—Sob que ponto de vista? - perguntou Mikael.
—Como o senhor a descreveria?
Mikael permaneceu um bom tempo em silêncio.
—É uma pessoa muito sozinha e diferente. Socialmente fechada. Não gostava de falar de si mesma. Ao mesmo tempo, é dotada de uma vontade muito forte. E tem um grande senso moral.
—Moral?
—Sim. Uma moral muito própria. Ninguém consegue obrigá-la a nada que não seja da vontade dela. No mundo da Lisbeth, as coisas ou são “boas” ou são “ruins”, por assim dizer.
Bublanski pensou que Mikael Blomkvist, mais uma vez, a descrevia do mesmo modo que Dragan Armanskij. Dois homens que a conheciam a avaliavam da mesma maneira.
—Conhece Dragan Armanskij? - perguntou Bublanski.
—Nos vimos duas ou três vezes. Tomei uma cerveja com ele no ano passado, na época em que eu tentava descobrir o que era feito da Lisbeth.
—O senhor disse que ela era uma investigadora competente - repetiu Bublanski.
—A melhor que eu já conheci - repetiu Mikael.
Bublanski tamborilou com os dedos durante uns segundos, enquanto contemplava pela janela a multidão que andava pela Götgatan. Sentia-se estranhamente dividido. O dossiê da psiquiatria legal que Hans Faste obtivera na Comissão de Tutelas afirmava que Lisbeth Salander era uma pessoa marcada por transtornos psíquicos profundos, inclinada à violência e praticamente retardada. As respostas fornecidas tanto por Armanskij como por Blomkvist contrariavam com veemência a imagem que a avaliação psiquiátrica firmara ao longo de anos de observação. Ambos a descreviam como uma pessoa diferente, mas ambos tinham também uma pontinha de admiração na voz.
Blomkvist também dizia que tinha convivido com ela por algum tempo o que indicava algum tipo de relação sexual. Bublanski se perguntava que regras eram levadas em conta quando se declarava uma pessoa incapaz. Blomkvist poderia ter cometido alguma forma de abuso sexual ao explorar uma pessoa em situação de dependência?
—E como o senhor encarava a deficiência de socialização dela? - perguntou.
—Deficiência? - perguntou Mikael.
—A colocação sob tutela e seus problemas psíquicos.
—Colocação sob tutela? - exclamou Mikael.
O olhar de Bublanski passou de Mikael Blomkvist para Erika Berger. Eles não sabem. Eles realmente não sabem. Súbito, Bublanski ficou muito irritado com Armanskij, Blomkvist e, sobretudo, com Erika Berger e suas roupas chiques e seu escritório elegante com vista para a Götgatan. Essa aí é das que impõem suas opiniões aos outros. Direcionou, porém, sua irritação a Mikael.
—Não consigo entender qual o problema com o senhor e com Armanskij - disse.
—Como?
—A Lisbeth Salander andou entrando e saindo do HP desde a adolescência - Bublanski disse afinal. - Um exame de psiquiatria legal e um julgamento proferido pelo tribunal de instâncias determinaram que ela não tem condições de gerir a própria vida. Foi declarada incapaz. Ela tem uma comprovada tendência à violência e manteve relações conflituadas com as autoridades a vida inteira. E agora é altamente suspeita de... cumplicidade num duplo homicídio. Mas tanto o senhor como Armanskij falam nela como se fosse uma espécie de princesa.
Mikael Blomkvist quedou-se absolutamente imóvel e fitou Bublanski.
—Permitam que eu coloque as coisas assim - prosseguiu Bublanski. —Estávamos procurando um elo entre Lisbeth Salander e o casal de Enskede. E o que se descobriu é que esse elo é o senhor, que encontrou os corpos. Gostaria de comentar esse fato?
Mikael se recostou na cadeira. Fechou os olhos e tentou recapitular a situação. Lisbeth Salander era suspeita de ter assassinado Dag e Mia. Não pode ser. É absurdo. Ela seria capaz de matar? De repente, Mikael se lembrou do rosto dela, dois anos antes, quando se jogara sobre Martin Vanger com um taco de golfe. Ela o teria matado sem pensar duas vezes. Não matou porque teve de parar para salvar a minha vida. Tocou maquinalmente o pescoço, no lugar onde o nó corrediço de Martin Vanger o apertara. Agora, Dag e Mia... não faz sentido.
Ele tinha consciência de que Bublanski o observava atentamente. Tal como Dragan Armanskij, ele tinha uma escolha a fazer. Se Lisbeth Salander era suspeita de assassinato, mais cedo ou mais tarde ele seria obrigado a decidir de que lado do ringue queria ficar. Culpada ou inocente?
Antes que tivesse tempo de responder, o telefone da mesa de Erika tocou. Ela atendeu e passou o aparelho para Bublanski.
—Um tal de Hans Faste quer falar com o senhor.
Bublanski pegou o telefone e escutou com atenção. Mikael e Erika viram sua fisionomia se alterar.
—Vão entrar quando? Silêncio.
—Qual é mesmo o endereço?... Lundagatan... entendido, não é muito longe, estou indo.
Bublanski se levantou de repente.
—Me desculpem, preciso interromper nossa conversa. Acabam de achar o atual tutor de Lisbeth Salander morto com um tiro, e a partir de agora ela está sendo procurada e acusada, à revelia, de três assassinatos.
Erika Berger ficou boquiaberta. Mikael Blomkvist parecia ter sido atingido por um raio.
Entrar no apartamento da Lundagatan foi um procedimento relativamente simples do ponto de vista tático. Hans Faste e Curt Bolinder se encostaram no capô do carro e ficaram esperando os homens do grupo de intervenção, pesadamente armados, ocuparem a escadaria e entrarem no pátio.
Passados dez minutos, o comando constatara o que Faste e Bolinder já sabiam. Ninguém atendia quando batiam na porta.
Hans Faste olhou para a rua que, para irritação dos passageiros do ônibus 66, estava bloqueada entre a Zinkensdamm e a igreja de Högalid. Um ônibus se achava preso na subida da área interditada e não podia mais avançar nem recuar. Por fim, Faste se aproximou e ordenou a um policial uniformizado que se afastasse e deixasse o ônibus seguir. Da passarela sobre a Lundagatan, uma porção de curiosos contemplava a cena caótica.
—Deve haver um jeito mais simples - disse Faste.
—Mais simples que o quê? - perguntou Bolinder.
—Mais simples que chamar um comando toda vez que se vai prender um delinquente nos dias de hoje.
Curt Bolinder se absteve de fazer um comentário.
—Afinal, trata-se de uma mina de um metro e cinquenta que deve pesar uns quarenta quilos - disse Faste.
Ficara decidido que não seria preciso arrombar a porta. Bublanski chegou enquanto eles esperavam que um chaveiro furasse a fechadura e se afastasse para deixar entrar a tropa no apartamento. Levaram cerca de oito segundos para inspecionar os quarenta e nove metros quadrados e concluir que Lisbeth Salander não estava escondida debaixo da cama, nem no banheiro, nem dentro de um armário. Em seguida, fizeram sinal para que Bublanski entrasse.
Os três policiais examinaram com olhar curioso o apartamento impecavelmente limpo e arrumado com muito bom gosto. Os móveis eram simples. As cadeiras da cozinha tinham sido pintadas em diferentes tons pastel. Nas paredes havia fotos artísticas em preto e branco, emolduradas. Num vão do hall de entrada, uma prateleira com um CD-player e uma vasta coleção de discos. Bublanski observou que a seleção era ampla, indo do hard rock à ópera. Parecia tudo muito in. Estético. De muito bom gosto.
Curt Bolinder examinou a cozinha e não achou nada de especial. Folheou uma pilha de jornais e verificou a bancada, os armários e o congelador.
Faste abriu os armários e as gavetas da cômoda do quarto. Deu um assobio ao descobrir umas algemas e um bocado de brinquedos sexuais. Num armário, encontrou uma coleção de roupas de látex que deixaria sua mãe encabulada, mesmo que ela desse só uma rápida olhada naquilo.
—Essas duas parece que não se entediam! - disse ele, brandindo um vestido de vinil que, de acordo com a etiqueta, era uma criação da Domino Fashion. —Sabe lá o que é isto.