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—Não. Ela trabalhava em casa, só aparecia para me entregar os relatórios. Inclusive, era muito raro ela encontrar com um cliente. A não ser talvez...

Uma idéia repentina passou pela mente de Armanskij.

—O quê?

—Bem, existe outra pessoa que ela talvez tenha procurado. Um jornalista com quem ela conviveu bastante dois anos atrás e que ficou o tempo todo me pedindo notícias quando ela esteve fora.

—Um jornalista?

—O nome dele é Mikael Blomkvist. Lembra do caso Wennerström? Bublanski soltou lentamente a maçaneta da porta e se voltou para Dragan Armanskij.

—Foi o Mikael Blomkvist que encontrou os corpos em Enskede. O senhor acaba de estabelecer uma ligação entre Salander e as vítimas.

Armanskij sentiu o peso da bola de cimento em sua barriga.

14 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MARÇO

Sonja Modig tentou ligar três vezes para o Dr. Nils Bjurman num intervalo de meia hora. Foi atendida todas às vezes pela gravação da secretária eletrônica.

Por volta das três e meia, pegou o carro, foi até a Upplandsgatan e tocou a campainha. O resultado foi tão frustrante quanto já fora mais cedo. Passou vinte minutos fazendo um porta a porta no prédio, em busca de algum vizinho que soubesse onde Bjurman estava.

Em onze dos dezenove apartamentos em que tocou ninguém atendeu. Consultou o relógio. Aquela não era, evidentemente, uma boa hora para fazer um porta a porta. E era bem provável que não fosse melhor durante o feriadão da Páscoa. Nos oito apartamentos onde havia alguém em casa, as Pessoas foram muito prestativas. Cinco sabiam quem era Bjurman — aquele senhor polido e bem-educado do terceiro andar. Ninguém sabia onde ele estava. Acabou descobrindo que Bjurman parecia ter relações pessoais com uns dos vizinhos, um empresário chamado Sjöman. Mas ninguém atendeu quando ela bateu à porta com a identificação Sjöman.

Frustrada, Sonja Modig pegou o telefone e resolveu deixar um recado secretária eletrônica de Bjurman. Apresentou-se, deixou o número de seu celular e pediu que Bjurman entrasse em contato com ela imediatamente.

Voltou para a porta do apartamento de Bjurman, pegou seu bloco de anotações e escreveu um bilhete, pedindo que ele lhe ligasse. Juntou seu cartão de visitas e jogou o bilhete pela portinhola da correspondência. Quando ia soltando a portinhola, ouviu o telefone tocar dentro do apartamento. Inclinou-se e escutou atentamente. Depois de quatro toques, a secretária atendeu, mas ela não conseguiu escutar o recado.

Soltou a portinhola da correspondência e fitou a porta. Não soube explicar o impulso que a levou a estender a mão para a maçaneta, mas, para sua imensa surpresa, a porta não estava trancada. Abriu-a e deu uma espiada no hall de entrada.

—Tem alguém aí? - ela chamou baixinho, e apurou o ouvido. Não escutou nenhum barulho.

Deu um passo para dentro do hall e deteve-se, hesitante. O que ela acabava de fazer ao atravessar a porta poderia certamente ser considerado como invasão de domicílio. Ela não tinha ordem judicial para fazer uma busca, nem direito de entrar no apartamento do Dr. Bjurman, mesmo que a porta estivesse aberta. Deu uma espiada à esquerda e vislumbrou boa parte da sala. Acabava de resolver sair do apartamento quando seu olhar topou com uma cômoda no hall. Viu a caixa de um revólver Colt.

Súbito, Sonja Modig sentiu um forte mal-estar. Abriu a jaqueta e puxou a arma, coisa que praticamente nunca fizera.

Puxou a trava de segurança e manteve o cano apontado para o chão enquanto avançava para dar uma olhada na sala. Não notou nada de especial, mas seu mal-estar continuava aumentando. Recuou e olhou na cozinha. Vazia. Entrou num pequeno corredor e abriu a porta do quarto.

O Dr. Nils Bjurman estava atravessado na cama. Seus joelhos encostavam no chão. Parecia estar ajoelhado para sua oração da noite. Estava nu.

Ela o via de perfil. De onde estava Sonja Modig já podia perceber que ele não estava vivo. Metade de sua testa tinha sido arrancada por um tiro na nuca.

Sonja Modig saiu do apartamento andando de costas, e ainda segurava sua arma quando, no corredor, pegou o celular e ligou para o inspetor Bublanski. Não conseguiu falar com ele. Então ligou para o procurador Ekström. Anotou a hora: 16h 18.

Hans Faste contemplou a porta do prédio da Lundagatan onde Lisbeth Salander era oficialmente domiciliada e, portanto, supostamente morava. Olhou de esguelha para Curt Bolinder e depois para o relógio: 16hl0.

Depois de obterem o código de acesso com o síndico, entraram e ficaram escutando em frente à porta identificada como Salander-Wu. Não ouviram nenhum ruído no apartamento e ninguém atendeu quando tocaram. Voltaram para o carro e se posicionaram de modo a vigiar o portão.

Telefonando do carro, descobriram que a pessoa recentemente incluída no contrato habitacional do apartamento era uma certa Miriam Wu, nascida em 1974, antes domiciliada em Sankt Eriksplan, Estocolmo.

Estavam com uma foto de identidade de Lisbeth Salander afixada acima do rádio. Faste, sem cerimônia, declarou que ela não tinha uma cara boa.

—Caramba, as putas estão cada vez mais feias. Tem que estar mesmo a perigo para pegar uma dessas.

Curt Bolinder não respondeu.

Às 16h20, Bublanski ligou avisando que estava saindo do escritório de Armanskij e ia até a Millennium. Pediu que Faste e Bolinder o esperassem na Lundagatan. Precisavam levar Lisbeth Salander para interrogatório, mas o procurador ainda não a considerava vinculada aos assassinatos de Enskede.

—Pois é - disse Faste. —Mais um procurador querendo primeiro uma confissão para indiciar alguém.

Curt Bolinder não disse nada. Distraidamente, ficaram observando as pessoas que passavam nas redondezas.

Às 16h40, o procurador Ekström ligou para o celular de Hans Faste.

—Aconteceram coisas. Encontramos o doutor Bjurman assassinado com um tiro em seu apartamento. Está morto há pelo menos vinte e quatro horas.

Hans Faste se endireitou no assento.

—Entendido. E o que a gente faz?

—Emiti um alerta de busca para Lisbeth Salander. Ela é suspeita de ter cometido três assassinatos. Estou emitindo um alerta de busca nacional. Precisamos apanhá-la. Deve ser considerada perigosa e pode estar armada.

—Entendido.

—Estou mandando uma brigada para a Lundagatan. São eles que vão entrar para neutralizar o apartamento.

—Entendido.

—Vocês têm notícias do Bublanski?

—Ele está na Millennium.

—E aparentemente desligou o celular. Tentem entrar em contato com ele e passar as informações.

Faster e Bolinder trocaram um olhar.

—A questão é saber o que a gente faz se ela aparecer - disse Curt Bolinder.

—Se estiver sozinha e tudo parecer tranqüilo, a gente prende. Se ela tiver tempo de entrar no apartamento, a brigada é que vai intervir. Essa fulana é completamente doida e pelo jeito virou uma assassina. Pode ter outras armas em casa.

Mikael Blomkvist estava exausto quando largou o manuscrito em cima da mesa de Erika Berger e se sentou pesadamente diante dela na poltrona dos visitantes, ao lado da janela que dava para a Götgatan. Passara à tarde tentan-do definir o encaminhamento do livro inacabado de Dag Svensson.

Era uma questão delicada. Fazia pouquíssimas horas que Dag estava morto e seu empregador já pensava numa maneira de administrar seu material jornalístico. Mikael tinha consciência do aspecto cínico e insensível que outros poderiam ver naquela situação. Ele próprio não enxergava as coisas assim. Tinha a impressão de estar em estado de microgravidade. Uma síndrome bem conhecida de todo jornalista investigativo nos momentos de crise.

Enquanto alguns afundam na tristeza, o jornalista investigativo cresce em competência. Apesar da bordoada recebida por todos na redação da Millennium na quinta-feira de manhã, o profissionalismo falou mais alto e foi canalizado para um trabalho intenso.