—E quem é Miriam Wu? - perguntou Ekström.
—Ainda não sabemos grande coisa sobre ela. Não tem ficha na polícia. O Hans Faste vai se encarregar de procurá-la a partir de amanhã.
—Quer dizer que a Salander não está na Lundagatan?
—Nada indica que ela more lá. Para começar, as roupas que estão no armário não são do tamanho dela.
—E que roupas, precisava ver! - disse Hans Faste.
—O que têm as roupas? - perguntou Ekström.
—Não são bem do tipo que se dá de presente no Dia das Mães.
—Nesse momento, não sabemos nada sobre Miriam Wu - disse Bublanski.
—Caramba, o que mais a gente precisa? O armário dela está cheio de uniformes de puta.
—Uniformes de puta? - espantou-se Ekström.
—Quer dizer, couro, vinil, cinta-liga e mais umas tralhas fetichistas e brinquedos sexuais numa gaveta. E não parece coisa barata.
—Você está querendo dizer que Miriam Wu é uma prostituta?
—Neste momento, não sabemos nada sobre Miriam Wu - repetiu Bublanski, para ser mais claro.
—A investigação feita pelo Serviço Social alguns anos atrás dava a entender que Lisbeth Salander tinha um pé nesse universo - disse Ekström.
—O Serviço Social costuma saber do que está falando - observou Faste.
—O relatório do Serviço Social não se baseia em nenhuma interpelação ou investigação - disse Bublanski. —A Salander foi pega no Parque de Tantolunden, quando tinha dezessete anos, na companhia de um homem muito mais velho. No mesmo ano, foi detida por embriaguez. Também na companhia de um homem de muito mais idade.
—Você quer dizer que não devemos tirar conclusões precipitadas - disse Ekström. —Certo. Mas chama a atenção o tema da tese de Mia Bergman: tráfico de mulheres e prostituição. Existe, portanto, uma possibilidade de ela ter tido contato com a Salander e com essa Miriam Wu por causa do trabalho, que as tenha provocado de alguma maneira e que isso tenha servido de motivo para o crime.
—A Bergman talvez tenha entrado em contato com o tutor e desencadeado uma espécie de avalanche - sugeriu Faste.
—Pode ser - disse Bublanski. —Mas cabe à investigação esclarecer esse ponto. O que importa no momento é encontrar Lisbeth Salander. Ela aparentemente não mora nesse endereço da Lundagatan. O que significa que também temos que encontrar Miriam Wu e perguntar como ela foi parar nesse apartamento e qual a relação dela com a Salander.
—E como a gente faz para encontrar a Salander?
—Ela está lá fora, em algum lugar. O problema é que o único endereço que ela teve a vida inteira é esse da Lundagatan. Não comunicou nenhuma mudança.
—Não esqueça que ela também esteve internada no Sankt Stefan e entregue a diversas famílias adotivas.
—Não esqueço. - Bublanski conferiu sua papelada. —Quando ela tinha quinze anos, foi adotada por três famílias diferentes. Não deu muito certo. Desde um pouco antes de completar dezesseis anos até os dezoito anos, morou com um casal de Hàgersten, Fredrik e Monika Gullberg. Curt Bolinder vai vê-los hoje à noite, depois de falar com o orientador da Mia Bergman na universidade.
—E sobre a coletiva de imprensa, o que a gente faz? —Faste quis saber.
Às sete da noite, o clima na sala de Erika Berger estava pesado. Mikael Blomkvist permanecera calado e praticamente imóvel desde que o inspetor Bublanski fora embora. Malu Eriksson tinha ido de bicicleta até a Lundagatan para cobrir a intervenção da força policial. Voltou para contar que aparentemente ninguém tinha sido preso e que o trânsito na rua já estava liberado. Henry Cortez ligara para comunicar que a polícia estava procurando uma mulher cujo nome ainda não fora divulgado. Erika o informou sobre a identidade da mulher.
Erika e Malu conversaram sobre a conduta que deveriam adotar, mas não chegaram a nada sensato. A situação se complicava pelo fato de Mikael e Erika conhecerem o papel de Lisbeth Salander no caso Wennerstrôm - na qualidade de uma hacker de primeira categoria, ela tinha sido a fonte secreta de Mikael. Malu Eriksson desconhecia esse fato e nunca ouvira falar em Lisbeth Salander antes disso. Daí os misteriosos silêncios em meio à conversa.
—Vou para casa - disse Mikael Blomkvist, levantando-se de repente. —Estou tão cansado que não consigo mais pensar. Preciso dormir.
Olhou para Malu.
—Temos bastante pano para manga. Amanhã é Sexta-feira Santa e pretendo aproveitar para dormir e separar uns documentos. Malu, você poderia trabalhar no fim de semana?
—Eu tenho escolha?
—Não. Começamos no sábado ao meio-dia. Você não iria lá para casa em vez de ficar aqui na redação?
—Combinado.
—Quero reformular as diretrizes que definimos hoje de manhã. Já não se trata apenas de descobrir se as revelações do Dag e da Mia tiveram alguma relação com o crime. Agora se trata de descobrir quem matou o Dag e a Mia.
Malu se perguntou como eles poderiam fazer isso, mas não disse nada. Mikael acenou despedindo-se de Malu e Erika e saiu sem mais nenhum comentário.
Às sete e quinze, Bublanski, o responsável pela investigação, acompanhou a contragosto o chefe do inquérito preliminar Ekström até o estrado do centro de comunicação da polícia. A coletiva de imprensa fora marcada para as dezenove horas, e eles estavam quinze minutos atrasados. Ao contrário de Ekström, Bublanski não tinha o menor interesse em ficar sob as luzes da ribalta diante de uma dúzia de câmeras de televisão. Ser a estrela desse tipo de situação deixava-o, acima de tudo, em pânico - nunca iria se acostumar a se ver na tevê e nunca sentiria prazer nisso.
Ekström, em contrapartida, estava como um peixe dentro d’água. Ajustou os óculos, exibindo uma fisionomia séria e adequada. Deixou que os fotógrafos disparassem seus flashes por alguns instantes antes de erguer as mãos e pedir silêncio na sala. Falou como se estivesse lendo um discurso pronto.
—Permitam-me desejar boas-vindas a todos nesta coletiva de imprensa um tanto apressada, sobre os assassinatos ocorridos ontem à noite em Enskede. Temos novas informações que gostaríamos de lhes comunicar. Meu nome é Richard Ekström, sou procurador, e esse é o inspetor Jan Bublanski, da brigada criminal regional, que está à frente das investigações. Vou ler um comunicado e em seguida os senhores podem fazer perguntas.
Ekström calou-se e contemplou aquela tropa do corpo jornalístico que se mobilizara em apenas meia hora. Os assassinatos de Enskede eram um assunto sensacional, em vias de crescer ainda mais. Constatou, satisfeito, que Aktuellt, Rapport e a TV4 estavam presentes, e reconheceu repórteres da agência TT e de vários jornais matutinos e vespertinos. Havia, além disso, um grande número de repórteres que ele não conhecia. Ao todo, vinte e cinco jornalistas, pelo menos, estavam reunidos na sala.
—Como sabem, duas pessoas foram brutalmente assassinadas em Enskede ontem, pouco antes da meia-noite. Ao ser examinado o local do crime, foi encontrada uma arma, um Colt 45 Magnum. O Laboratório Criminalístico do Estado confirmou hoje que se trata da arma do crime. Sabemos quem é o proprietário da arma e procuramos por ele durante o dia de hoje.
Ekström fez uma pausa oratória.
—Hoje, por volta das dezessete horas, o proprietário da arma foi encontrado morto em sua casa, próxima de Odenplan. Foi atingido por um tiro e provavelmente já estava morto na hora do duplo homicídio de Enskede. A polícia —Ekström virou a mão na direção de Bublanski - tem fortes motivos para acreditar que se trata de um mesmo e único culpado, indivíduo este que, portanto, está sendo procurado por três assassinatos.
Fez-se um burburinho entre os jornalistas quando muitos deles começaram a sussurrar ao mesmo tempo em seus celulares. Ekström elevou um pouco a voz.
—Vocês têm algum suspeito? - gritou um repórter de rádio.
—Agradeço se não me interromperem, já estou terminando. A situação, neste momento, é de que uma pessoa foi identificada e que a polícia gostaria de interrogá-la sobre os três assassinatos.