—Esse me parece ser um escroto bem especial. Ninguém sabe de fato quem ele é. Tem um passarinho me contando que pode ser interessante fuçar mais um pouco.
—Nunca se deve subestimar os passarinhos - disse Mikael. —Mas sinceramente... não dá para adiar o deadline a esta altura do campeonato. A ata está reservada na gráfica e o livro tem que sair junto com a Millennium.
—Eu sei - respondeu Dag Svensson com um tom de voz abatido.
Mia Bergman acabava de fazer café e colocado na garrafa térmica quando tocaram a campainha. Eram quase nove da noite. Dag Svensson estava mais perto da porta e, achando que era Mikael Blomkvist chegando mais cedo que o previsto, abriu imprudentemente a porta sem olhar pelo olho mágico. Em vez de Mikael, viu-se diante de uma moça que lhe era uma total estranha, uma moça miudinha que parecia uma boneca e que ele confundiu com uma adolescente.
—Eu queria falar com Dag Svensson e Mia Bergman - disse a moça.
—Eu sou Dag Svensson.
—Queria falar com o senhor.
Dag consultou o relógio maquinalmente. Mia Bergman apareceu no hall de entrada e mostrou um rosto curioso atrás de seu companheiro.
—Acho que está meio tarde para uma visita - disse Dag. A moça olhou para ele, calada e cheia de paciência.
—Qual seria o assunto? - ele perguntou.
—Queria falar sobre o livro que você pretende publicar na Millennium. Dag e Mia trocaram um olhar.
—E você, quem é?
—O assunto me interessa. Posso entrar ou vamos ficar de papo aqui na porta?
Dag Svensson hesitou um momento. A moça era sem dúvida uma total desconhecida e o horário da visita não era dos mais habituais, mas parecia suficientemente inofensiva para que ele abrisse a porta toda. Conduziu-a até a mesa de jantar da sala.
—Aceita um café? - perguntou Mia. Dag olhou irritado para a companheira.
—Quem sabe você responde a minha pergunta: quem é você?
—Aceito, obrigada. Quero dizer, o café. Meu nome é Lisbeth Salander. Mia deu de ombros e abriu a garrafa térmica. Já tinha trazido as xícaras prevendo a visita de Mikael Blomkvist.
—E o que a leva a crer que pretendo publicar um livro pela Millennium? - perguntou Dag Svensson.
Súbito, foi tomado por uma forte desconfiança, mas a moça o ignorou e, em vez disso, encarou Mia Bergman. Fez uma careta que podia ser interpretada como um sorriso de esguelha.
É uma tese interessante - disse ela. Mia Bergman ficou estupefata.
—O que você sabe sobre a minha tese?
—Topei com uma cópia dela -respondeu a moça, misteriosa. A irritação de Dag Svensson duplicou.
—Agora, acho que está na hora de você me dizer o que quer - falou com voz rude.
O olhar da moça cruzou com o seu. Ele observou, de repente, que sua pupila era tão escura que, na luz, seus olhos pareciam carvão. Compreendeu que se enganara quanto à sua idade - ela era mais velha do que ele julgara de início.
—Quero saber por que você anda fazendo perguntas sobre Zala, Alexander Zala, por toda parte - disse Lisbeth Salander. —E antes de mais nada, quero saber exatamente o que você sabe sobre ele.
Alexander Zala - pensou Dag Svensson, subitamente chocado. —Nunca tinha escutado o primeiro nome antes.
Dag Svensson examinou a moça à sua frente. Ela ergueu a xícara e tomou um gole de café sem desviar o olhar do dele. Seus olhos eram desprovidos de calor. De repente ele se sentiu vagamente incomodado.
Ao contrário de Mikael e outros adultos do grupo, e embora fosse o seu aniversário, Annika Giannini tomara apenas uma cerveja. Abstivera-se de beber vinho ou aquavit* no jantar. De modo que, por volta das dez e meia, estava absolutamente sóbria e, como em determinadas circunstâncias considerava seu irmão mais velho um perfeito imbecil que precisava de cuidados, ofereceu-se generosamente para levá-lo em casa de carro, via Enskede. De qualquer modo, já tinha planejado levá-lo até o ponto de ônibus de Vãrmdòvágen, e esticar até o centro não tomaria muito mais tempo.
—Por que não compra um carro? - queixou-se assim mesmo, enquanto Mikael punha o cinto de segurança.
—Porque, ao contrário de você, moro suficientemente perto do meu trabalho para ir a pé, e só preciso de carro mais ou menos uma vez por ano.
Além do mais, eu não poderia dirigir, já que o seu marido me fez tomar não sei quantos copos de aquavit.
—Ele está virando sueco. Dez anos atrás, teria te empurrado alguma bebida italiana.
Aproveitaram o trajeto de carro para ter uma conversa de irmãos. Tirando uma tia muito resistente do lado paterno, duas tias um pouco menos resistentes do materno e alguns primos-irmãos ou primos distantes, Mikael e Annika eram os únicos remanescentes da família. Seus três anos de diferença de idade os mantiveram um pouco afastados na adolescência, mas, uma vez adultos, se redescobriram até melhor.
Annika se formara em direito e Mikael a considerava a mais brilhante dos dois. Fizera o curso de vento em popa, passara alguns anos trabalhando num tribunal rural e depois como assistente de um dos mais famosos advogados suecos, até que pediu demissão e abriu seu próprio escritório. Annika se especializara em direito de família, o que aos poucos se transformara num projeto igualitário. Engajara-se como advogada de mulheres maltratadas, escrevera um livro sobre o assunto e se tornara um nome respeitado entre as feministas. Para completar, alinhara-se politicamente com os socialdemocratas, o que dava a Mikael motivo para caçoar dela e chamá-la de oportunista. Mikael, por seu lado, desde muito jovem decidira que não poderia aderir a nenhum partido político se quisesse manter sua credibilidade como jornalista. Até evitava votar e, nas vezes em que o fizera, sempre se negara a revelar em quem, inclusive para Erika Berger.
—Como é que você está? - perguntou Annika enquanto eles passavam pela ponte de Skurubron.
—Estou bem.
—Então qual é o problema?
—Problema?
—Eu te conheço, Micke. Você passou todo o jantar com aquele seu ar pensativo.
Mikael ficou um instante calado.
—É uma história complicada. Estou com dois problemas. Um tem a ver com uma garota que eu conheci há uns dois anos e que me ajudou no caso Wennerström. Aí ela sumiu da minha vida sem uma palavra de explicação. Não tive nenhuma notícia dela por mais de um ano, até a semana passada.
Mikael contou a agressão na Lundagatan.
—Você deu queixa? - Annika logo perguntou.
—Não.
—Por que não?
—Essa garota é muito ciosa da sua vida pessoal. Ela é que foi agredida. Cabe a ela dar queixa.
Mikael desconfiava que essa não devia ser a prioridade de Lisbeth Salander.
—Teimoso - disse Annika dando um tapinha no rosto de Mikael. —Sempre querendo cuidar de tudo. E o segundo problema?
—Estamos para publicar na Millennium uma matéria que vai fazer barulho. Passei a noite me perguntando se eu não deveria te consultar. Quero dizer, como advogada.
Annika olhou, surpresa, para o irmão.
—Me consultar! - exclamou. —Essa é nova.
—A matéria em questão tem a ver com tráfico de mulheres e violência contra a mulher. Você trabalha com violência contra a mulher e é advogada. Eu sei que você não lida com liberdade de imprensa, mas gostaria muito que lesse o texto que vamos publicar. São artigos para a revista e também um livro, é um bocado de coisa para ler.
Annika não disse nada enquanto virava na altura da zona industrial de Hammarby e passava pela eclusa de Sickla. Pegou umas ruazinhas estreitas, paralelas à Nynãsvágen, até subir a Enskedevágen.
—Sabe, Mikael, eu só fiquei realmente chateada com você uma vez na vida.
—Ah, é? - fez Mikael, surpreso.
—Quando você foi condenado no caso Wennerström e pegou aqueles três meses de prisão por difamação. Quase explodi de raiva com você.