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—Está certo. Ainda não tive tempo de ir ao local, mas vocês dois estiveram lá. Quais são suas conclusões?

Anita Nyberg e Oswald Mârtensson trocaram um olhar. Nyberg deixou que seu colega mais velho respondesse.

—Em primeiro lugar, achamos que o assassino estava sozinho. Trata-se de uma verdadeira execução, não de um assassinato comum. A sensação é de que alguém tinha um motivo muito forte para matar Svensson e Bergman, e agiu com muita calma.

—E o que te faz pensar assim? - inquiriu Hans Faste.

—O apartamento estava limpo e em ordem. Não foi um assalto, não houve luta corporal ou coisa assim. Foram disparadas duas balas, e as duas atingiram o alvo bem na cabeça, com muita precisão. Logo, estamos lidando com alguém que sabe manejar uma arma.

—Certo.

—Se a gente der uma olhada aqui no desenho... fizemos uma simulação no local em que o homem, Dag Svensson, foi morto, de muito perto... podemos dizer que foi à queima-roupa. Há queimaduras muito claras em volta do ferimento penetrante. Eu diria que ele foi morto primeiro. Foi projetado contra a mesa de jantar. O assassino provavelmente estava na porta do hall ou na entrada da sala.

—Certo.

—De acordo com as testemunhas, os tiros se sucederam em alguns segundos. Mia Bergman foi morta de longe. Estava provavelmente na porta do quarto e tentou se desviar. A bala atingiu sua orelha esquerda e saiu logo acima do olho direito. A violência do impacto a impeliu para dentro do quarto onde foi encontrada. Ela caiu na beirada da cama e escorregou para o chão.

—Um atirador acostumado a manejar armas - confirmou Faste.

—É mais que isso. Não há nenhuma pegada indicando que o assassino tenha entrado no quarto para verificar quem ele acabava de matar. Ele sabia que a tinha atingido, virou as costas e saiu do apartamento. Foram dois tiros, dois mortos, e em seguida ele foi embora.

—Sim?

—Sem querer me adiantar à análise técnica, desconfio que o assassino usou munição de caça. A morte deve ter sido instantânea. As duas vítimas apresentam ferimentos pavorosos.

Houve um breve silêncio em volta da mesa. Nenhum dos presentes precisava ser lembrado de que existem dois tipos de munição - balas duras inteiramente cobertas de metal, que atravessam o corpo de lado a lado causando um estrago relativamente modesto, e munições flexíveis que se dilatam dentro do corpo e causam um estrago enorme. Há uma imensa diferença entre o estrago que uma bala de nove milímetros de diâmetro pode causar e o de uma bala que se expande até dois ou três centímetros. Este tipo é chamado “munição de caça”, ou “bala expansiva”, e seu objetivo é causar uma hemorragia abundante, o que é visto como uma caridade na caça ao alce, quando se trata de abater o animal o mais rápido possível sem que ele sofra. Por outro lado, as convenções internacionais proíbem o uso de munição de caça nas guerras, já que o infeliz atingido por uma bala expansiva quase sempre morre, pouco importando em que lugar do corpo se dá o impacto.

A polícia sueca, porém, em sua grande sabedoria, introduzira as munições de caça em seu arsenal dois anos antes. O motivo não era muito claro, mas o certo é que se, por exemplo, Hannes Westberg, o famoso manifestante atingido no ventre durante os tumultos de Göteborg em 2001, tivesse sido atingido por uma bala de caça, não teria sobrevivido.

—O objetivo, portanto, era matar - disse Curt Bolinder. Referia-se a Enskede, mas ao mesmo tempo expressava sua opinião no debate silencioso que ocorria em volta da mesa.

Anita Nyberg e Oswald Mârtensson assentiram com a cabeça.

—Depois, temos esse timing incrível - disse Bublanski.

—Exato. Imediatamente depois dos tiros, o assassino saiu do apartamento, desceu a escada, jogou a arma fora e sumiu noite adentro. Pouco depois, provavelmente em questão de segundos, Blomkvist e a irmã chegaram de carro.

—Hmm - fez Bublanski.

—Resta a possibilidade de o assassino ter saído pelo porão. Há uma porta de serviço que ele pode ter usado para chegar ao pátio e alcançar uma rua paralela, atravessando o gramado. Isso se ele tivesse a chave do porão.

—Existe alguma indicação de que ele tenha saído por lá?

—Não.

—Não temos nenhuma pista - disse Sonja Modig. —Mas por que ele jogou a arma fora? Se a tivesse levado - ou simplesmente jogado fora do prédio -, teríamos demorado para achar.

Todo mundo deu de ombros. Ninguém sabia responder àquela pergunta.

—O que pensar sobre Blomkvist? - perguntou Hans Faste.

—Ele estava manifestamente em estado de choque - disse Mârtensson. —Mas agiu de forma correta e coerente, deixou uma impressão positiva. A irmã dele confirmou o telefonema e o trajeto de carro. Não creio que ELE esteja envolvido no caso.

—É um jornalista conhecido - disse Sonja Modig.

—Isso vai fazer o maior barulho na imprensa - confirmou Bublanski. - Mais um motivo para solucionar o caso o mais depressa possível. Bem... Jerker, você, é claro, se encarrega do local do crime e dos vizinhos. Faste, você e o Curt ficam com as vítimas. Quem eram, profissão, círculo de amizades, quem teria motivo para matá-las? Sonja, nós dois vamos trabalhar nos depoimentos da noite passada. Depois você vai reconstituir a agenda de Dag Svensson e Mia Bergman nas vinte e quatro horas que antecederam o assassinato. Vamos tentar nos reunir de novo lá pelas duas e meia.

Quando se pôs ao trabalho, Mikael Blomkvist primeiro se instalou na sala que estivera à disposição de Dag Svensson durante a primavera. De início permaneceu um bom tempo parado, como se estivesse sem coragem de empreender a tarefa. Então ligou o computador.

Dag Svensson tinha seu próprio laptop e fizera boa parte do trabalho em casa, mas nos últimos tempos também ficara dois dias por semana na redação, ou até mais. Na Millennium, usara um antigo PowerMac G3 instalado na sala dos colaboradores. Mikael ligou a máquina e deparou com a miscelânea de coisas em que Dag Svensson estivera trabalhando. Ele usara o G3, sobretudo para pesquisas na internet, mas também havia ali vários arquivos que ele copiara do laptop. Por outro lado, mantinha um backup completo em dois discos ZIP que ele guardava numa gaveta fechada a chave. Todos os dias fazia uma cópia do material novo ou das atualizações. Não tinha aparecido na redação por vários dias, e a última cópia de segurança datava do domingo à noite. Faltavam três dias.

Mikael fez uma cópia do disco ZIP e trancou-a no armário de sua própria sala. A seguir, passou quarenta e cinco minutos percorrendo o conteúdo do disco original, que continha cerca de trinta pastas e inúmeras subpastas. O conjunto representava quatro anos de pesquisa acumulada para o projeto de Dag Svensson sobre o tráfico de mulheres. Leu o nome dos arquivos e procurou o que poderia conter algum material top secret - ou seja, o nome das fontes protegidas de Dag Svensson. Reparou que Dag Svensson era escrupuloso com suas fontes.-.estava tudo reunido numa pasta denominada [FONTES/SIGILO]. A pasta continha cento e trinta e quatro arquivos de variados tamanhos - a maioria pouco volumosos. Mikael selecionou e apagou todos os arquivos. Não os enviou para a lixeira, e sim para um ícone do programa Burn, que apagava em modo seguro.

Em seguida verificou os e-mails de Dag Svensson. Dag ganhara um endereço temporário no Millennium que ele usava tanto na redação como em seu computador pessoal. Tinha uma senha particular, o que não constituía um problema, já que Mikael era o administrador da conta e tinha acesso ao servidor da caixa de mensagens. Baixou uma cópia da correspondência de Dag Svensson e gravou-a num CD.

Por fim, debruçou-se sobre a imensa papelada que incluía obras de referência, notas, recortes de jornal, julgamentos e correspondência que Dag Svensson fora acumulando no caminho. Para não deixar margem ao acaso, ligou a fotocopiadora e fez uma cópia de tudo que parecia ter alguma importância. O processo envolvia um bom milhar de páginas e lhe custou três horas.