Выбрать главу

—Bem conciso - disse Malu, baixando o volume.

E então desatou em prantos. Erika pôs um braço em volta dos seus ombros.

—Puta merda, que horror! - disse Christer Malm, dirigindo-se a ninguém em particular.

—Sentem-se - disse Erika Berger com voz firme. —Mikael... Mikael contou uma vez mais o que acontecera durante a noite. Com voz monocórdia e na prosa neutra de jornalista, descreveu a descoberta dos corpos de Dag e Mia.

—Puta merda, que horror - repetiu Christer Malm. —Isso é uma loucura.

Malu se deixou novamente dominar por seus sentimentos. Recomeçou a chorar sem procurar esconder as lágrimas.

—Desculpem - disse ela.

—Sabe, eu também estou com vontade de chorar - disse Christer. Mikael se perguntou por que não conseguia chorar. Sentia apenas um imenso vazio, mais ou menos como se estivesse anestesiado.

—Por enquanto não sabemos muito - disse Erika Berger. —Precisamos discutir duas coisas. Primeiro, estamos para imprimir o trabalho do Dag Svensson daqui a três semanas. Seguimos com isso? Podemos publicar? Primeira questão. Sobre a segunda, Mikael e eu já começamos a conversar no caminho para cá.

—Não sabemos o porquê desses assassinatos - disse Mikael. - Pode ser alguma coisa na vida particular do Dag e da Mia ou obra de um demente. Mas não podemos excluir que talvez tenha alguma relação com o trabalho deles.

Fez-se um silêncio em volta da mesa. Por fim, Mikael clareou a garganta.

—Estamos, portanto, prestes a publicar um assunto superindigesto, revelando o nome de pessoas que fazem questão de não serem ligadas a essa história. Dag começou a entrevistá-las duas semanas atrás. A minha idéia é que uma dessas...

—Espere - disse Malu Eriksson. —Estamos denunciando três tiras, sendo que um deles trabalha na Säpo e outro na Polícia de Costumes, vários advogados, um procurador e um juiz, e alguns jornalistas nojentos conhecidos. Você está querendo dizer que um deles teria cometido um duplo assassinato para impedir a publicação do livro?

—Sim, não, não sei - disse Mikael, pensativo. —Eles têm um bocado a perder, mas num primeiro impulso eu diria não ser muito esperto da parte deles achar que podem abafar uma história como essa matando um jornalista. Mas a gente também está denunciando um bom número de cafetões e, mesmo usando nomes fictícios, não é muito difícil perceber quem são eles. Alguns já foram condenados por violência.

—Certo - disse Christer. —Mas você descreveu esses assassinatos como verdadeiras execuções. Se entendi bem o que o Dag Svensson tentava mostrar em seu livro é que se trata de um pessoal que não prima pela inteligência. Seriam capazes de cometer um duplo assassinato e se safarem?

—Tem que ser inteligente para usar um berrante? - perguntou Malu.

—Estamos especulando sobre algo que não sabemos - interrompeu Erika Berger. —Mas temos que nos colocar essa pergunta. Se os artigos do Dag - ou, por outra, a tese da Mia - foram o motivo desses assassinatos, precisamos reforçar a segurança aqui da redação.

—E há uma terceira questão - disse Malu. —Será que temos de informar esses nomes à polícia? O que você contou para eles esta noite?

—Respondi a todas as perguntas que me fizeram. Contei sobre o trabalho do Dag, mas não me pediram detalhes e eu não citei nenhum nome.

—É, sem dúvida, o que a gente deveria fazer - disse Erika Berger.

—Não é tão simples - respondeu Mikael. —A rigor, podemos fornecer uma lista de nomes, mas o que a gente vai fazer se a polícia perguntar como chegamos a eles? Não temos o direito de revelar fontes que desejam permanecer anônimas. Isso envolve várias garotas com as quais a Mia conversou.

—Que confusão!- disse Erika. —Voltamos à primeira pergunta - publicamos ou não publicamos?

Mikael levantou a mão.

—Esperem. Podemos até votar, mas acontece que eu sou o editor responsável pela publicação e pela primeira vez na vida estou pretendendo tomar uma decisão sozinho. A resposta é não. Não podemos publicar esse número. É absolutamente impossível se ater ao que estava planejado.

Um silêncio caiu em volta da mesa. Ele prosseguiu:

—Ou, para ser mais exato, tenho muita vontade de publicar, mas na certa, vamos ter que alterar um bocado de coisas. O Dag e a Mia é que respondiam pela maior parte da documentação, e o tema se baseava no fato de que Mia pretendia dar queixa contra as pessoas que iríamos citar. Ela era a especialista na matéria. E nós?

A porta de entrada bateu e Henry Cortez apareceu à porta da sala.

—São o Dag e a Mia? - ele perguntou, ofegante. Todos menearam a cabeça.

—Puta merda. É uma loucura total!

—Como você ficou sabendo? - perguntou Mikael.

—Saí ontem à noite com a minha namorada, e a gente estava voltando para casa quando escutou no rádio do táxi. Os tiras queriam saber se algum motorista tinha pego um cliente naquela região. Reconheci o endereço. Eu tinha que vir.

Henry Cortez parecia tão abalado que Erika se levantou e o abraçou antes de mandá-lo sentar-se. Ela retomou a palavra.

—Acho que o Dag teria gostado que a gente publicasse a história dele.

—E eu acho que a gente deve publicar. O livro, sem nem pensar duas vezes. Mas na atual situação, vamos ter que adiar a publicação.

—E o que a gente vai fazer? - perguntou Malu. —Não é só um artigo que vai ter que ser alterado; é um número temático, vamos precisar refazer toda a revista.

Erika ficou um instante em silêncio. Então sorriu. Seu primeiro sorriso exausto do dia.

—Você estava contando com uns dias feriados na Páscoa, Malu? - ela perguntou. —Pode esquecer. Vamos fazer o seguinte... Você, Malu, eu e o Christer vamos pensar num número totalmente novo, sem Dag Svensson. Quem sabe conseguimos pegar alguns textos que estavam previstos para o número de junho. Mikael... Quantos capítulos prontos do livro do Dag Svensson você tem em mãos?

—Estou com a versão final de nove capítulos, de um total de doze. Estou com a penúltima versão dos capítulos dez e onze. Dag estava para me mandar por e-mail as versões finais, vou ver na minha caixa postal, mas só tenho fragmentos do capítulo doze, que é o último. É onde ele ia fazer uma síntese e apresentar suas conclusões.

—Mas você e o Dag tinham discutido todos os capítulos.

—Eu sei o que ele pretendia escrever, se é o que você quer dizer.

—Bem, você vai cuidar dos textos - do livro e do artigo. Quero saber o quanto falta e se temos como reconstituir o que Dag não teve tempo de entregar. Será que você consegue me dar uma estimativa ainda hoje?

Mikael meneou a cabeça.

—Também quero que você pense sobre o que a gente vai dizer à polícia. Defina o que é inofensivo e a partir de que ponto começamos a ferir a proteção das fontes. Ninguém aqui da revista está autorizado a falar enquanto você não der o seu aval.

—Acho que está bem assim - disse Mikael.

—Você acredita mesmo que o trabalho do Dag pode ter motivado o assassinato dos dois?

—Ou a tese da Mia... não sei. Mas não dá para descartar essa possibilidade.

Erika Berger refletiu um instante.

—Não, não dá para descartar. Você assume as rédeas.

—Que rédeas?

—Da investigação.

—Que investigação?

—A nossa, a nossa investigação, porra! - De repente, Erika Berger ergueu a voz. —O Dag Svensson era jornalista e trabalhava para a Millennium. Se ele foi morto por causa do trabalho, quero saber. Vamos tentar descobrir o que aconteceu. Você se encarrega disso. Para começar, revise todo o material que Dag Svensson nos passou e procure ver se o motivo do crime pode estar ali.

Virou-se para Malu Eriksson.

—Malu, se você me ajudar a esboçar um número novo a partir de hoje, Christer e eu faremos o grosso do trabalho. Mas você trabalhou bastante com o Dag Svensson e nos demais textos do número monográfico. Quero que acompanhe o andamento da investigação policial com o Mikael.