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Para Mikael, isso era uma evidência. Dag era da mesma têmpera e teria reagido da mesma forma se estivesse no lugar dele. Teria se perguntado o que poderia fazer por Mikael. Dag deixara os originais de um livro explosivo. Trabalhara vários anos coletando dados e selecionando fatos, uma tarefa na qual investira a alma e que não teve oportunidade de levar a cabo.

E, além do mais, ele trabalhava na Millennium.

O assassinato de Dag Svensson e Mia Bergman não significava um trauma nacional como o de Olof Palme, por exemplo, e não haveria luto oficial. Para os funcionários da Millennium, porém, talvez fosse um choque maior - afetava-os diretamente. E Dag Svensson possuía uma ampla rede de contatos no meio jornalístico, que iriam exigir uma resposta a suas indagações.

Cabia agora a Mikael e Erika concluir o trabalho de Dag para o livro, e também responder às perguntas quem e por quê.

—Posso reconstituir o texto - disse Mikael. —Malu e eu vamos ter que retomar o livro linha por linha e acrescentar elementos da nossa pesquisa para conseguir responder às perguntas. De forma geral, basta seguir o fio das anotações de Dag, só fica o problema dos capítulos quatro e cinco, que acima de tudo se baseiam nas entrevistas da Mia, e aí nós simplesmente desconhecemos as fontes. Mas, a não ser por umas poucas exceções, acho que podemos usar as referências da tese dela como fonte primária.

—Falta o último capítulo.

—É verdade. Mas tenho o rascunho do Dag, e falamos tantas vezes sobre isso que sei perfeitamente o que ele tinha a intenção de dizer. Sugiro que a gente o coloque num pós-escrito, onde eu também poderia comentar o raciocínio dele.

—Está bem. Mas vou querer ver antes de dar o meu aval. A gente não pode sair falando como se fosse ele.

—Não se preocupe. Meu capítulo vai ser uma reflexão pessoal, assinada por mim. Vai ficar bem claro que sou eu que está escrevendo e não ele. Vou contar por que ele começou a trabalhar nesse livro e que tipo de homem ele era. E vou concluir recapitulando o que ele me disse em mais de dez conversas que tivemos nos últimos meses. Também posso citar vários trechos do rascunho dele. Pode resultar em algo bem respeitável.

—Droga... estou com uma vontade incrível de publicar esse livro - disse Erika.

Mikael meneou a cabeça. Entendia perfeitamente o que ela queria dizer. Também ele estava impaciente.

—Você tem alguma novidade? - ele perguntou.

Erika Berger depositou os óculos de leitura sobre a mesa e balançou a cabeça. Levantou-se e serviu duas xícaras de café da garrafa térmica, depois se instalou na frente de Mikael.

—O Christer e eu temos um rascunho para o próximo número. Vamos pegar dois artigos que iam para o número seguinte, e pedimos contribuições para os frilas. Só vai ficar um número meio misturado, sem um tema de fato.

Permaneceram um momento calados.

—Você viu o noticiário? - perguntou Erika. Mikael balançou a cabeça.

—Não. Já sei o que eles vão dizer.

—O assassinato ocupa a maior parte do noticiário. Fora isso, só falam numa tomada de posição dos liberais.

—O que significa que não está acontecendo absolutamente mais nada no país.

—A polícia ainda não divulgou o nome de Dag e Mia. Eles são descritos como um casal “exemplar”. Ainda não disseram que foi você que os encontrou.

—Aposto como os tiras vão fazer de tudo para esconder essa informação. Isso, pelo menos, joga a nosso favor.

—Por que a polícia ia querer ocultar isso?

—Porque a polícia, por princípio, não gosta do estardalhaço que a mídia faz. Eu tenho algum valor como objeto de informação, portanto os tiras acham muito bom que ninguém saiba que fui eu que encontrei os dois. Imagino que a coisa vá acabar vazando hoje à noite ou amanhã.

—Tão jovem e já tão cínico.

—Não estamos mais tão jovens, Ricky querida. Pensei nisso quando aquela policial me interrogou na noite passada. Ela parecia ter idade de ainda estar na escola.

Erika deu uma risadinha. Ela conseguira dormir algumas horas na noite anterior, mas também começava a sentir cansaço. Em breve, iria surpreender todo mundo apresentando-se como redatora-chefe de um dos maiores jornais do país. Não - não é um bom momento para anunciar a novidade ao Mikael.

—O Henry Cortez me ligou agora há pouco. Um tal de Ekström, que está à frente do inquérito preliminar, deu uma espécie de coletiva de imprensa lá pelas três da tarde - disse ela.

—Richard Ekström?

—Sim. Você conhece?

—Uma figura política. Barulho garantido na mídia. As vítimas não eram dois feirantes imigrados. Vai haver o maior estardalhaço em torno dessa história.

—Em todo caso, ele afirma que a polícia está seguindo algumas pistas e tem esperança de que irá resolver o caso rapidamente. Em suma: não disse nada. Em compensação, a sala da coletiva estava lotada de jornalistas.

Mikael deu de ombros. Esfregou os olhos.

—Não consigo me livrar da visão do corpo da Mia. Já pensou? Eu acabava de conhecer os dois.

Erika meneou tristemente a cabeça.

—Só nos resta esperar. Deve ser um louco varrido...

—Não sei. Fiquei pensando nisso o dia todo.

—O que você quer dizer?

—A Mia foi atingida de lado. Vi que a bala entrou de um lado do pescoço e saiu pela testa. O Dag foi morto de frente, com um tiro na testa, e a bala saiu por trás da cabeça. Até onde pude ver, só houve dois disparos. Não dá a impressão de ser coisa de um demente.

Erika contemplou o colega, pensativa.

—O que você está tentando me dizer?

—Se não é coisa de um demente, é que deve haver um motivo. E quanto mais eu penso nisso, mais tenho a impressão que este manuscrito é a porra do motivo.

Mikael apontou para o calhamaço de papéis em cima da mesa de Erika. Erika acompanhou seu olhar. Então seus olhares se cruzaram.

—Não há necessariamente uma relação com o livro em si. Eles talvez tenham fuçado demais e conseguido... não sei. Alguém se sentiu ameaçado.

—E contratou um matador. Micke, essas coisas acontecem nos filmes americanos. Esse livro é sobre clientes sexuais. Envolve principalmente tiras, políticos, jornalistas... Quer dizer que um deles é que teria matado o Dag e a Mia?

—Não sei, Ricky. Mas estávamos a três semanas de publicar a bomba mais explosiva que já se publicou na Suécia sobre tráfico de mulheres.

Nisso, Malu Eriksson apontou a cabeça no vão da porta e anunciou que um tal inspetor Jan Bublanski desejava falar com Mikael Blomkvist.

Bublanski apertou a mão de Erika Berger e Mikael Blomkvist e sentou-se na terceira poltrona perto da janela. Observou Mikael Blomkvist e viu um homem com olhos fundos e o rosto coberto por uma barba de dois dias.

—Alguma novidade? - perguntou Mikael Blomkvist.

—Talvez. Quer dizer que foi o senhor quem descobriu o casal em Enskede ontem à noite e alertou a polícia.

Mikael meneou a cabeça, cansado.

—Eu sei que já contou tudo à brigada de plantão, mas gostaria que me esclarecesse alguns detalhes.

—O que quer saber?

—Por que o senhor foi à casa de Svensson e Bergman tão tarde da noite?

—Isso não é um detalhe, é uma novela inteira — disse Mikael com um sorriso cansado. —Eu estava jantando na casa da minha irmã, ela mora no gueto dos novos-ricos, em Stàket. O Dag Svensson me ligou no celular dizendo que não ia ter tempo de ir até a redação na Quinta-feira Santa, hoje, portanto, como havíamos combinado de manhã. Ele precisava deixar umas fotos para o Christer Malm. Explicou que ele - a Mia tinham resolvido passar a Páscoa com os pais dela e queriam viajar bem cedo. Perguntou se poderia deixar as fotos na minha casa antes de viajar. Falei que como eu estava mesmo ali perto, podia fazer um desvio e pegar as fotos quando saísse da casa da minha irmã.

—Quer dizer então que o senhor foi até Enskede para pegar umas fotos.