Mikael assentiu.
—Vocês conseguem imaginar algum motivo para matarem Svensson e Bergman?
Mikael e Erika trocaram um olhar discreto. Ambos permaneceram em silêncio.
—Sim, estou escutando... - disse Bublanski.
—É claro que nós conversamos sobre o assunto hoje, mas não concordamos totalmente. Ou melhor: concordamos, só que não estamos muito seguros. Não dá para falar bobagem.
—Fale assim mesmo.
Mikael explicou o conteúdo do livro de Dag Svensson e uma eventual relação com os assassinatos que Erika e ele tinham imaginado. Bublanski ficou alguns instantes calado, digerindo a informação.
—Se eu entendi bem, Dag Svensson estava prestes a denunciar alguns policiais.
Ele não estava gostando nada do rumo da conversa e já podia imaginar uma “pista policial” circulando algum tempo na mídia, enfeitada com todo tipo de delírio sobre um vasto complô.
—Não - respondeu Mikael. —O Dag Svensson estava prestes a denunciar criminosos, sendo que entre eles, por acaso, há alguns policiais. Também há gente da minha profissão, ou seja, jornalistas.
—E vocês estão pretendendo tornar pública essa informação? Mikael virou-se vagamente para Erika.
—Não - disse Erika Berger. —Passamos o dia cancelando o trabalho do próximo número, que já estava em andamento. Muito provavelmente, vamos publicar o livro de Dag Svensson, mas só quando soubermos o que aconteceu, e nas atuais circunstâncias o livro precisa ser retrabalhado. Não temos a menor intenção de sabotar a investigação da polícia sobre o assassinato de dois amigos nossos, se é isso que o preocupa.
—Vou precisar dar uma olhada na sala de Dag Svensson, e, como se trata da redação de uma revista, um mandato de busca poderia mexer com algumas suscetibilidades.
—Vai encontrar todo o material no laptop do Dag - disse Erika.
—Ótimo - disse Bublanski.
—Revistei a sala do Dag Svensson - disse Mikael. —Peguei algumas anotações que identificam fontes que desejam permanecer anônimas. O resto está à sua disposição, e já deixei um cartaz pedindo para que não mexam em nada e nem mudem nada de lugar. Mas tem também o conteúdo do livro de Dag Svensson, que está sob sigilo até ser publicado. Não queremos que o manuscrito vá parar nas mãos da polícia, principalmente porque estamos prestes a denunciar policiais.
Droga, pensou Bublanski. Por que não mandei alguém aqui já de manhã cedo? Então deixou o assunto de lado.
- Bem. Há uma pessoa que gostaríamos de ouvir sobre esses assassinatos. Tenho motivos para acreditar que o senhor a conhece. Gostaria que me dissesse tudo o que sabe sobre uma mulher chamada Lisbeth Salander.
Pelo espaço de um segundo, Mikael Blomkvist ficou parecendo um ponto de interrogação vivo. Bublanski observou Erika Berger lançar um olhar penetrante para Mikael.
—Não estou entendendo.
—O senhor conhece a Lisbeth Salander.
—Sim, conheço a Lisbeth Salander.
—Conhece como?
—Por que está me perguntando isso? Bublanski fez um gesto irritado com a mão.
—Acabei de dizer, queremos ouvi-la sobre os assassinatos. Como é que o senhor a conhece?
—Mas... isso não faz sentido. A Lisbeth Salander não tem a menor ligação com o Dag Svensson ou a Mia Bergman.
—Esse ponto vai ser examinado com todo o cuidado - respondeu Bublanski pacientemente. —Mas a pergunta permanece. Como conheceu Lisbeth Salander?
Mikael passou a mão nas faces ásperas e esfregou os olhos, enquanto os pensamentos davam voltas em sua cabeça. Por fim, sustentou o olhar de Bublanski.
—Contratei a Lisbeth Salander para fazer uma pesquisa para mim num outro caso, dois anos atrás.
—Do que se tratava?
—Lamento, mas aí entramos em questões relativas à constituição e à proteção de fontes, esse tipo de coisa. Vai ter que acreditar na minha palavra: não tinha absolutamente nada a ver com Dag Svensson e Mia Bergman. Era um outro caso, que hoje já está encerrado.
Bublanski avaliou as palavras de Mikael. Não gostava quando alguém afirmava que existem segredos que não podem ser revelados, mesmo no contexto de uma investigação de homicídio, mas optou por deixar para lá por enquanto.
—Qual foi a última vez que viu Lisbeth Salander? Mikael refletiu antes de responder.
—A situação é a seguinte: no outono de dois anos atrás, convivi com Lisbeth Salander. Nosso relacionamento se encerrou na época do Natal. Depois disso, ela saiu da cidade. Fiquei mais de um ano sem vê-la, até uma semana atrás.
Erika Berger ergueu uma sobrancelha. Bublanski supôs que aquilo fosse novidade para ela.
—Fale sobre esse encontro.
Mikael inspirou fundo e então descreveu sucintamente o incidente em frente ao prédio de Lisbeth Salander, na Lundagatan. Bublanski escutou, cada vez mais surpreso, tentando definir se Blomkvist estaria inventando aquilo tudo ou dizendo a verdade.
—Quer dizer então que não falou com ela?
—Não, ela sumiu entre os prédios no alto da Lundagatan. Esperei um bom tempo, mas ela não voltou. Escrevi uma carta pedindo para ela me dar notícias.
—E não sabe de nenhuma ligação entre ela e o casal de Enskede?
—Nenhuma.
—Bem... pode me descrever essa pessoa que o senhor diz que a agrediu?
—Eu não estou apenas dizendo. Ela foi atacada, se defendeu e fugiu. Eu estava a uns cinquenta metros. Era bem de noite e estava escuro.
—O senhor tinha bebido?
—Eu estava meio alto, sem dúvida, mas não bêbado de cair. Ele era loiro, tinha um rabo de cavalo. Usava uma jaqueta curta escura. Tinha uma barriga imensa. Quando cheguei ao alto da escadaria da Lundagatan, só o vi de costas, e ele se virou para me bater. Tive a impressão de que era um rosto magro, com olhos claros muito juntos.
—Por que não me contou isso antes? - perguntou Erika Berger. Mikael Blomkvist deu de ombros.
—Teve o final de semana, e você foi para Göteborg participar daquele maldito debate na tevê. Na segunda, você não estava, e na terça, a gente mal se cruzou. A história foi se diluindo.
—Mas considerando-se o que houve em Enskede... por que não contou esse incidente para a polícia? - perguntou Bublanski.
—E por que contaria? Sendo assim, eu também podia contar que um mês atrás peguei no ato um batedor de carteiras tentando me roubar no metrô. Não há nenhuma relação significativa entre a Lundagatan e o que aconteceu em Enskede.
—Mas o senhor não comunicou a agressão à polícia?
—Não - Mikael hesitou. —A Lisbeth Salander é uma pessoa que gosta do anonimato. Pensei em prestar queixa, mas depois achei que cabia a ela fazer isso. Eu queria, pelo menos, falar com ela antes.
—E o senhor não fez isso?
—Não falo com Lisbeth Salander desde o Natal do ano passado.
—Por que a... relação de vocês, se é que a palavra é essa, acabou?
O olhar de Mikael se ensombreceu. Ele pensou na resposta antes de falar.
—Não sei. Ela cortou contato comigo da noite para o dia.
—Aconteceu alguma coisa?
—Se está pensando em alguma briga ou esse tipo de coisa, não. Estávamos em muito bons termos. Um dia depois do Natal, ela parou de atender ao telefone. Depois, sumiu da minha vida.
Bublanski refletiu sobre a explicação de Mikael. Parecia sincera e era confirmada por Dragan Armanskij, cuja descrição do sumiço de Lisbeth Salander da Milton Security era mais ou menos parecida. Aparentemente, acontecera alguma coisa com Lisbeth Salander no inverno do ano anterior. Virou-se para Erika Berger.
—Também conhece a Lisbeth Salander?
—Só nos vimos uma vez. O senhor poderia me explicar por que está fazendo todas essas perguntas sobre a Lisbeth Salander, relacionadas ao crime de Enskede? - perguntou Erika Berger.
Bublanski balançou a cabeça.
—Existe uma ligação entre ela e o local do crime. É só o que posso dizer. Em compensação, posso dizer que quanto mais ouço falar em Lisbeth Salander, mais perplexo eu fico. Como é que ela era, como pessoa?