Bublanski notou, sobre o móvel do hall, uma pequena pilha de cartas ainda fechadas e endereçadas a Lisbeth Salander. Deu uma olhada e constatou que se tratava de faturas e extratos bancários, além de uma carta pessoal. Era de Mikael Blomkvist. Quer dizer que, até aí, a história de Blomkvist estava batendo. Em seguida, abaixou-se para juntar a correspondência no chão, atrás da porta, pisoteada pela tropa de intervenção. Estavam ali a revista Thai Pro Boxing, o jornal gratuito Sòdermalmsnytt e três envelopes. Todos endereçados a Miriam Wu.
Bublanski foi tomado por uma suspeita desagradável. Entrou no banheiro e abriu o armário acima da pia. Encontrou uma caixa de analgésicos e meio frasco de Citadon. O Citadon só era vendido com receita médica. A etiqueta do frasco mencionava Miriam Wu. Havia uma única escova de dente no armário.
—Faste, por que está escrito Salander-Wu na porta? - perguntou. —Não faço idéia — respondeu Faste. —Está bem, vou perguntar de outro jeito: por que tem correspondência para uma tal de Miriam Wu no hall e um frasco de Citadon para Miriam Wu no armário do banheiro? Por que só há uma escova de dente? E por que... se, de acordo com as informações, Lisbeth Salander tem mesmo o tamanho de uma menina... por que esta calça de couro que você tem na mão parece servir numa pessoa que mede no mínimo um metro e setenta e cinco?
Houve um silêncio constrangido no apartamento. Foi quebrado por Curt Bolinder.
—Merda! - disse ele simplesmente.
15 - QUINTA-FEIRA 24 DE MARÇO
Christer Malm se sentia cansado e deprimido quando finalmente voltou para casa depois daquele dia de trabalho imprevisto. Da cozinha vinha o aroma de um prato exótico, e ele foi dar um beijo no namorado.
—Como você está? - perguntou Arnold Magnusson.
—Como um saco de merda - disse Christer.
—Falaram no assunto o dia inteiro no noticiário. Ainda não deram nenhum nome. Mas é uma história horrorosa.
—É bem isso, uma história horrorosa. O Dag trabalhava para nós. Era um amigo, eu gostava muito dele. Eu não conheci a companheira dele, a Mia, mas o Micke conheceu, e a Erika também.
Christer olhou para a cozinha. Eles acabavam de comprar aquele apartamento no Allhelgonatan e fazia só três meses que tinham se mudado. De repente, o apartamento se transformara num mundo completamente estranho.
O telefone tocou. Christer e Arnold se olharam e decidiram ignorar. Em seguida, a secretária eletrônica foi acionada e eles ouviram uma familiar.
—Christer. Você está aí? Atende.
Erika Berger estava ligando para avisar que a polícia suspeitava que a antiga investigadora de Mikael Blomkvist era a autora do assassinato de Dag e Mia.
Christer recebeu a notícia com uma sensação de irrealidade.
Henry Cortez perdera a invasão da Lundagatan pelo simples motivo de que estivera o tempo todo em frente ao centro de comunicação da polícia e, concretamente, ainda estava lá, esperando por notícias. Nada de novo surgira desde a breve coletiva de imprensa no início da tarde. Ele estava cansado, com fome e nervoso por ser regularmente rechaçado pelas pessoas que tentava contatar. Só por volta das seis horas, depois de terminada a blitz no apartamento de Lisbeth Salander, é que ele conseguiu interceptar um comentário de que a polícia tinha um suspeito. O mais irritante é que essa informação vinha de um colega da imprensa vespertina mais enturmado com a sua redação. Pouco depois, Henry finalmente conseguiu o número do celular pessoal do procurador Richard Ekström. Apresentou-se e fez as perguntas apropriadas: quem, como e por quê.
—De que veículo o senhor disse que era? - perguntou Richard Ekström.
—Da revista Millennium. Eu conhecia uma das vítimas. De acordo com uma fonte, a polícia está procurando por uma pessoa específica. O que está acontecendo?
—Não posso adiantar nada por enquanto.
—Quando o senhor vai poder me dizer alguma coisa?
—Talvez haja outra coletiva de imprensa mais tarde.
O procurador Richard Ekström parecia evasivo. Henry Cortez mexeu na argola de ouro que usava na orelha.
—As coletivas de imprensa são mais dirigidas aos jornalistas de informação geral, que repassam o fato para divulgação imediata. Eu trabalho para uma revista mensal e temos um interesse bem pessoal em saber o que anda acontecendo.
—Não posso ajudá-lo. Vai ter que esperar como todo mundo.
—De acordo com as minhas fontes, estão procurando por uma mulher. De quem se trata?
—Não posso dizer nada.
—O senhor desmente que estejam procurando uma mulher?
—Não, já disse: não posso dizer nada...
O inspetor Jerker Holmberg estava parado na porta do quarto contemplando, pensativo, a enorme poça de sangue no lugar onde Mia Bergman tinha sido encontrada. Virando a cabeça, sem mudar de lugar, avistava uma poça semelhante ali onde estivera Dag Svensson. Pensava na grande quantidade de sangue. Havia muito mais sangue que em outros ferimentos a bala que ele já tinha visto, o que indicava que tinham usado uma munição capaz de causar um estrago terrível, o que, por sua vez, confirmava a hipótese do delegado Mártensson de que o assassino usara munição de caça. O sangue coagulado se tornara uma mancha preta e cor de ferrugem que cobria tão extensamente o piso que os paramédicos e técnicos tinham sido obrigados a pisar nela, deixando assim marcas em todo o apartamento. Holmberg cobrira seus tênis com sacos de plástico azul.
Para ele, a verdadeira investigação do crime começava agora. Os corpos das duas vítimas tinham sido removidos. Jerker Holmberg estava sozinho no local depois da saída dos dois técnicos. Eles tinham fotografado as vítimas, medido os respingos de sangue nas paredes e discutido sobre as áreas respingadas e a velocidade dos pingos. Holmberg conhecia aquele tipo de especulação, mas só mostrara um interesse distraído pelos exames técnicos. O trabalho dos técnicos iria resultar num relatório volumoso que revelaria detalhadamente onde o assassino se posicionara em relação às vítimas e a que distância e em que ordem os tiros tinham sido disparados, e quais impressões digitais poderiam ter alguma importância. Para Jerker Holmberg, porém, isso não apresentava o menor interesse. Os exames técnicos não forneceriam uma só palavra sobre a identidade do assassino nem sobre o motivo que ele ou ela - já que o principal suspeito era uma mulher - tivera para cometer aqueles crimes. Eram essas perguntas que cabia a ele elucidar.
Jerker Holmberg começou pelo quarto. Colocou uma pasta surrada numa cadeira e pegou um ditafone, uma câmera digital e um bloco de anotações.
Primeiro, abriu as gavetas de uma cômoda que ficava atrás da porta. As duas gavetas superiores continham roupa de baixo, pulôveres e um porta-joias que obviamente tinham pertencido a Mia Bergman. Dispôs os objetos sobre a cama e examinou o porta-joias em detalhes, concluindo que não continha nada de grande valor. Na gaveta de baixo achou dois álbuns de fotos e duas pastas com contas domésticas. Ligou o ditafone.
“Relatório de apreensão na Bjôrneborgsvãgen, número 8b. Dormitório, gaveta inferior da cômoda. Dois álbuns de fotografias encadernados, formato A4. Uma pasta preta intitulada ‘Doméstico’ e uma pasta azul intitulada ‘Certidões de Propriedades’, com documentos referentes ao financiamento e à amortização de um apartamento. Uma caixa com cartas, postais e objetos pessoais.”
Levou os objetos até o hall e os enfiou numa sacola de viagem. Prosseguiu nas gavetas dos criados-mudos de um lado e outro da cama de casal, porém não encontrou nada de interessante. Abriu os armários e separou as roupas, tateou todos os bolsos e xeretou os sapatos em busca de algum objeto esquecido ou escondido, depois voltou a atenção para as prateleiras superiores. Abriu caixas grandes e pequenas. Encontrou aqui e ali papéis e objetos que, por diferentes motivos, incluiu no relatório de apreensão.