Selecionou todo o material que, de uma forma ou de outra, poderia estar relacionado com uma fonte sigilosa. O resultado foi um pacotinho de mais de quarenta páginas A4, principalmente na forma de notas oriundas de dois blocos A4 que Dag Svensson mantivera guardados a chave em sua mesa. Mikael pôs esse pacote num envelope e o levou para a sua própria sala. Depois recolocou a sala de Dag Svensson em ordem.
Só então conseguiu relaxar, e desceu até o 7-Eleven para tomar um café e comer um pedaço de pizza. Imaginava, erroneamente, que a polícia logo iria aparecer para examinar o conteúdo da sala de Dag Svensson.
Bublanski foi brindado com um impulso inesperado nas investigações pouco depois das dez horas, quando o Dr. Lennart Granlund, do Laboratório Criminalístico de Estado, em Linkóping, telefonou.
—É sobre o duplo assassinato de Enskede. -Já?
—Recebemos a arma hoje cedo e ainda não terminei totalmente a análise, mas tenho uma informação que imagino deva interessá-lo.
—Que bom. Me conte tudo o que descobriu - pediu Bublanski, contendo a impaciência.
—A arma é um Colt 45 Magnum, fabricado nos Estados Unidos em 1981.
—A-há!
—Encontramos impressões digitais e, talvez, vestígios de DNA, mas a análise vai levar algum tempo. Também examinamos os projéteis que mataram o casal. Como era de se prever, as balas são mesmo dessa arma. Costuma ser assim, quando uma arma é encontrada na escada do local do crime. As balas estão superfragmentadas, mas conseguimos um pedacinho para poder comparar. Trata-se muito provavelmente da arma do crime.
—Uma arma ilegal, imagino. Você tem um número de série?
—A arma é absolutamente legal. Pertence a um advogado, o doutor Nils Bjurman, e foi comprada em 1983. Ele é membro do clube de tiro da polícia. Há um endereço em nome dele na Upplandsgatan, perto da Odenplan.
—Caramba!
—Encontramos várias digitais na arma. De pelo menos duas pessoas.
—A-há...
—É de se supor que um dos grupos de digitais seja de Bjurman, a não ser que a arma tenha sido roubada ou vendida, mas não há nenhuma indicação de que isso tenha acontecido.
—Ahã... Em outras palavras, temos um indício, como se diz nos filmes.
—Temos, nos nossos arquivos, uma ocorrência relacionada com a segunda pessoa. Digital do polegar e do indicador, mão direita.
—Quem é?
—Uma mulher nascida em 30 de abril de 1978. Foi detida por golpes e ferimentos no metrô da Gamla Stan em 1995. As digitais foram tiradas nessa ocasião.
—E ela tem nome?
—Sim. Lisbeth Salander.
Bublanski, vulgo Bubolha, ergueu as sobrancelhas e anotou o nome e a data de nascimento num bloco que havia em sua mesa.
Ao voltar para a redação depois do seu almoço tardio, Mikael Blomkvist foi direto trancar-se em sua sala, sinalizando assim que não queria ser incomodado. Ainda não tinha tido tempo de conferir todas as informações secundárias nos e-mails e anotações de Dag Svensson. No momento, precisava reavaliar o livro e os artigos com um novo olhar, considerando que seu autor estava morto e já não poderia responder às perguntas espinhosas.
Precisava tomar uma decisão sobre a publicação do livro, assim como descobrir se alguma coisa no meio do material poderia constituir o motivo do assassinato. Ligou o computador e se pôs ao trabalho.
Jan Bublanski ligou para o responsável pelo inquérito preliminar, Richard Ekström, para comunicar-lhe as novidades do laboratório. Decidiram que Bublanski e sua colega Sonja Modig entrariam em contato com o dr. Bjurman para uma conversa - que poderia se transformar em interrogatório ou, inclusive, em indiciamento, se fosse o caso -, ao passo que seus colegas Hans Faste e Curt Bolinder deveriam se concentrar em Lisbeth Salander, pedindo-lhe que explicasse como suas impressões digitais tinham ido parar na arma do crime.
Localizar o Dr. Bjurman de início não apresentou nenhum problema maior. Seu endereço constava no cadastro de contribuintes, no registro de armas e no registro de documentos de carros, além de figurar oficialmente na lista telefônica. Bublanski e Modig foram até Odenplan e conseguiram entrar no prédio da Upplandsgatan na hora em que um rapaz saía.
Depois as coisas se complicaram. Quando tocaram a campainha, ninguém atendeu. Foram até o escritório de Bjurman, em Sankt Eriksplan, e repetiram a manobra, com o mesmo resultado frustrante.
—Ele talvez esteja no tribunal - sugeriu a inspetora Sonja Modig.
—Talvez tenha fugido para o Brasil depois de cometer um duplo homicídio - disse Bublanski.
Sonja Modig meneou a cabeça, enquanto olhava de esguelha para o colega. Sentia-se bem na companhia dele. De bom grado o aceitaria como amante se não fosse mãe de dois filhos e se, tal como Bublanski, não fosse casada e feliz no casamento. Olhando para as placas de latão das demais portas do andar, observou que havia um Norman, dentista, uma empresa de nome N-Consulting e um Rune Hâkansson, advogado.
Bateram à porta de Hâkansson.
—Bom dia, meu nome é Modig e esse é o inspetor Bublanski. Somos da polícia e estou tentando entrar em contato com seu colega e vizinho doutor Bjurman. Por acaso saberia onde podemos encontrá-lo? Hâkansson balançou a cabeça.
—Eu o tenho visto pouco nesses últimos tempos. Ele esteve muito doente há dois anos e praticamente interrompeu toda a sua atividade. A placa continua na porta, mas ele aparece aqui muito pouco, eu diria que a cada dois meses.
—Muito doente?
—Não sei bem. Era uma pessoa muito ativa, e de repente adoeceu. Câncer, sei lá. Não o conheço muito.
—O senhor acha, ou sabe que ele teve câncer? - perguntou Sonja Modig.
—Bem... não sei. Ele tinha uma secretária, Britt Karlsson, ou Nilsson, uma coisa assim. Uma mulher já de certa idade. Foi demitida, e foi ela quem me contou que ele tinha ficado doente, mas eu não sei exatamente o que era. Foi na primavera de 2003. Só voltei a vê-lo no final do ano, e ele tinha envelhecido uns dez anos, estava magro, o cabelo tinha ficado grisalho... então eu pensei em câncer. Por quê? Ele fez alguma coisa?
—Não que a gente saiba - respondeu Bublanski. —Mas queremos falar com ele sobre um caso urgente.
Voltaram ao apartamento da Upplandsgatan e tocaram mais uma vez a campainha de Bjurman. Nenhuma resposta. Por fim, Bublanski pegou o celular e discou o número do celular de Bjurman. A resposta foi: o número chamado não está disponível no momento. Por favor, tente mais tarde.
Tentou o telefone fixo do apartamento. Do corredor, escutaram vagamente o toque do outro lado da porta, até que uma secretária eletrônica atendeu pedindo que fosse deixado um recado. Entreolharam-se e deram de ombros. Era uma da tarde.
—Um café?
—Melhor, um hambúrguer.
Foram até o Burger King da Odenplan. Sonja Modig comeu um Whopper e Bublanski pediu um hambúrguer vegetariano antes de voltarem para a superintendência.
O procurador Ekström convocou uma reunião em sua sala para as duas da tarde. Bublanski e Modig sentaram-se lado a lado na mesa de reunião, perto da janela. Curt Bolinder chegou dois minutos depois e sentou-se na frente deles. Jerker Holmberg entrou carregando uma bandeja cheia de copinhos de papelão com café. Tinha dado um pulo em Enskede e pretendia voltar para lá mais tarde, depois que os técnicos concluíssem seu trabalho.
—Onde está o Faste? - perguntou Ekström.
—Na Comissão de Assuntos Sociais. Ligou há cinco minutos para dizer que ia se atrasar um pouco - respondeu Curt Bolinder.
—Certo. Vamos começar sem ele. O que é que nós temos? - começou Ekström sem fazer cerimônia.
Apontou primeiro para Bublanski.
—Tentamos encontrar o doutor Nils Bjurman. Ele não estava nem em casa nem no escritório. Segundo um conhecido dele, ficou doente há dois anos e praticamente abandonou suas atividades.