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Sonda Modig prosseguiu.

—Bjurman tem cinquenta e seis anos e nenhuma ficha criminal. Atua principalmente como advogado de empresas. Não tive tempo de examinar o passado dele.

—Mas ele é mesmo o dono da arma usada em Enskede?

—Isso é certo. Tem porte de armas e é membro do clube de tiro da polícia - disse Bublanski, meneando a cabeça. —Falei com o Gunnarsson, do departamento de armas; é o presidente do clube e conhece muito bem o nosso homem. Bjurman se tornou membro em 1978 e atuou como tesoureiro de 1984 a 1992. Gunnarsson descreve Bjurman como excelente atirador, calmo, ponderado e muito direto.

—Interessado em armas?

—Segundo o Gunnarsson, Bjurman estava mais interessado na vida social do que no tiro propriamente dito. Gostava das competições, mas nunca passou a imagem de um fanático por armas. Em 1983, participou do campeonato sueco e ficou em décimo terceiro lugar. Nos dez últimos anos, sua presença no tiro diminuiu, só tem aparecido nas assembléias e coisas assim.

—Ele tem outras armas?

—Desde que se tornou membro do clube de tiro, obteve licença de porte para quatro armas de punho. Além do Colt, tinha uma Beretta, uma Smith & Wesson e uma pistola de competição da marca Rapid. Essas três foram vendidas há dez anos por intermédio do clube, e as licenças foram transferidas para outros membros. Nada irregular.

—Nós só não sabemos onde ele se encontra atualmente.

—É verdade. Mas só estamos procurando desde as dez da manhã. Talvez tenha ido passear em Djurgârden, ou esteja hospitalizado, ou seja lá o que for.

Nisso, chegou Hans Faste. Parecia sem fôlego.

—Desculpem o atraso. Tenho novidades, passo agora para vocês? Ekström fez um gesto convidando-o a falar.

—Lisbeth Salander é um nome realmente interessante. Passei o dia na Assuntos Sociais e na Comissão de Tutelas.

Tirou a jaqueta de couro e colocou-a no encosto da cadeira antes de se sentar e abrir um bloco de anotações.

—Comissão de Tutelas? - perguntou Ekström com o cenho franzido.

—É uma fulana superperturbada - disse Hans Faste. —Foi declarada incapaz e colocada sob tutela. E adivinhem quem é o tutor? —Fez uma pausa oratória. —O doutor Nils Bjurman, proprietário da arma usada em Enskede.

Todos franziram o cenho.

Hans Faste levou quinze minutos repassando as informações que reunira sobre Lisbeth Salander.

— Resumindo — disse Ekström, quando Faste concluiu —, temos na arma do crime as impressões digitais de uma mulher que passou a adolescência entrando e saindo do hospital psiquiátrico, que se supõe que ganhe a vida se prostituindo, declarada incapaz pelo tribunal e com tendência manifesta à violência. Como é que ela anda à solta pelas ruas?

—Ela apresentou tendências à violência desde a pré-escola - disse Faste. —Parece uma legítima psicopata.

—Mas ainda não temos nada que a vincule ao casal de Enskede. —Ekström tamborilou com a ponta dos dedos na mesa. —Bem, quem sabe esse duplo homicídio afinal não seja tão difícil de solucionar? Temos o endereço dessa Salander?

—Oficialmente, ela mora na Lundagatan, em Södermalm. O fisco informa que em alguns períodos trabalhou como assalariada na Milton Security, uma empresa de segurança.

—E que tipo de trabalho ela fazia?

—Não sei. Mas era um salário anual bastante modesto, por alguns anos. Faxineira, ou algo assim.

—Hmm - fez Ekström. —Logo saberemos. Mas, por enquanto, me parece urgente encontrar esta Salander.

—Concordo - disse Bublanski. - Mais tarde a gente cuida dos detalhes. Com que, então, temos um suspeito. Faste, você e o Curt corram para a Lundagatan e tentem pegar a Salander. Sejam prudentes - não se sabe se ela tem outra arma nem até que ponto vai a loucura dela.

—Combinado.

—Bubolha - interrompeu Ekström. —O chefe da Milton Security se chama Dragan Armanskij. Eu o conheci há alguns anos durante uma investigação. Pode confiar nele. Vá até lá e converse com ele sobre a Salander. Deve dar tempo de você alcançá-lo antes de ele sair do escritório.

Bublanski parecia irritado, em parte porque Ekström tinha usado o seu apelido e também porque tinha formulado sua proposta como se fosse uma ordem. Seco, meneou a cabeça e voltou o olhar para Sonja Modig.

—Modig, continue procurando o doutor Bjurman. Pergunte nos apartamentos vizinhos. Acho que também é urgente encontrá-lo.

—Está bem.

—Temos que encontrar a ligação entre Salander e o casal de Enskede. E teríamos que conseguir situar Salander em Enskede na hora do crime. Jerker, pegue umas fotos dela para mostrar aos vizinhos. Operação porta a porta no final da tarde. Leve uns policiais uniformizados com você.

Bublanski fez uma pausa e coçou a nuca.

—Caramba, com alguma sorte a gente resolve essa confusão ainda hoje. E eu que achei que ia ser um caso arrastado.

—Outra coisa - disse Ekström. —A mídia está nos pressionando. Prometi uma coletiva às quinze horas. Posso cuidar disso, se alguém da assessoria de imprensa me ajudar. Imagino que alguns jornalistas liguem direto para vocês. Salander e Bjurman ficam em sigilo até segunda ordem.

Todos menearam a cabeça.

Dragan Armanskij planejara deixar o escritório mais cedo que de costume. Era Quinta-feira Santa, e ele e a mulher planejavam passar o feriadão da Páscoa na casa de campo em Blidö. Acabava de fechar sua pasta de documentos e vestir o casaco quando a recepção ligou, avisando que um certo inspetor Jan Bublanski desejava vê-lo. Armanskij não conhecia Bublanski, mas o fato de haver um policial procurando por ele bastou para ele soltar um suspiro e recolocar o casaco no cabide. Não estava com a menor vontade de atender o visitante, porém a Milton Security não podia se dar ao luxo de esnobar a polícia. Foi receber Bublanski no elevador.

—Obrigado por me ceder um pouco do seu tempo - disse Bublanski à guisa de cumprimento. —Meu chefe, o procurador Richard Ekström, mandou lembranças.

Apertaram-se as mãos.

—Ekström. Sim, de fato, estivemos em contato uma ou duas vezes. Já faz alguns anos. Aceita um,.café?

Armanskij parou na frente da máquina antes de abrir a porta de sua sala e convidar Bublanski a sentar-se na confortável poltrona dos visitantes, perto da janela.

—Armanskij... é um nome russo? - perguntou Bublanski, curioso. —O meu nome também é, com ski.

—A minha família é de origem armênia. E a sua?

—Polonesa.

—No que posso ajudá-lo?

Bublanski pegou um bloco de anotações e abriu-o.

—Estou investigando o duplo homicídio de Enskede. Imagino que já tenha visto o noticiário de hoje.

Armanskij aquiesceu com um gesto de cabeça.

—O Ekström me disse que o senhor é discreto.

—Na minha posição, não vale a pena brigar com a polícia. Sei ficar de boca fechada, se é o que quer saber.

—Muito bem. Nesse momento, estamos procurando uma pessoa que trabalhou para o senhor. O nome dela é Lisbeth Salander. O senhor a conhece?

Armanskij sentiu de repente uma bola de cimento se formando em sua barriga. Permaneceu impassível.

—Por que estão procurando a senhorita Salander?

—Digamos que temos motivos para considerá-la interessante para a investigação.

A bola de cimento na barriga de Armanskij se dilatou. A dor era quase física. Desde a primeira vez em que vira Lisbeth Salander, tivera um forte pressentimento de que a vida daquela moça se encaminhava para uma catástrofe. Mas sempre a vira como vítima, não como culpada. Seu rosto continuava impassível.

—Vocês suspeitam que Lisbeth Salander tenha cometido o duplo assassinato de Enskede, é isso? Estou entendendo direito?

Bublanski hesitou por um instante antes de concordar com a cabeça.