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Concluíram que Mikael e Annika deviam ter se desencontrado do assassino por alguns segundos.

Durante um vertiginoso instante, Mikael percebeu que a inspetora Anita Nyberg brincava com a idéia de que ele poderia ser o culpado, que simplesmente descera até o andar de baixo e fingira estar chegando ao local depois que os vizinhos acorreram. Mas Mikael tinha um álibi na pessoa da sua irmã, e uma explicação plausível de como havia passado seu tempo. Seus passos, inclusive a conversa telefônica com Dag Svensson, podiam ser confirmados por muitos membros da família Giannini.

Annika acabou protestando. Mikael oferecera toda a colaboração possí­vel e imaginável. Estava visivelmente cansado e não se sentia bem. Era hora de deixá-lo ir para casa. Lembrou que era a advogada de seu irmão e que ele tinha certos direitos estabelecidos por Deus ou, pelo menos, pelo Parlamento.

Uma vez lá fora, ficaram os dois um bom tempo em silêncio diante do carro de Annika.

—Vá para casa dormir - disse ela. Mikael balançou a cabeça.

—Não, preciso ir até a casa da Erika - disse ele. —Ela também conhecia os dois. Não posso simplesmente contar por telefone e não quero que ela fique sabendo pelo rádio quando acordar.

Annika Giannini hesitou um instante, mas reconheceu que o irmão estava certo.

—Para Saltsjóbaden, então - disse ela.

—Você ainda se sente em condições de me levar?

—E para que serve uma irmã menor?

—Se você me deixar no centro de Nacka, eu pego um táxi ou um ônibus.

—Está brincando. Entre, eu levo você.

12 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MARÇO

Annika Giannini também estava visivelmente cansada, e Mikael conseguiu convencê-la a desistir do longo desvio de quase uma hora pelo promontório de Lánnersta e deixá-lo no centro de Nacka. Deu-lhe um beijo no rosto, agradeceu sua ajuda naquela noite e esperou ela dar a volta no carro e desaparecer pela rua antes de chamar um táxi.

Fazia mais de dois anos que Mikael Blomkvist não vinha a Saltsjöbaden. Antes disso, só em raras oportunidades tinha visitado Erika e o marido. Sinal de imaturidade, sem dúvida, pensava ele.

Mikael ignorava totalmente a maneira como o casal Erika e Lars funcionava. Conhecia Erika desde o início dos anos 1980 e pretendia manter a relação com ela até ficar velho demais para sair de uma cadeira de rodas. Essa relação só fora interrompida durante um curto período no final dos anos 1980, depois que os dois se casaram. A interrupção durara mais de um ano, até ambos se tornarem infiéis.

Pelo lado de Mikael, a situação acabara em divórcio. Pelo de Erika, Lars Beckman concluiu que uma paixão assim era provavelmente um presente da natureza. Imaginar que as convenções ou a moral social poderiam manter aqueles dois longe da cama um do outro era pura ilusão. Ele também explicou que não queria se arriscar a perder Erika como Mikael tinha perdido a mulher.

Quando Erika confessou sua infidelidade, Lars Beckman fora bater à porta de Mikael Blomkvist. Mikael estivera aguardando e temendo essa visita - sentia-se um lixo. Mas Lars Beckman não quebrara a sua cara, e sim lhe propusera uma turnê pelos bares. Três pubs do Södermalm depois, suficientemente bêbados para terem uma conversa séria, tinham se explicado, sentados num banco público do Mariatorget ao raiar do dia.

Mikael mal acreditou quando Lars Beckman lhe explicou, de saída, que se ele tentasse sabotar seu casamento com Erika Berger ele voltaria sóbrio e armado de uma clava, mas que se a questão era apenas desejo da carne e incapacidade da alma para a moderação e a contenção, para ele estava tudo bem.

Mikael e Erika tinham, portanto, mantido seu relacionamento com a aprovação de Lars Beckman e sem tentar lhe esconder o que quer que fosse. Até onde Mikael sabia, o casamento de Lars e Erika continuava feliz. Contentava-se em saber que Lars aceitava o relacionamento deles sem protestar, a ponto de Erika só precisar pegar o telefone, ligar para ele e comunicar que pretendia passar a noite com Mikael quando lhe dava vontade, o que era regularmente o caso.

Lars Beckman nunca expressara a mínima crítica em relação a Mikael. Pelo contrário, parecia achar que a relação de Erica com Mikael tinha um lado bom e que seu próprio amor por Erika se fortalecia pelo fato de ele nunca ter como certa a presença da mulher.

Em contrapartida, Mikael nunca se sentira à vontade na companhia de Lars, duro lembrete de que até os relacionamentos mais livres tinham um preço. De modo que só aparecera no Saltsjöbaden em raras ocasiões, quando Erika dava alguma festa grande em que a ausência de Mikael soaria como provocação.

Ele parou em frente à casa deles, de duzentos e cinquenta metros quadrados. Apesar da sua repulsa em trazer notícias tão ruins, apertou resolutamente o dedo na campainha e o manteve ali por quase quarenta segundos, até que escutou passos. Lars Beckman veio abrir, uma toalha de banho amarrada na cintura e o rosto dormido cheio de uma raiva que se transformou em perplexidade mal desperta quando deu com o amante da mulher na soleira da porta.

—Oi, Lars - disse Mikael.

—Oi, Blomkvist. Que horas são?

Lars Beckman era loiro e magro. Tinha uma quantidade enorme de pelos no peito e nenhum cabelo na cabeça. Tinha uma barba de uma semana e uma enorme cicatriz acima da sobrancelha direita, recordação de um acidente de veleiro que por pouco não acabara mal, muitos anos antes.

—Um pouco mais de cinco horas - disse Mikael. —Você poderia acordar a Erika? Preciso falar com ela.

Lars Beckman imaginou que, se Mikael Blomkvist vencera sua resistência a vir a Saltsjöbaden e encontrar com ele, algo fora do comum estava acontecendo. Além disso, Mikael parecia muito necessitado de um drinque, ou pelo menos de uma cama para recuperar o sono atrasado. Portanto abriu a porta e o fez entrar.

—O que aconteceu? - perguntou.

Antes que Mikael tivesse tempo de responder, Erika Berger desceu a escada, atando o cinto de um roupão atoalhado branco. Estacou a meio caminho quando viu Mikael no hall de entrada.

—Mikael! O que aconteceu?

—Dag Svensson e Mia Bergman - disse Mikael.

Sua fisionomia revelou imediatamente que notícia ele vinha trazer.

—Não!

Ela tapou a boca com a mão.

—Estou vindo da delegacia. Dag e Mia foram assassinados esta noite.

—Assassinados?! - exclamaram Erika e Lars a uma só voz. Erika lançou um olhar cético para Mikael.

—Você quer dizer assassinados mesmo? Mikael meneou a cabeça pesadamente.

—Alguém entrou no apartamento de Enskede e deu um tiro na cabeça deles. Fui eu que encontrei os dois.

Erika sentou-se num degrau da escada.

—Eu não queria que você ficasse sabendo pelo noticiário da manhã - disse Mikael.

Faltava um minuto para as sete, na manhã daquela quinta-feira, quando Mikael e Erika chegaram à redação da Millennium. Erika ligara para Christer Malm a fim de acordá-lo, assim como para a assistente de redação Malu Eriksson, comunicando que Dag e Mia haviam sido mortos naquela noite. Ambos moravam perto, já tinham chegado na redação e ligado a cafeteira elétrica na copa.

—Mas afinal que história é essa? - perguntou Christer Malm. Malu Eriksson agitou a mão para que se calassem e aumentou o volume do noticiário das sete.

Duas pessoas, um homem e uma mulher, foram mortos a tiros tarde da noite de ontem num apartamento em Enskede. A polícia confirma tratar-se de um duplo assassinato. Nenhuma das vítimas era conhecida da polícia. Ignora-se totalmente o motivo. Nossa repórter Hanna Olofsson está no local.

Pouco antes da meia-noite, a polícia foi alertada sobre disparos ocorridos num prédio da Björneborgsvagen, aqui em Enskede. De acordo com um vizinho, houve vários tiros no apartamento. Não foi dado nenhum tipo de explicação e até agora ninguém foi preso. A polícia interditou o apartamento e o exame técnico está em andamento.