Malu Eriksson meneou a cabeça.
—Henry... você poderia trabalhar hoje?
—É claro.
—Para começar, ligue para os outros colaboradores da Millennium e dê a notícia a eles. Depois ligue para a polícia para tentar descobrir em que pé estão as coisas. Tente descobrir se está prevista uma coletiva de imprensa. A gente tem que se manter a par dos acontecimentos.
—Certo. Primeiro vou ligar para o nosso pessoal, depois dou um pulo até em casa para tomar um banho e comer alguma coisa. Volto em quarenta e cinco minutos, a menos que de lá eu vá direto para a delegacia de Kungsholmen.
—Ficamos em contato durante o dia. Fez-se um breve silêncio em volta da mesa.
—Bem disse Mikael por fim. —Terminamos?
—Acho que sim - disse Erika. —Você está com pressa?
—Estou. Preciso dar um telefonema.
Harriet Vanger estava tomando um café da manhã composto de café e torradas com queijo e geleia de laranja na varanda envidraçada da casa de Henrik Vanger, em Hedeby, quando seu celular tocou. Ela atendeu sem olhar para a tela.
—Bom dia, Harriet - disse Mikael Blomkvist.
—Ora essa. Achei que você era dessas pessoas que nunca se levantam antes das oito.
Exato, desde que eu tenha ido dormir. O que não é o caso hoje. Aconteceu alguma coisa? Você não viu o noticiário? Mikael fez um breve resumo dos acontecimentos daquela noite. Que horror - disse Harriet Vanger. —Como é que você está? Obrigado por perguntar. Já estive melhor. Mas estou te ligando porque afinal você integra o conselho administrativo da Millennium e é justo que você seja informada do que está acontecendo. Aposto que logo algum jornalista vai descobrir que fui eu que encontrei os corpos, o que vai gerar especulações, e quando souberem que o Dag vinha trabalhando para a gente numa revelação de peso, vão chover perguntas.
—Você quer dizer que eu preciso estar preparada. O que eu estou autorizada a falar?
—A verdade. Você foi informada do que aconteceu. Esses assassinatos brutais te deixaram chocada, claro, mas como você não está por dentro do trabalho da redação não pode comentar sobre essas especulações. Cabe à polícia solucionar o crime, não à Millennium.
—Obrigada por me avisar. Posso ajudar em alguma coisa?
—Por enquanto não. Qualquer coisa eu te digo.
—Está bem, Mikael... me mantenha informada, por favor.
13 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MARÇO
Às sete horas da Quinta-feira Santa, a responsabilidade formal pelo inquérito preliminar sobre o duplo assassinato de Enskede fora parar na mesa do procurador Richard Ekström. O procurador de plantão da noite, um jurista relativamente jovem e inexperiente, entendera que os assassinatos de Enskede extrapolavam, e muito, o padrão. Telefonara para acordar o procurador-adjunto do departamento, que por sua vez acordou o adjunto do secretário de segurança do departamento. Em comum acordo decidiram passar o caso para um procurador zeloso e experiente. A escolha recaiu sobre Richard Ekström, de quarenta e dois anos.
Ekström era um homem magro e atlético de um metro e sessenta e sete, tinha cabelos loiros e finos e usava cavanhaque. Estava sempre impecavelmente vestido e, devido à sua baixa estatura, andava com sapatos de salto compensado. Iniciara a carreira de jurista como adjunto do procura dor de Uppsala, onde fora recrutado como investigador pelo Ministério Justiça para adaptar a lei sueca à União Européia. Saíra-se tão bem que fora nomeado chefe de seção. Sobressaíra-se num inquérito sobre as disfunções da segurança judiciária, quando clamara antes por mais eficiência do que pelo aumento de recursos exigido por algumas autoridades. Depois de quatro anos no Ministério da Justiça, passara para o Ministério Público de Estocolmo, onde cuidara de vários casos ligados a assaltos sensacionais ou a crimes de sangue.
No interior da administração, era considerado um socialdemocrata, mas na verdade Ekström era absolutamente alheio a política partidária. Começava a despertar certo interesse na mídia, e nos corredores do poder era um homem que seus superiores observavam de perto. Era definitivamente um candidato potencial para altos cargos e dispunha de uma ampla rede de contatos tanto no meio político como policial. Entre os policiais, as opiniões sobre os talentos de Ekström eram divididas. Seus relatórios ao Ministério de Justiça não apoiavam em nada os grupos que, dentro da polícia, defendiam que a melhor maneira de garantir a segurança judiciária era recrutar um número maior de policiais. Por outro lado, Ekström se sobressaía por sua absoluta firmeza quando conduzia um caso ao tribunal.
Informado pela Criminal sobre os acontecimentos da noite em Enskede, Ekström logo concluiu que aquele era um caso que sem dúvida alguma mexeria fortemente com a mídia. Não se tratava de assassinatos comuns. As vítimas eram uma pesquisadora em criminologia prestes a defender sua tese e um jornalista - palavra que ele detestava ou adorava, conforme a situação.
Pouco depois das sete horas, Ekström teve uma rápida conversa telefônica com o chefe da Criminal regional. Às sete e quinze, pegou o telefone e acordou o inspetor Jan Bublanski, apelidado de Bubolha pelos colegas. Bublanski estava tirando uns dias de folga na Semana Santa para compensar as inúmeras horas extras que acumulara ao longo do ano, mas pediram que interrompesse seu feriado e se apresentasse imediatamente na superintendência da polícia para dirigir as investigações no inquérito dos assassinatos de Enskede.
Bublanski tinha cinquenta e dois anos e trabalhara mais da metade da vida como policial, desde os vinte e três anos. Passara seis anos numa viatura fazendo patrulhas, fora nomeado para a repressão do tráfico de armas e roubos antes de fazer alguns cursos de formação permanente e integrar a seção de crimes violentos na Criminal regional. Nos últimos dez anos, participara precisamente de trinta e três investigações de assassinato ou homicídio. Das dezessete que comandara, catorze foram elucidadas e duas consideradas elucidadas do ponto de vista policial, o que significava que a polícia sabia quem era o culpado, mas não tinha provas suficientes para levá-lo à Justiça. Bublanski e seus colaboradores haviam fracassado em um único caso, seis anos antes. O caso de um alcoólatra, encrenqueiro notório, apunhalado na sua residência, em Bergshamra. O local do crime era um pesadelo de impressões digitais e vestígios de DNA de dezenas de indivíduos que, ao longo dos anos, tinham bebido ou brigado naquele apartamento. Bublanski e seus colegas estavam convencidos de que o assassino pertencia ao círculo de amigos suspeitos do homem, todos alcoólatras e toxicômanos, mas, apesar de um intenso trabalho de investigação, o assassino continuava escarnecendo a polícia. 0 caso, na verdade, estava arquivado.
Ao todo, Bublanski somava uma boa percentagem de êxito e era visto entre os colegas como particularmente qualificado.
Os colegas, porém, consideravam-no um tipo original, em boa parte porque era judeu e usava um quipá em algumas festas da superintendência da polícia. Isso um dia suscitara o comentário de um superintendente, atualmente aposentado, de que era inadequado usar um quipá na superintendência, assim como não aceitaria que um policial andasse por aí de turbante. No entanto, nunca chegou a existir uma verdadeira discussão sobre o assunto. Um jornalista que havia interceptado o comentário começou a fazer perguntas, o que levou o superintendente depressa a se retirar para a sua sala.
Bublanski pertencia à comunidade do Söder, e pedia refeições vegetarianas caso não houvesse comida kasher. Mas não era ortodoxo a ponto de não trabalhar no dia do sabá. Desde o primeiro instante, Bublanski percebeu que o duplo assassinato de Enskede não seria uma investigação rotineira. Richard Ekström tivera uma conversa particular com ele assim que cruzara a porta, pouco depois das oito horas.