—Desculpe. Você acha que o Dag Svensson foi morto por causa do trabalho de investigação jornalística?
—Não faço a menor idéia do motivo por que o Dag Svensson foi morto.
—O trabalho dele tinha alguma coisa a ver com a Lisbeth Salander?
—Não, nada a ver.
—Você sabe se o Dag conhecia a maluca da Salander?
—Não.
—O Dag já escreveu um bocado de textos sobre a cibercriminalidade. Era nesse tipo de assunto que ele estava trabalhando para a Millennium?
—Puxa, cara, você não desgruda - pensou Mikael, já a ponto de mandar Nicklasson ir catar coquinho, mas então conteve-se bruscamente e se endireitou na cama. Duas idéias paralelas lhe ocorreram de repente. Nicklasson disse mais alguma coisa.
—Nicklasson, espere um minuto. Fique na linha. Eu já volto. Mikael se levantou e pôs a mão no aparelho. Súbito, achava-se num outro planeta.
Desde os assassinatos, Mikael vinha se torturando pensando num jeito de contatar Lisbeth Salander. Era grande a probabilidade de ela ler suas declarações, onde quer que estivesse. Se ele negasse que a conhecia, ela poderia interpretar isso como abandono da parte dele, ou que ele a tivesse entregado para a mídia. Se a defendesse, os outros interpretariam que Mikael sabia mais do que dizia sobre os assassinatos. Se ele se pronunciasse de forma adequada, poderia fazer que Lisbeth tivesse a idéia de procurá-lo. Era uma oportunidade boa demais para deixar escapar. Ele precisava dizer alguma coisa. Mas o quê?
—Desculpe Nicklasson. Voltei. O que você estava dizendo?
—Eu perguntei se o Dag Svensson não estava escrevendo sobre cibercriminalidade.
—Se quiser uma declaração minha, eu dou.
—Sinal verde.
—Você vai ter que me citar fielmente.
—De que outro jeito eu poderia te citar?
—Prefiro não responder a essa pergunta.
—O que você quer me dizer?
—Te mando um e-mail dentro de quinze minutos.
—O quê?
—Dê uma olhada nos seus e-mails daqui a quinze minutos - disse Mikael, e desligou.
Mikael sentou-se à escrivaninha e ligou o iBook e o Word. Depois se concentrou dois minutos antes de começar a escrever.
Erika Berger, diretora da Millennium, está profundamente tocada pelo assassinato do jornalista freelancer Dag Svensson, que era também seu colaborador. Espera que esses crimes sejam rapidamente elucidados.
Mikael Blomkvist, jornalista responsável pela Millennium, foi quem encontrou seu colega e a namorada, assassinados na noite de Quinta-feira Santa.
“Dag Svensson era um jornalista fora de série e um ser humano de quem eu gostava muito. Ele tinha várias idéias para reportagens. Estava, entre outras coisas, trabalhando numa grande matéria sobre a ciberpirataria”, confidenciou Mikael ao Aftonbladet.
Nem Mikael Blomkvist nem Erika Berger querem arriscar nenhum tipo de especulação sobre o culpado dos crimes ou sobre seus possíveis motivos.]
Em seguida, Mikael pegou o telefone e ligou para Erika Berger.
—Oi, Ricky, você acaba de ser entrevistada pelo Aftonbladet.
—Ah, é?
Ele leu rapidamente o texto que havia escrito.
—Por que isso? - perguntou Erika.
—Porque é a verdade. O Dag trabalhou uns dez anos como frila, e uma das áreas de atuação dele era justamente segurança em computação. Conversei várias vezes com ele sobre o assunto e até tínhamos pensado na possibilidade de retomar um texto dele depois da matéria sobre o tráfico de mulheres.
Ele esperou uns segundos antes de prosseguir.
—Você conhece mais alguém que se interesse por essas questões ligadas à ciberpirataria? - perguntou.
Erika Berger ficou um instante calada. Então entendeu o que Mikael estava tentando fazer.
—Muito esperto Mikael. Realmente esperto. Está bem, vá em frente. Nicklasson ligou um minuto depois de receber o e-mail de Mikael.
—Essa declaração não vale um tostão furado.
—Mas é só isso, e é mais do que qualquer outro jornal vai conseguir. Ou você publica tudo, ou então não publica nada.
Tão logo enviou as declarações para Nicklasson, Mikael sentou-se novamente à sua mesa. Pensou um pouco e então começou a digitar no teclado.
[Cara Lisbeth,
Escrevo esta carta sabendo que mais cedo ou mais tarde você vai lê-la no meu disco rígido. Lembro de como você invadiu o disco de Wennerström há dois anos e imagino que também tenha aproveitado a oportunidade para clonar o meu. A esta altura, já entendi que você não quer nada comigo. Ainda não sei por que você rompeu nossa relação daquele jeito, mas não tenho a intenção de te perguntar e você não precisa me explicar.
Infelizmente, você querendo ou não, os acontecimentos dos dois últimos dias tornaram a nos aproximar. A polícia afirma que você matou a sangue-frio duas pessoas de quem eu gostava muitíssimo. Não tenho como questionar a brutalidade desses assassinatos - fui eu quem encontrou o Dag e a Mia poucos minutos depois que atiraram neles. O problema é que não acho que tenha sido você. Em todo caso, espero que não. Se, como a polícia afirma você for uma assassina psicopata, isso quer dizer que me enganei redondamente a seu respeito, ou então que você mudou incrivelmente no último ano. E se não for você a assassina, isso significa que a polícia está caçando o suspeito errado.
Neste ponto, eu deveria te aconselhar a desistir e se entregar para a polícia. Desconfio, porém, que estaria falando com as paredes. O fato é que a sua situação é insustentável e, mais cedo ou mais tarde, você será detida. E quando for detida vai precisar de um amigo. Se não quiser contar comigo, eu tenho uma irmã. o nome dela é Annika Giannini, ela é advogada. Falei com ela e ela está disposta a te representar se você entrar em contato com ela. Pode confiar totalmente nela.
Na Millennium, começamos nossa própria investigação sobre os assassinatos do Dag e da Mia. No momento, estou montando uma lista das pessoas que teriam bons motivos para calar Dag Svensson. Não sei se estou na pista certa, mas vou passar em revista, uma por uma, as pessoas dessa lista.
O problema é que não vejo onde o Dr. Nils Bjurman entra nessa história. Ele não consta no material do Dag, e não encontro nenhum elo entre ele, o Dag e a Mia.
Ajude-me, please. Qual é esse elo? Mikael.
P. S. Você deveria tirar outra foto para a sua carteira de identidade. Essa não lhe faz justiça.]
Ele pensou mais um pouco e então deu ao documento o nome [Para Sally]. Depois, criou uma pasta [LISBETH SALANDER] e colocou bem à vista na área de trabalho do seu iBook.
Na terça-feira de manhã, Dragan Armanskij convocou três pessoas para uma reunião em torno da mesa redonda da sua sala da Milton Security.
Johan Frãklund, de sessenta e dois anos, ex-inspetor de polícia em Solna, era o chefe da unidade de intervenção da Milton. Frãklund respondia pelo planejamento e análises. Armanskij o recrutara no funcionalismo do Estado dez anos antes e, com o passar do tempo, passou a considerá-lo um dos mais competentes funcionários da empresa.
Armanskij também chamou Steve Bohman, de quarenta e oito anos, e Niklas Eriksson, de vinte e nove. Bohman, tal como Frãklund, era um ex-policial. Formado na brigada de intervenção de Norrmalm nos anos 1980, chegara à brigada criminal, onde conduzira dúzias de investigações pesadas. Bohamn fora um dos protagonistas da investigação sobre o Homem do Laser no início dos anos 1990 e, em 1997, depois de alguma persuasão e a proposta de um salário consideravelmente maior, passara para a Milton.
Niklas Eriksson não possuía uma ficha desse nível. Estudara na escola de polícia, mas na última hora, um pouco antes de prestar o exame, descobriu que sofria de uma insuficiência cardíaca congênita que não só exigia uma intervenção cirúrgica de peso como significava que sua futura carreira como policial estava indo para o brejo.