennium.
A oferta caíra feito um raio e a deixara estupefata. Por que justo eu?
De início, ele fora vago, mas acabara confessando que ela era famosa, respeitada e considerada por todos uma executiva competente. Era impressionante o modo como arrancara a Millennium do lamaçal em que a revista atolara dois anos antes. Em seguida, confessou que o Grande Dragão precisava de sangue novo. O jornal tinha um ar antiquado, que vinha reduzindo constantemente o número de assinantes da nova geração. Erika era conhecida por ser uma jornalista ousada. Era atraente. Colocar uma mulher, feminista ainda por cima, à frente da instituição mais conservadora da Suécia dos Machos era um desafio, era ousado. Estavam todos de acordo. Quase todos, digamos. Quem de fato contava estava de acordo.
—Mas eu não partilho a visão política de base do jornal.
—Não faz mal. Você também não chega a ser uma adversária declarada. Você seria a chefe - não um supervisor político - e, quanto à questão editorial, dá-se um jeito.
Ele não disse, mas era também uma questão de classe social. Erika tinha um passado adequado, e vinha do meio social adequado.
Ela respondeu que estava inclinada a considerar a proposta, mas não podia responder de imediato. Primeiro precisava refletir, e eles combinaram que ela lhe comunicaria sua decisão nos próximos dias. O diretor explicou que se o motivo de sua hesitação era o salário, era provável que ela pudesse negociar aqueles valores para cima. Talvez lhe propusessem, além disso, um pacote de demissão particularmente atrativo. Está na hora de você começar a pensar na aposentadoria, colega.
Ela estava chegando aos quarenta e cinco anos. No início, comera o pão que o diabo amassou. Conseguira criar a Millennium e se tornara diretora da publicação por seus próprios méritos. Aproximava-se inexoravelmente a hora em que seria obrigada a pegar o telefone para dizer sim ou não, e ela não sabia o que responder. Durante a semana, tivera várias vezes a intenção de conversar com Mikael a respeito, o que acabara não acontecendo. Sabia que, pelo contrário, tinha lhe ocultado a história, o que a deixava com uma pontinha de sentimento de culpa.
As desvantagens eram óbvias. Um sim significaria romper sua parceria com Mikael. Ele jamais iria com ela para o Grande Dragão, mesmo que ela lhe fizesse uma proposta com cobertura de chocolate. Ele não precisava do dinheiro e estava muito-bem-obrigado, cuidando de seus próprios textos no seu próprio ritmo.
Ela se sentia bem no seu papel de chefe da Millennium. Ele lhe propiciara, no meio jornalístico, uma posição que ela julgava quase imerecida. Não era ela quem produzia as informações. Não era a sua praia - não achava que tinha um especial talento para a escrita. Em contrapartida, era uma boa jornalista de rádio e televisão e, principalmente, uma diretora brilhante. Gostava do trabalho de improvisação que seu papel de diretora da Millennium lhe impunha.
Mas Erika Berger sentia-se tentada. Nem tanto pelo salário como pelo fato de que aquele emprego a transformaria definitivamente numa das personagens mais influentes do mundo da mídia. Não vai haver uma segunda oferta, dissera o diretor.
Quando passou em frente ao hotel de Saltsjöbaden percebeu, para seu grande desespero, que não conseguiria dizer não. E tremia só de pensar em comunicar a notícia a Mikael Blomkvist.
Como sempre, o jantar com a família Giannini transcorreu numa doce atmosfera de caos. Annika tinha dois filhos - Monica, de treze anos, e Jennie, de dez. Seu marido, Enrico Giannini, que dirigia na Escandinávia urna empresa de biotecnologia internacional, tinha a guarda de Antonio, dezesseis anos, filho de um primeiro casamento. Os demais convidados eram Antonia, mãe de Enrico; Pietro, irmão de Enrico; sua mulher, Eva-Lotta; e seus dois filhos, Peter e Nicola. E ainda a irmã de Enrico, Marcella, que morava no mesmo bairro com seus quatro filhos. Também fora convidada tia Angelina, considerada pela família extremamente esquisita ou, em todo caso, extremamente excêntrica, que vinha acompanhada de seu novo namorado.
O fator caos estava, portanto, relativamente elevado em volta da mesa de jantar de generosas dimensões. A conversa ou, às vezes, várias conversas simultâneas, transcorria numa mescla dissonante de sueco e italiano, e a situação de Mikael não ficava melhor com Angelina perguntando a noite inteira por que ele ainda estava solteiro e sugerindo candidatas adequadas entre suas amigas. Mikael acabou declarando que até se casaria de bom grado não fosse a sua amante infelizmente já ser casada. Com isso, calou a boca de Angelina por algum tempo.
Às sete e meia, o celular de Mikael tocou. Ele pensou que o tivesse desligado e por pouco não perdeu a chamada tentando tirá-lo às pressas do bolso interno do casaco, que alguém pusera no cabide para chapéus no hall de entrada. Era Dag Svensson.
—Estou atrapalhando?
—Não muito. Estou jantando na casa da minha irmã, com um forte contingente da família do marido dela. O que foi?
—Duas coisas. Estou tentando falar com o Christer Malm, mas ele não atende o telefone.
—Ele e o namorado iam ao teatro hoje à noite.
—Droga. Combinei de me encontrar com ele na redação amanhã de manhã e levar as fotos e ilustrações que queremos pôr no livro. Christer ficou de dar uma olhada durante o feriado. Mas a Mia acaba de decretar que quer ir para Dalécarlie na Páscoa, visitar os pais e mostrar a tese para eles. De modo que estamos viajando amanhã de manhã.
—Certo.
—Não posso mandar por e-mail, é um material impresso. Eu poderia mandar alguém levar para você hoje à noite?
—Bem, sim... mas, olha só, estou no Lännersta. Vou ficar mais um tempo por aqui e depois vou para casa. Não vai ser uma volta muito grande assar por Enskede. Posso pegar as fotos na sua casa. Tudo bem se eu chegar por volta das onze?
Para Dag Svensson estava ótimo.
—Outra coisa... e acho que você não vai gostar.
—Fale.
—Estou com um problema no texto.
— Sei.
—Topei aqui com uma coisa que eu queria conferir antes de o livro ir para a gráfica.
—O que é?
—Zala, com Z.
—Zala, o que é isso?
—Zala é um gângster, provavelmente de algum país do Leste, Polônia quem sabe. Eu te falei nele num e-mail, uma ou duas semanas atrás.
—Desculpe, eu tinha esquecido.
—Ele está sempre aparecendo aqui e ali nas minhas histórias. As pessoas parecem ter medo, ninguém quer falar nele.
—Ah, é?
—Faz alguns dias, topei com o nome dele de novo. Acho que ele está na Suécia e que deveria fazer parte da lista dos clientes sexuais do capítulo sete.
—Dag, você não vai alterar tudo faltando três semanas para o livro ser impresso.
—Eu sei. Mas ele é uma espécie de curinga que reaparece constantemente no jogo. Conversei com um tira que também tinha ouvido falar em Zala e... acho que vale a pena dedicar uns dias da semana que vem para verificar isso.
—Por quê? Você já está com escrotos suficientes nesse texto.