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Malu refletiu alguns instantes.

—Entendo o que você quer dizer - ela falou hesitante. —Mas você não tem nenhuma prova dessa teoria.

—Não. Nenhuma.

—O que você acha? Ela é ou não culpada? Mikael demorou para responder.

—Vou colocar as coisas assim: se ela é capaz de matar? A resposta é sim. Lisbeth Salander tem uma natureza violenta. Eu a vi em ação quando...

—Quando salvou sua vida? Mikael assentiu com a cabeça.

—Não posso contar em que contexto. Mas um homem pretendia me matar e estava prestes a conseguir. Ela interveio e o machucou seriamente com um taco de golfe.

—E você não contou nada disso para a polícia.

—Absolutamente nada. Fica só entre nós dois.

—Certo.

Ele olhou para ela com um ar tremendamente sério.

—Malu, eu preciso confiar em você nesta situação.

—Não vou falar nada do que nós dois conversamos para ninguém. Nem para o Anton. Você não é só o meu chefe; eu gosto de você e não quero te prejudicar.

Mikael meneou a cabeça.

—Desculpe - disse ele.

—Pare de ficar o tempo todo se desculpando. Ele riu e depois voltou a ficar sério.

—Estou convencido de que, se necessário, ela o teria matado para me defender.

—Certo.

—Mas o fato é que também a vejo como uma pessoa muito racional.

Singular, isso sim, mas absolutamente racional de acordo com seus próprios princípios. Ela agiu com violência porque era preciso e não porque estava a fim. Ela teria que ter uma razão para matar, ser ameaçada e provocada ao extremo.

Ele refletiu mais um pouco. Malu o observava pacientemente.

—Não posso falar sobre o tutor. Não sei nada a respeito dele. Mas para mim é impossível imaginar Lisbeth matando o Dag e a Mia. Não acredito nisso.

Ficaram mais algum tempo em silêncio. Malu deu uma olhada no reló­gio e percebeu que eram nove e meia.

—Já é tarde. Vou para casa - disse ela. Mikael meneou a cabeça.

—Passamos o dia inteiro nisso. Amanhã a gente continua botando os neurônios para funcionar. Não, deixe a louça para lá... eu cuido disso.

Na noite de sábado para o domingo de Páscoa, Armanskij estava com insônia, escutando a respiração barulhenta de Ritva. Ele tampouco conseguia esclarecer aquela tragédia. Por fim, se levantou, enfiou as pantufas, vestiu um roupão e foi até a sala. O ar estava frio e ele pôs mais lenha na salamandra, abriu uma cerveja e sentou-se para contemplar a noite por sobre o canal de Furusund.

O que é que eu sei?

Dragan Armanskij podia confirmar sem muito problema que Lisbeth Salander era doida e imprevisível. Quanto a isso não havia a menor dúvida.

Ele sabia que alguma coisa tinha acontecido no inverno de 2003, quando ela de repente deixara de trabalhar para ele e sumira no exterior, naquele ano sabático. Estava convencido de que Mikael Blomkvist estava de algum modo envolvido nesse sumiço repentino. Mas Mikael tampouco sabia o que tinha acontecido, nem por que ela sumira de repente.

Ela tinha voltado e lhe fizera uma visita. Afirmara ser “financeiramente independente”, o que Armanskij havia interpretado como um modo de dizer que ela tinha dinheiro suficiente para se virar por algum tempo.

Ela visitara Holger Palmgren durante toda a primavera. Não entrara em contato com Mikael Blomkvist.

De repente, matara três pessoas, sendo que duas, aparentemente, eram perfeitas desconhecidas para ela. Não bate. Não faz sentido.

Armanskij bebeu direto no gargalo e acendeu uma cigarrilha. Também se sentia culpado, o que contribuía para o mal-estar que vinha arrastando durante todo o feriado.

Quando Bublanski fora vê-lo, não hesitara em fornecer todas as informações que pudessem ajudar na captura de Lisbeth Salander. Parecia-lhe incontestável que ela precisava ser detida - quanto antes melhor. Mas sentia-se culpado por ter uma opinião tão ruim sobre Lisbeth a ponto de ter aceitado, sem questionar, o fato de ela estar sendo acusada. Armanskij era realista. Se a polícia afirmava que uma pessoa era suspeita de assassinato, havia grandes chances de que ela fosse mesmo. Logo, Lisbeth Salander era culpada.

Mas a polícia não levava em conta o fato de que Lisbeth Salander talvez julgasse ter um motivo para agir como agira - circunstâncias atenuantes ou, pelo menos, uma explicação plausível para sua fúria. A tarefa da polícia era prendê-la e provar que ela tinha disparado aqueles tiros, e não vasculhar seus neurônios e explicar o porquê daquilo. Eles se contentavam em descobrir uma motivação mais ou menos plausível para os atos dela, mas também estavam prontos, caso não achassem explicação, para afirmar que se tratara do gesto de uma demente. Lisbeth Salander constitui uma doente mental assassina ideal. Ele balançou a cabeça.

Dragan Armanskij não gostava dessa explicação.

Lisbeth Salander nunca fazia nada contra a sua vontade e sem pesar as conseqüências.

Especial, sim. Louca, não.

Portanto, havia uma explicação, mesmo que obscura e inacessível para alguém de fora.

Por volta das duas da manhã ele tomou uma decisão.

17 - DOMINGO DE PÁSCOA 27 DE MARÇO – TERÇA-FEIRA 29 DE MARÇO

Dragan Armanskij se levantou cedo no domingo, depois de uma noite de ruminações agitadas. Desceu de mansinho, sem acordar a mulher, preparou café e umas fatias de pão. Depois abriu o laptop e se pôs a escrever.

Usou o mesmo formulário de relatório que a Milton Security utilizava na investigação de pessoas. Preencheu o relatório com todos os dados que conseguia juntar sobre a personalidade de Lisbeth Salander.

Por volta das nove, Ritva desceu para tomar café. Perguntou o que ele estava fazendo. Ele respondeu de forma evasiva enquanto seguia escrevendo com obstinação. Ela conhecia suficientemente o marido para saber que ele estaria inacessível pelo resto do dia.

Mikael se enganara, sem dúvida porque era Páscoa e a delegacia estava relativamente vazia. Precisou esperar até domingo de manhã para que a mídia descobrisse que ele é quem tinha encontrado os corpos de Dag e Mia. O primeiro a ligar, quando Mikael ainda estava deitado, foi um repórter Aftonbladet, um velho conhecido seu.

— Oi, Blomkvist. Aqui é o Nicklasson.

—Oi, Nicklasson - disse Mikael.

—Foi você que encontrou o casal de Enskede? Mikael confirmou.

— Tenho um informante que diz que eles estavam trabalhando para a Millennium.

—O seu informante está meio certo e meio errado. O Dag Svensson estava trabalhando como freelancer numa reportagem para a Millennium. Mia Bergman, não.

—Caramba. Que puta furo.

—É, imagino que sim - disse Mikael, cansado.

—Por que vocês não fizeram um comunicado?

—O Dag Svensson era um amigo e um colega. Achamos mais correto deixar a família saber do acontecido antes de publicar qualquer coisa a respeito.

Mikael sabia que não seria citado nesse ponto.

—Certo. No que o Dag Svensson estava trabalhando?

—Num tema para a Millennium.

—Sobre o quê?

—Que informação exclusiva o Aftonbladet pretende publicar amanhã?

—Quer dizer que é uma informação exclusiva?

—Não enche Nicklasson.

—Ah, Bloomy, seja bonzinho, vai. Você acha que os assassinatos têm alguma coisa a ver com a matéria em que o Dag Svensson estava trabalhando?

—Se você me chamar de Bloomy outra vez, eu desligo e fico o resto do ano sem falar com você.